sábado, 13 de fevereiro de 2010

"A OUTRA PERNA DO SACI". LIVRO DO ESCRITOR APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA, COM 25 TEXTOS. PUBLICADO PELA EDITORA SUCESSO SÃO PAULO. PREFÁCIO DO JORNALISTA ZECA CAMARGO.

1


A

OUTRA

PERNA

DO SACI

2

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser reproduzida

ou transmitida por quaisquer formas ou meios, eletrônicos ou mecânicos, incluindo

fotocópias, gravações ou qualquer outro tipo de arquivamento de informações,

sem autorização por escrito do autor.

3

A OUTRA PERNA

DO SACI

2009

Aparecido Raimundo de Souza

São Paulo - SP

Ed. Sucesso

4

Organização editorial

Denise Barros

Revisão

Jussára C. Godinho

Projeto gráfico e Diagramação eletrônica

Denise Barros

Capa

Claus Ritter

Impressão digital e acabamento

Docuprint

Índice para catálogo sistemático:

1. Histórias curtas CDU 82-32

2. Sexo - Ficção CDU 82-311.2

© 2009 Celeiro de Escritores

www.celeirodeescritores.org

SOUZA, Aparecido Raimundo de

A outra perna do saci / Aparecido Raimundo de Souza -

São Paulo, SP: Ed. Sucesso, 2009.

170 p. ; 21 cm.

ISBN 978-85-89091-10-7

1. Histórias curtas. 2. Sexo-Ficção. I. Souza, Aparecido

Raimundo de. II. Título.

CDU 82-32

© 2009 Aparecido Raimundo de Souza

Brasil

5

Agradeço e ofereço este livro à jornalista

Patrícia Maldonado, que, gentilmente,

me ofereceu apoio e incentivo.

Minha gratidão

6

7

Sinfonia escarlate............................................... 011

Celulares........................................................... 021

Pentelho............................................................ 027

Segundas intenções............................................ 033

Olhos sobre tela................................................ 039

Missão quase impossível.................................... 043

Um intruso no formigueiro.................................. 049

Persuasão.......................................................... 055

Nó na garganta.................................................. 063

Anjo noturno..................................................... 073

Demônios eternos.............................................. 077

Zona de impacto................................................ 081

Foi tudo culpa da pia......................................... 085

Gêmeas............................................................. 089

Doutor Boris...................................................... 097

Radical.............................................................. 103

Lâmpada milagrosa............................................ 109

Fofoqueiras....................................................... 115

Camisa de onze varas........................................ 125

Iniciação............................................................ 133

Para bom entendedor uma cerveja basta............ 141

Xeque-mate....................................................... 147

Mico................................................................. 151

Código de honra................................................ 155

Reação em cadeia.............................................. 161

Sumário

8

9

O escritor Aparecido Raimundo de Souza nos presenteia,

mais uma vez, com uma série de textos inéditos. Ele continua

a esmiuçar o dia-a-dia, sem cair no cotidiano. Zombeteiro,

irreverente, sarcástico e gozador, faz questão de trazer à

baila as questiúnculas comuns que nos cercam, como bem se

pode ver no texto que encabeça o livro.

O drama da jovem Aruca, como descrito em “Sinfonia

escarlate”, pode estar sendo vivido agora por uma de nossas

filhas, debaixo de nossos olhos e, pior, sem que nada possamos

fazer a respeito. Não devemos esquecer que, em torno de

nós, existem milhares de elementos com a personalidade doentia

de Zanzonho, a espera, apenas, de uma brecha, de uma

oportunidade para atacar, objetivando, a satisfação pessoal,

ainda que às custas das lágrimas de inocentes e incautas

donzelas.

“Sinfonia escarlate” revela, pois, com maestria, numa

linguagem simples e sem rebusques, o trágico a que estamos

expostos, seja em famílias pobres ou abastadas. Aparecido

Raimundo de Souza, entretanto, não lida somente com as

mazelas e as enfermidades que nos afligem. Ele se envereda,

igualmente, por caminhos onde discute as questões surgidas

com a evolução desenfreada da modernidade dos tempos atuais,

aí embutidas as intempéries da globalização, que, por sua

vez, nos transformam em bobos da corte de um consumismo

conturbado. O texto “Mico” reflete muito claramente o grau

de imbecilidade que tomou conta da nossa personalidade e

fez de nós, seres humanos, meros fantoches movidos por marionetes.

Prefácio

10

É o caso, por exemplo, dos “Celulares”, onde as pessoas

perdem a sua identidade e se expõem ao escárnio e ao ridículo.

Já em “Segundas intenções” prova que somos um bando

de bufões girando em torno de uma sociedade de hipócritas.

Estamos perfilados em torno de um enorme picadeiro,

gracejando, desordenadamente, para agradar a banda contaminada

dessa burguesia podre que nos pisoteia os sonhos e

as esperanças de horizontes mais abastados. Dessa forma, seja

através do nom sense, vivido pelo engraçado médico Dr. Boris,

formado pela Sorbonne, de Paris, ou na voz de personagens

pitorescos, como Pantolfo, em “Nó na garganta”, Bilico

Tanajura em “Gêmeas”, e Tangerino Chupado em “Lâmpada

milagrosa”, que, Aparecido Raimundo de Souza,

obcecadamente, nos coloca, sem máscaras, diante de um imenso

espelho. Mostra que, o pouco da dignidade que nos resta,

fazemos questão de deixar ser levada, arrebatada, literalmente,

como água corrente, pelos ralos da imbecilidade que

criaram vida e forma dentro de nossas almas.

“A OUTRA PERNA DO SACI” com os 25 textos que o

compõem, é uma espécie de tapa direto no rosto de cada um

de nós. E, como tal, age como se fosse uma bordoada de alerta

nos nossos brios; uma pancada de sobreaviso na nossa moral;

uma cacetada na desatenção que mantemos viva e

pulsante dentro de nossa vidinha medíocre e sem sentido; uma

espécie de direcionamento. Enfim, Aparecido nos convida a

parar e a meditar na tênue luz que ainda pode ser vista no fim

do imenso túnel.

(*) Zeca Camargo

*Jornalista

11

Sinfonia escarlate

A CAMPAINHA TOCOU. Uma, duas, dez vezes. Zanzonho

levantou da privada, deu descarga, se enrolou numa toalha amarela

e acorreu abrir a porta. Na sua frente, apareceu Aruca, a vizinha

que morava de parede meia, com os pais e seis irmãos. Tinha

dezessete anos a beldade. Era uma loirinha alta e curvilínea, dona

de um encanto de fazer inveja em qualquer barbado. No belo

rosto, mesmo ao natural e sem os artifícios da maquiagem, algo

misterioso realçava seus dotes de princesa. Antes que o rapaz

fizesse o convite para que entrasse, ela se adiantou e passou

correndo por debaixo do braço dele e se empoleirou no sofá.

- O que houve com seu telefone? Desde ontem venho

tentando falar com você e nada. Que dificuldade!

- O aparelho que comprei pegou dengue.

- O quê?

- Isso que acabou de ouvir. Está com dengue.

- Deixa de papo furado. Ligo aqui no seu fixo e nada. Seu

celular, idem, só dá caixa postal. Que droga!

- Sabe o que é? Ele se apaixonou por essa tal de caixa

postal. Vão até se casar...

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

12

- Engraçadinho. Se não gosta de telefones, por que pediu

à companhia telefônica que instalasse um aqui? E por que, quando

sai pra rua, leva outro pendurado no pescoço? Precisava falar

com você, urgente. Entendeu? Urgente! Caso de vida ou morte...

- Ainda bem que a pressa acabou. Ia entrar no banho

quando você tocou. Tenho um compromisso inadiável e estou

atrasado. Até logo.

- Ei, vem cá. É sério.

- Você disse precisava. No sentido como se expressou

me cheira a queria. Portanto...

- Está legal, seu certinho. Necessito.

- Qual é a urgência? Não me diga que está pensando em

empenhar a tela plana que ganhou da sua tia, no dia do seu

aniversário, e me fazer uma proposta para ficar com a tranqueira

em troca de mais um empréstimo?

- Zanzonho, por favor, não brinque. Todas as vezes que

pedi dinheiro a você eu paguei bonitinho. Nada lhe devo. Estamos

quites.

- Quanto a isso não tenho o que reclamar. Sei que cumpre

com suas obrigações. Diga, pois, em que confusão se meteu desta

vez?

Aruca, embora aparentasse descomedida inquietação, não

perdia os traços de feminilidade. Os loiros cabelos longos, bem

cuidados, caíam em cascata, cobrindo um par de brinquinhos

discretos nas orelhas. Da pele macia como o veludo, exalava um

toque sutil de perfume de alfazema. As maçãs do rosto sobressaíam,

salientes, com a boca rasgada, deixando à mostra uma arcada

dentaria perfeita, com dentes muito brancos. O corte firme do

queixo, os seios fartos e cheios, a cintura fina e sólida, os quadris

generosos e redondos, as coxas fortes, um par de pernas longas e

A outra perna do saci

13

bem feitas. Sem falar no sorriso, na voz suave, nos gestos

delicados, havia um conjunto de pequenos atrativos que dava a

ela um sex-appeal, que exalava inocência, contrastando com um

outro, bem mais adulto, mais sofrido e, ao mesmo tempo,

ligeiramente maroto. Para Zanzonho, tudo nela lembrava o pecado.

Numa das mãos, a graciosa segurava fortemente uma granada de

brinquedo. Aquilo deveria representar uma espécie de válvula de

escape. Talvez, intimamente, alimentasse a idéia de que bastava

algo dar errado e o que tinha a fazer era arrancar o pininho para

que o mecanismo explodisse e voasse com tudo pelos ares.

De repente, todo seu corpo começou a tremer com tanta violência

que mal conseguia manter a postura de moça comportada.

- O que está acontecendo? Quer um copo de refrigerante

ou uma taça de vinho?

- Nem uma coisa, nem outra. Apenas que me dê atenção

e me leve a sério.

- Prometo que assim farei. Agora me conta o que se passa.

Sou todo ouvidos.

Zanzonho sentou ao lado dela e, ao fazê-lo, capturou, não aquele

olhar infantil, de alguns minutos atrás, mas um olhar perdido, de

profundo medo estampado. Parecia que a sua vizinha abrira uma

cratera enorme em seu rosto brejeiro.

- Preciso que me empreste um dinheiro.

- Já percebeu que é só para isso que vem atrás de mim?

- Só conto com você.

- E o Barão, seu namorado?

- Sumiu, escafedeu, virou pó.

- Pra que a grana dessa vez?

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

14

- Psiu! Fale baixo. Estou grávida.

- Legal. E o que eu tenho a ver com a sua trepada mal

dada?

- Você é a única pessoa em quem confio.

- Quem é o pai? O Barão?

- Antes fosse!

- Caraca, se não é o almofadinha, quem conseguiu acertar

a sua veia?

- Importa?

- Quero saber.

- Vai descolar a mixaria?

- Corrija se eu estiver errado. Pretende fazer aborto?

Aruca tampou com a mão direita a boca de Zanzonho. O rapaz

tomou um baita susto com esse gesto inesperado.

- Quer um megafone? Meus pais estão ai ao lado e podem

nos ouvir.

- Com seis praguinhas gritando? Ouça os berros. Acho

pouco provável!

- Meus irmãozinhos não são praguinhas.

- Diabinhos seria uma colocação apropriada.

- E aí? Vai me safar dessa enrascada?

- Totalmente fora dos meus princípios. Sou contra esse

tipo de solução. Acho uma desumanidade. Tô fora!

A outra perna do saci

15

- Zanzonho - implorou Aruca com uma voz cheia de tensão,

o coração batendo violentamente - Pelo amor de Deus. Se você

me deixar na esquina...

- Procure o pai da criança e exponha os fatos. Afinal de

contas, quem pariu Mateus que o embale.

Ela fitou seu vizinho com os olhos gelados.

- O cafajeste rachou no trecho.

- Te deixou na mão, não é?

- Botou no meu cu com força e deu linha.

Zanzonho aproveitou a deixa e atacou.

- No cu também?

- Porra, meu amigo. É jeito de falar. Qual é! Nunca dei

meu traseiro.

- Quer me convencer de que o Barão não enfiou o parafuso

na rosquinha aí atrás e mandou você rebolar?

- Não. Agora, quer, por favor, me escutar? Não foi o Barão.

Ta legal. Vou abrir pra você. Me envolvi com um sujeito e descobri

que ele é casado. Mas isso não tem a menor importância agora.

Não desvirtue o assunto. Vamos voltar ao que interessa. Responda

com sinceridade. Acaso me acha com cara de piranha?

Zanzonho esteve a ponto de dizer que sim com todas as letras.

A gravidez indesejada era prova mais que suficiente para corroborar

uma verdade que logo viria à tona. Contudo, isso poria suas

chances de conseguir alguma coisa rio abaixo.

- Longe de pensar numa barbaridade dessas a seu respeito.

- Então?

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

16

- Então o quê? A propósito, já que estamos aqui, nós dois,

sem testemunhas, mata uma curiosidade que me persegue?

- Que curiosidade?

- Que diabo de tatuagem mandou fazer na... Na perereca?

Aruca emitiu um tipo de som que mais se assemelhava ao de

uma gata assustada sendo expulsa, de surpresa, de cima de uma

mesa cheia de petiscos de ratos. Ficou pasma, paralisada, estática,

a impressão de querer sumir debaixo do tapete a seus pés.

Zanzonho não ouviu quando ela soltou um “como sabe disso, seu

filho da puta?” porque o ventilador de teto que ele se levantou

para ligar passou a ronronar, a toda velocidade, sobre suas cabeças.

Ela ficou furiosa. Possessa. Quando ele voltou a se sentar ao seu

lado, aplicou em seu braço um beliscão violento. Esse gesto, melhor

que mil palavras, demonstrou a fúria interior que lhe subiu às ventas.

- Como descobriu? Não falei pra ninguém. Nem a meus

pais, ou a melhor amiga eu...

Zanzonho pegou a garota pelo braço e a conduziu até o banheiro.

Introduziu–a num reservado onde deveria existir um boxe decente.

Ao invés disso, uma cortina suja e rasgada se esparramava.

No lugar do chuveiro, um cano enferrujado escorria água pela

parede. Ao lado da torneira e do suporte para colocar sabonetes,

um pequeno orifício aparecia, tímido, como um elefante dentro de

um ônibus.

- Espie.

- Credo, Zanzonho. Que mau cheiro! Estava cagando?

- Espie de uma vez.

Aruca se abaixou e meteu o olho. Por ele viu o vaso sanitário

da sua casa, a banheira, o cesto de roupas sujas, os irmãos

correndo e tudo mais que lá existia.

A outra perna do saci

17

- Tarado. Filho da puta!

- Chiiii! Abaixe a voz. Podem nos ouvir.

- Então, você me espia daqui? Cretino!

- Todo os dias. Desde cedo, quando vem mijar ou fazer

cocô. Ouço seus peidinhos... Vejo você escovar os dentes, lavar

as partes... Foi numa dessas peregrinações que deparei com a tal

tatuagem.

- Desgraçado, safado, veado.

- Veado, não. Quando te vejo como veio ao mundo, o

sangue sobe. Perco o controle...

- Vomite de uma vez.

- Deixa baixo. Vamos por etapas. Que tatuagem é aquela?

- É o desenho de um homem pré-histórico fazendo amor

com sua amada.

- Ficou legal. A segunda coisa é o que realmente nos

interessa a ambos. E em cima dela, proponho um trato.

- Um trato? Que trato?

- De quanto você precisa?

- Cinco mil reais.

- Raios me partam. Quantos bebês pretende arrancar desta

barriga?

- Faço o que você quiser. E só pedir.

- Está melhorando. Sendo assim, as conversas podem

tomar outro rumo. Esqueça a tela plana. Como deve ter notado,

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

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tenho uma na sala. Vou ser direto e reto. Bom pra nós dois. Como

você acabou de falar que faz o que eu quiser, aí vai...

- Você quer o meu computador? Fechado!

- Tenha calma. Não quero seu computador.

- Então, o quê?

- Faz realmente o que eu quiser pela grana?

- Faço.

- Pois, então, transe comigo, aqui, agora, e eu libero o

dinheiro.

Aruca começou a sentir nojo pelo seu vizinho, um asco

intolerante que, aos poucos, se transformou em ódio e desprezo.

Não esperava aquilo de Zanzonho. Não numa hora amarga como

aquela. Num momento tão íntimo, quando lhe abria a alma inteira

e pedia ajuda.

- Jamais. Não sou prostituta, não vendo meu corpo.

Vá procurar uma dessas vadias de...

- É pegar ou largar. Quem precisa da bufunfa não sou eu.

- Você é desprezível.

- Não, não sou, mas confesso que quando estou com meus

sentidos grudados em você, no seu corpo, principalmente, na sua

bundinha maravilhosa, a minha emoção aqui no meio das pernas

não consegue ficar em estado letárgico. Isto é ser desprezível?

Tudo começou a rodopiar em volta de Aruca, como se alguém

tivesse tirado a tampa daquele ralo imundo e um redemoinho

gigantesco puxasse seu corpo para dentro.

A outra perna do saci

19

- Por favor, Zanzonho... Não faça isso...

- Me dá o que eu quero e o cascalho vai pra sua mão.

O rosto do rapaz perdeu completamente a cor como se uma

artéria importante houvesse se arrebentado e ele começasse a

perder sangue rapidamente.

- Não, Zanzonho, não... Não... Não...

Por um momento, o ar ficou tão parado e pesado que Aruca

parecia andar embaixo d’água.

- Solta o fiofozinho. Só quero entrar no seu rabicó.

A parada fica aqui, entre nós. Prometo ser discreto e carinhoso.

Vamos, Aruca, me faça presente de seu cuzinho. Eu não mereço?

Pense, cinco mil reais, cinco mil, por um buraco fedido...

No que falava, Zanzonho deixou cair, propositalmente, a toalha.

Apareceu diante dela uma avantajada arma de artilharia, pronta

para entrar em ação. Aruca levou a mão à boca, horrorizada.

Embora não fosse virgem, e tivesse tido experiências sexuais com

vários namoradinhos, nunca vira um pau tão grosso e comprido

como aquele. Zanzonho captou essa fraqueza no ar e não esperou

por uma decisão definitiva. Sem dar tempo à jovem de se refazer

do susto, enlaçou-a pela cintura, ajeitou-a como pode, de quatro,

as mãos agarradas na bacia da privada.

- Sugiro que seja boazinha e aceite como uma coisa natural.

Acho que será pior pra você, lutar contra. Não vai doer. Serei

generoso. Penetrarei sua cauda bem devagar, com todo cuidado.

Enquanto eu desfruto do seu figo, pense na grana, na grana.

Aproveite, minha linda, aproveite para relaxar... E... Claro, gozar...

- Pelo amor de Deus, Zanzonho, não pode fazer isso...

É estu...

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

20

Enlouquecido pelo desejo, Zanzonho pouco se lixava para o

que a garota balbuciava em meio a uma crise convulsiva de choro

e soluço que lhe acometeu. Naquele momento, o desnaturado só

queria saber de dar cabo da sua pretensão. Suspendeu a saia até

a altura das costas e, pausadamente, arriou a calcinha.

O excitamento sexual levou sua afoiteza a rápidas reações

multiorgásticas. Então, mandou brasa. Gritos abafados de dor se

misturaram a urros e deleites, como o de um animal em fúria. Dessa

forma humilhante e, pior que isso, se prevalecendo da necessidade

da pobre garota, Zanzonho entrou nela, penetrou-a violentamente

com tudo o que achava ter direito. Um filete de sangue verteu

silencioso de Aruca, como lava escorrendo ligeira dos lábios de

um vulcão. Foi nessa hora que ela puxou o pininho da granada de

brinquedo e ...

A outra perna do saci

21

NO ÔNIBUS LOTADO, O CELULAR do passageiro, sentado

ao lado da porta da saída, entoa a 9ª Sinfonia de Beethoven.

No terceiro toque o sujeito decide.

- Alô? Alô? Alô?...

Diante da mudez do aparelho, o cidadão espia, meio

desconcertado, para um lado e outro, a fim de averiguar se alguém

olha para ele. Ninguém parece preocupado, embora todas as

atenções estejam discretamente voltadas para sua pessoa. Nova

chamada. Dessa vez, espera uns segundos. Atende, ansioso.

- Alô? Alô? Merda! Alôooa?...

Nada.

Uma moça trajando conjunto verde - parece um abacate

amarrado pelo meio - viaja logo atrás. O telefone dela, com o

“Vamos fugir” também resolve se fazer presente. Ao atender, seu

rosto se ilumina num sorriso mágico.

- Tô chegando, amor...

Celulares

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

22

Há uma pequena pausa.

- Você já está no ponto? Devo pintar aí dentro de uns

cinco ou seis minutos...

Novo intervalo.

- Te amo. Beijos.

Um terceiro celular começa a encher o saco com a Pantera

Cor de Rosa. A colegial com o rosto abarrotado de espinhas emite

uns gritinhos estridentes antes de iniciar a conversação.

- Rodriguinho, seu veado. Isso lá é hora de ligar?

A 9ª Sinfonia de Beethoven volta à baila e se mistura com a

voz da adolescente.

- Alô? Alô? Alô?

Desta vez a ligação se completa. O passageiro ao lado da porta

da saída consegue, finalmente, manter o diálogo com seu

interlocutor.

- Legal, cara. Parabéns!

Gesticula e fala alto o suficiente para irritar um defunto. Sem

um pingo de decência, age como se perto dele não houvesse uma

leva de pessoas que merecesse, ao menos, respeito e educação.

- Até que enfim. Então você está indo pra Portugal? Faça

uma boa viagem, meu amigo. O Pedro te manda um abraço.

A Luíza um beijo, o Carlos um puxão de orelhas...

“Vamos fugir” volta a disparar no telefone da moça de verde.

Ela prontamente atende:

- Amor, tenha um pouco de paciência. Que loucura!

O quê? Fala mais alto...

A outra perna do saci

23

De repente, a coisa toma proporções descomunais. A colegial

pisa em ovos de tão indignada e irritada.

- Vá pra merda, Rodriguinho. Não me racha a cara!

O sujeito no banco ao lado da porta parece um lunático.

- Seu avião sai a que horas? As 19? De onde? Eu...

O quê?

Lado esquerdo do coletivo, um casal assiste a tudo com os

olhos arregalados. A certa altura, o rapaz comenta, num cochicho:

- É mole ou quer mais?

- As pessoas – observa a moça igualmente aos murmúrios

- perderam o senso do ridículo. A sensatez foi pro brejo. Ninguém

respeita mais a individualidade.

- Virou febre esse negócio. Todo mundo agora tem celular.

Li, ontem, no jornal, que estão à venda, no mercado, aparelhos

celulares de última geração para cachorros.

Risos.

- Fala sério? Qual o quê! Isso é piada!

- Não é não. Agora, além de hospitais, hotéis e

restaurantes, os cachorros poderão contar com mais essa vantagem.

Celular para cães e gatos.

- Se for verdade o que está me dizendo, minha nossa.

Será o cúmulo do absurdo. A que ponto chegamos. Olhe só para

essa gente. Parece um bando de alucinados. Ninguém se entende.

Um homenzarrão puxa a campainha. Pessoas se levantam.

Outras tantas tomam posição para apear.

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

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- Vá se lixar, Ro...

- Olhe, se lá em Portugal não tiver mulher que sirva, volta

e leva uma brasileira. As mais bonitas do mundo estão aqui, meu

chapa...

- Rodriguinho, eu pensava, até agora, que você fosse do

conceito. Me enganei redondamente. Vá pro inferno, ta ligado?

A moça de verde pula do banco ao ver o rapaz que a espera,

na calçada defronte à porta de acesso de uma loja de

departamentos. Passa a mão no telefone e disca um número da

memória.

- Ei, amor, olha euzinha aqui. Cheguei. Já me enxergou?

Estou te vendo. Me dê adeusinho!

Nessa hora, então...

- A mãe te manda um abraço. Vá com Deus. Chegando

em Lisboa, ligue... Entendeu? Ligue, ligue, ligue, cacete!...

No mesmo clima.

- Rodriguinho, ô, sem noção, o bagulho por aqui tá tenso.

Meu namorado não vai gostar. Com certeza levará um “lero”

contigo, e, depois, com certeza, te comerá na porrada, meu...

A moça de verde, afoita:

- Com licença, meu senhor... Com licença...

- Calma, senhorita. Vou ficar aqui também. Deixe ao menos

o motorista parar e liberar a traseira.

-... De Lisboa? Puta que pariu!

-... Ro, Ro, cuidado com a tribo, malandro. Quer saber?

Estou injuriada. Vá se foder de verde e amarelo...

A outra perna do saci

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-... Amor, amor, estou descendo...

Sobra o casal acomodado no lado esquerdo, rindo da galera a

mais não poder.

- Odeio celular – pondera a jovem, depois que todos saem

- parece que esses trocinhos controlam nossa vida. Aliás, dominam,

vivem no nosso pé. Jogaram, definitivamente, para o ralo a nossa

intimidade.

- Estou com você – completa o rapaz – O negocio é bom,

mas, em certas horas, se torna deselegante, cai no vulgar. Tira a

privacidade. Imagine, daqui a algum tempo, como lhe falei, ainda

a pouco, a gente cruzando na rua, com essas madames, metidas à

besta, atendendo ao telefone. “É pra você, Fifizinha!”. E o animal,

posudo: “- Agora não posso, estou ocupada, lendo Os Melhores

Contos de Cães e Gatos do meu amigo Flavio Moreira da Costa.

Peça para me ligar mais tarde”.

A jovem se abre num sorriso contagiante. Pensa em responder

alguma coisa. Entretanto, seu celular estronda Tchaikovsky.

- Desculpe. Meu marido...

Pede licença, baixa a cabeça. Sem tirar o aparelho do ouvido

se acomoda num banco lá na frente, ao lado do cobrador.

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

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Pentelho

O SUJEITO PEGA O TELEFONE E ENQUANTO LIGA

PARA O AMIGO vai se desfazendo dos sapatos e das meias

pelo meio do corredor a caminho da cozinha. Fala:

“Alô? Luiz, seu bobalhão, sou eu, o Carlos. Acabei de chegar

em casa, vindo do prédio onde funciona seu escritório. Toquei a

campainha uma porrada de vezes e ninguém atendeu. Sua secretária

não veio trabalhar, ou não quis abrir, sei lá. A garota da sala ao

lado, de nome Bethânia, chegou às oito horas e dez minutos e, me

vendo impaciente, andando para lá e para cá, feito coro de pica, e

àquela hora da manhã, ofereceu água gelada e um cafezinho que

fez na hora e, depois, caneta e papel para que eu pudesse, antes

de virar as costas, lhe escrever um bilhete e enfiar por baixo da

porta. O negócio é o seguinte: procurei feito um imbecil o nome

que você me passou, ontem, por telefone. Fui em todas as livrarias

da cidade (são quase vinte) e não encontrei nenhum livro de Julia

Petit”.

“Aliás, Luiz, ninguém conhece Julia Petit por aqui. E ela nunca

esteve na lista dos mais vendidos. Liguei para sua casa e consegui

falar com a sua filha. Ela confirmou o nome da criatura: realmente

Julia Petit, com o t mudo no final. Argumentei que na pressa, talvez

você tivesse me passado o nome errado. Quem sabe, não fosse

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

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Julia, mas Rulia, Nulia, Sulia, Vulia, ou qualquer coisa parecida.

Sua filha garantiu que era Julia, até soletrou, jota de jaca, u, de

uva, ele, de laranja, i de indelicadeza e a de amendoim. Parti, então,

para o Petit. Não seria, Petite, com e, ou Petitte, com dois tes?

Consegui tirar a sua simpática mocinha do sério. Nas ligações

seguintes, a jovem só não me chamou de santo, mas percebi, pela

alteração da voz, que meu papo se tornara chato e incômodo.

Insisti em continuar a conversa, mas ela, com a grosseria e o

atropelo que rondam a cabeça da juventude, acabou me mandando

tomar naquele lugar por onde expelimos nossas fezes, ou seja, o

cu. Não contente, meu amigo, pá, desligou na minha cara. Fiquei

como um abestalhado, a boca aberta, as palavras entrecortadas

na garganta, o telefone no ouvido e o troço: tu, tu, tu, tu, tu, tu...”.

“Você sabe muito bem, amigo Luiz, que odeio quando alguém

interrompe a ligação, sem mais nem menos, e eu fico boquiaberto,

feito um panaca, sem saber o que fazer com o auscultador na

mão. Pior é o tu, tu, tu, tu, tu, tu...”.

“Só por vingança disquei de novo. Decidi soltar meia dúzia de

cobras e lagartos no escutador de novelas daquela patricinha de

Beverly Hills. Perdão, meu amigo, não por raiva, só para que ela

aprendesse a respeitar os mais velhos. Contudo, na primeira

tentativa, a porcaria deu ocupado e o “tu, tu, tu, tu, tu, tu” se fez

ouvir, logo que terminei de riscar o quarto número. Insisti por mais

umas quinze vezes. Todas infrutíferas. Resolvi dar um espaço. Cinco

minutos. Findo esse tempo, voltei à carga. Nada! De novo, uma,

duas, dez, vinte vezes, Luiz, acredite, vinte vezes e a mer... Digo, a

porcaria, insistente: tu, tu, tu, tu, tu, tu...”.

“Com certeza, sua filha está de marcação serrada. Não é possível

ficasse pendurada por tanto tempo, sem dar folga. Bem, pode ser,

também, que tenha deixado o fone fora do gancho, por descuido.

Para matar as horas, Luiz, optei por um novo rolé. Tomei um

café,comi um pão com manteiga e, após isso, voltei à peleja. Gastei,

meu amigo, duas horas e meia refazendo as livrarias. Uma por

A outra perna do saci

29

uma. As respostas das atendentes eram sempre as mesmas. Teve

uma que resolveu me alugar pra valer. Chato quando alguém lhe

torra as medidas, não é verdade? Tentarei reproduzir o diálogo

que tivemos”:

- Senhor, não temos nenhum livro de Julia Petit, nem de

Julia Petite ou similar. Por acaso o senhor saberia dizer qual o

nome da obra que ela escreveu? É romance? Livro de autoajuda?

Esotérico? Já procurou em casas que vendem produtos espíritas?

O senhor não levaria, em substituição, o último de Paulo Coelho,

ou o mais recente de Lya Luft?

- Obrigado.

- Não gosta de Zíbia Gasparetto? Ah! Temos também “Por

Que os Homens Fazem Sexo e as Mulheres Fazem Amor”.

- E por quê?

- Desculpe, ainda não li o livro, mas dizem que é bom.

Minha supervisora devorou de cabo a rabo e achou massa.

- Massa?

- É. Legal!...

- Minha filha, você já leu Kafka?

- Não, senhor.

- E Roberto Shinyashiki?

- Nunca ouvi falar.

- Nem eu. Prefiro Fernando Sabino.

“Esse foi, Luiz, na íntegra, o bate-papo que trocamos, eu e a

vendedora, em uma das livrarias. Para você ver que não estou

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

30

mentindo, trouxe o nome dela, o número do CPF, identidade,

carteira de trabalho e o telefone, caso o amigo queira ligar e

confirmar realmente minha presença lá. Mudando de pau para

cavaco, uma gracinha, a guria. Roldana, o nome da tetéia. Lembra

a Margarete. Já sei, você vai me questionar: quem é Margarete?

Deixa refrescar sua memória. Margarete, aquela do cabelo

vermelho, bem curtinho, que você se engraçou, na lanchonete e,

depois – me escangalho de rir quando penso nisso – eu flagrei

vocês dois, mais tarde, lá na quitinete, na hora exata em que a

gulosa lhe “pagava um boquete”.

“Para terminar, deixei um lembrete debaixo da porta do seu

escritório com os dizeres: “Ligue-me, ligue-me, ligue-me, pelo

amor de Deus, ou vou acabar louco. Assinado, seu amigo Carlos”.

Em tempo: peça desculpas a Senhorita Bethânia. Na pressa, na

correria, acabei trazendo a caneta dela.”

***

Quando Luiz chega em casa, a secretária eletrônica sinaliza

que há ligações não atendidas. Aperta o play. Quarenta. Todas,

sem exceção, do Carlos. Retorna:

“Carlos, sou eu, Luiz, atenda essa merda de telefone. Caralho!

Eu sei que está aí. Recebi seus recados. “Trocentos”, ao todo.

Não precisava ligar tantas vezes, mané. Achei seu bilhete, pi, pi,

pi, pi, pi, pi (Nessa hora, a secretária eletrônica de Carlos começa

a apresentar problemas. Luiz encontra dificuldade para gravar a

resposta aos insistentes apelos do amigo)... Julia Petit, pi, pi, pi,

pi, pi, pi é Ju... Pi, pi, pi, pi, pi, pi... Julia. Escreve-se, J, u, l, i, a ,

A outra perna do saci

31

pi, pi, pi, pi, pi, pi, - e Petit se soletra pi, pi, pi, pi, pi, pi... P, E, T,

I, T. O t é mudo, o t é mudo, no final, pi, pi, pi, pi, pi, pi... Julia, pi,

pi, pi, pi, pi, pi, Petit... Seu Zé babaca, pi, pi, pi, pi, pi, pi, é pro...

Pi, du, pi, pi, to, pi, pi, pi, ra, pi, pi, pi, pi... Mu, pi, pi, pi, pi, pi,

si,cal, pi, pi, pi, pi, pi, pi ... Não,pi, pi, pi, pi, pi, pi, é, pi, pi, pi, pi,

pi, pi, es, pi, pi, pi, pi, pi, pi, cri, pi, pi, pi, pi, pi, pi, to, pi, pi, pi, pi,

pi, pi, ra. Ela... Pi, pi, pi, pi, pi, pi, está, pi, pi, pi, pi, pi, pi, na lis, pi,

pi, pi, pi, pi, pi, ta, pi, pi, pi, pi, pi, pi, dos, pi, pi, pi, pi, pi, pi, mais,

pi, pi, pi, pi, pi, pi, bem pi, pi, pi, pi, pi, pi, vesti, pi, pi, pi, pi, pi, pi,

dos, pi, pi, pi... Não, pi, dos pi, mais, pi, bem, pi, vendi, pi, pi, pi,

pi, pi, pi, dos... Pi, pi, pi, pi, pi. Eu disse... Pi, pi, pi, pi, pi, pi...

Vesti, pi, pi, pi, pi, pi, pi, dos pi, pi, pi, pi, pi, pi, Não, pi, pi, pi, pi,

pi, pi, vendidos. E, por fa, pi, pi, pi, pi, pi, pi, vor, pi, pi, pi, pi, pi,

pi, não, pi, pi, pi, pi, pi, pi, me, pi, pi, pi, pi, pi, pi, tor, pi, pi, pi, pi,

pi, pi, re, pi, pi, pi, pi, pi, pi, tan, pi, pi, pi, pi, pi, pi, to, pi, pi, pi, pi,

pi, pi, a por pi, pi, pi, pi, pi, pi, ra, pi, pi, pi, pi, pi, pi, do pi, pi, pi,

pi, pi, pi, sa, pi, pi, pi, pi, pi, pi, co. Pi, pi, pi, pi, pi, pi. Vá, pi, pi,

pi, pi, pi, pi, para, a, pi, pi, pi, pi, pi, pi, a, pi, pi, pi, pi, pi, pi, puta,

pi, pi, pi, pi, pi, pi, que... Pa... Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!...”.

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

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33

Segundas intenções

BASTOU ENTRAR NA LOJA DE CALÇADOS A MOÇA

PROVOCOU um suave burburinho nos quatro atendentes que

estavam próximos da porta. Impensadamente, todos de uma só

vez se precipitaram em direção a ela.

- Bom-dia! – disse um.

- Pois não? – gritou outro.

- Em que posso ajudá-la? – acorreu o terceiro.

- Preferência por alguma marca em particular?

Diante de tantos rapazes bonitos, charmosos e elegantemente

vestidos, a jovem composta por uma simetria corporal perfeita e

uma luminosidade vital, que transbordava alegria e sensualidade a

um só tempo, optou pelo mais tímido que se limitou a um “Bomdia”.

- Gostaria que me mostrasse alguma coisa diferente do

que venho usando.

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

34

O atendente esticou o braço direito, indicando um dos muitos

bancos existentes.

- Por favor, me acompanhe.

Antes de se acomodar, a jovem deu uma caminhada básica

pelo salão, como se procurasse nos milhares de produtos expostos,

alguma coisa que lhe chamasse a atenção. Na verdade, ela só

queria mostrar seus dotes de princesa, envoltos por debaixo

daquele vestido azul- marinho, bem curto e esvoaçante, sabendo,

de antemão, que deixava todos os marmanjos ali presentes

(inclusive o que a seguia de perto), dissimuladamente estupefatos.

Para os que sobraram garimpassem mais acentuadamente seu

visual impecável, levantou um pouco o tecido que cobria os joelhos

de maneira insinuante. Finalmente, sentou no local indicado,

cruzando as pernas devagar.

- Qual seu número?

- 34.

- Aguarde só um minutinho. Trarei as últimas novidades

que acabamos de receber.

Sumiu, atrás de uma porta vai-vém, que ficava perto da seção

de abertura de créditos. Ao lado, uma fila aguardava vez para

pagamentos de carnês.

Os vendedores, que ficaram a ver navios, começaram a trançar

de um lado para outro. Passavam na frente da jovem, balançavam

a cabeça em sinal de cumprimento ou simplesmente sorriam e

desviavam os olhos para suas lindas pernas. E que pernas! Ela

percebeu que deixara a todos extasiados, naturalmente, em

decorrência do panorama que exibia. Apimentou um pouco a visão

da galera, tornando a coisa bem mais quente e lúbrica.

Propositalmente derrubou o celular. No que se abaixou entre as

poltronas, para reaver o aparelho, permitiu, ao se curvar, pudessem

os engraçadinhos bisbilhotar um pouquinho além do que deviam.

A outra perna do saci

35

Nessas alturas, literalmente, todos os vendedores ficaram sem

ação, boquiabertos, como se estivessem embasbacados. Houve

um silêncio solene, colossal e abrupto. Também, diante de uma

coisa maravilhosa como aquela, e levando-se em conta o que

estava à mostra, faria qualquer homem normal arregalar os olhos e

babar. Foi o que aconteceu. Devido à movimentação exagerada

dos vendedores, o gerente caiu em si e pescou no ar o lance.

Arranjou um jeito discreto de sair de trás do balcão, estendendo a

conversa com uma cliente. A intenção dele era levar a senhora que

fora pagar uma prestação até a porta. Na verdade, tencionava

passar perto daquela deusa e desfrutar, como os demais

funcionários, do que ela oferecia, de graça, para o deleite dos

olhos esbugalhados de todos.

Com uma dezena de caixas coloridas em cada uma das mãos,

eis que surge, de volta, o vendedor escolhido. Caminhava devagar,

para não deixar que nada fosse ao chão. Nesse instante, sem

exceção, a loja inteira parou, inclusive alguns clientes que

vasculhavam as vitrines. Todas as cabeças se voltaram para aquele

pobre que se aproximava, cambaleante, pé ante pé, solícito, o

mesmo sorriso de sempre nos lábios. A linda, ao vê-lo, levantouse,

e o ajudou a se livrar daquela carga, colocando um pouco das

caixas sobre uma das poltronas.

- Nossa, você caprichou.

- Trouxe tudo que encontrei em nosso estoque e espero

que alguma coisa venha a lhe agradar.

- Com certeza.

- Posso dar uma sugestão?

- Claro.

Tirou de dentro de uma das caixas um belo par de sapatos e o

exibiu a jovem.

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

36

- Experimente. É a sua cara.

Ela voltou a se sentar e ele se pôs de cócoras, para calçar o

pezinho que ela lhe indicava. Foi aí que aconteceu. No instante

em que abotoava o fecho da sandália. A graciosa fez de propósito.

Premeditou tudo. Abriu as pernas. Era como um auto de fé.

Uma obsessão, um vício. Não conseguia domar a criatura selvagem

que morava dentro de seu ego medieval. Queria ver a reação,

sentir de perto e na pele, como cada um se comportava diante de

uma provocação inesperada como aquela.

Num primeiro momento, o atendente, entretido em cuidar dos

detalhes, não só para agradar, como para não perder a venda, se

esqueceu de espiar para um pormenor maior do que o seu limite

de contenção permitia. Ela estava sem calcinha. Contudo, ao darse

conta do que desfilava diante de si, o coração disparou.

O sangue ferveu. Seu rosto perdeu a cor natural. Por segundos,

pisou em brasa viva, se viu no meio de uma fogueira sem ter como

escapar. Nessa quase loucura, abriu trilhas numa selva que até

então vivia adormecida dentro de seu corpo. Teve a impressão de

morder cabeças de cobras venenosas e arrancar o couro de tatus

e porcos-espinhos. As batidas de seu coração se espalharam por

todos os cantos como tambores. Chegaram a provocar um eco

retumbante naquele outro coração que dormia, quieto, logo abaixo,

dentro da cueca de algodão. Olhou ao seu redor, assustado, sem

saber o que fazer, ou que atitude tomar. Uma sensação gostosa e

atemporal se alastrou por sua mente.

Continuava atarantado, fora de si, sem ação e perdido. Percebeu

que um entusiasmo erótico instantâneo mexeu com seus nervos.

Enquanto isso, a estonteante cliente, mordiscava os lábios e sorria

maliciosamente. Sabia que alcançara seus objetivos. Podia se ver

em seu rosto maquiavélico, que aquela cena mexia com seu interior.

Havia uma estranha combinação de magia e poder feminino sobre

a presa, a essa altura, transformado num duende completamente

estabanado, segurando, fortemente, um de seus pés.

A outra perna do saci

37

Resolveu levar adiante a estripulia. Descerrou, por completo, seu

triângulo do prazer, seu esconderijo secreto, e o fez sem meiostermos,

sem pudor, sem nenhum sentimento de vergonha. O pobre

rapaz tremeu na base. Diante dele, a doce cavidade do deleite em

completo repouso e a espera de ser atingida.

Nessa visão colossal, ele viu um jasmineiro florido, com

passarinhos cantando uma melodia suave. Sentiu como se um

milhão de luzes houvessem se acendido e, no minuto seguinte, teve

a impressão de mergulhar, de cabeça, do alto de uma cachoeira.

O cheiro da maçã entrou em suas narinas. Pressentiu o pecado se

agigantando, tomando conta da sua vontade. Seus olhos não

mentiam. Não via coisas, nem sonhava acordado. A jovem era

real, tudo ali tinha forma física e podia ser tocado. Com as mãos,

a linda moveu um pouco o vestido, permitindo que o desvairado

ficasse mais perto do calor e da tentação e, nesse clima, o infeliz

se fascinasse com todas as transgressões que pudessem ser criadas

por sua imaginação.

Para os intrusos, a facécia cobria o essencial. Especialmente

para o vendedor sortudo, a safadinha mostrava a cobiça, o apetite,

a vontade exacerbada se agigantando, no meio de suas coxas.

Um ponto, dentro dela, de repente, explodiu em líquido puro.

A poção do universo veio abaixo, a ponto de molhar o assento da

cadeira. Diante da incredulidade do vendedor, ela começou a

esfregar a bunda, cadenciadamente, no assento até que alcançou

o epítome do que buscava. Gozou.

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

38

39

Olhos sobre tela

UM GRUPO DE AMIGOS resolveu parar no centro da cidade

e almoçar num ambiente diferente daquele a que estavam

acostumados. Depois de algum tempo de procura, optaram por

um self-service, que oferecia preços módicos no quilo, com

churrasco, além de um copo com suco de laranja grátis,

acompanhado de uma sobremesa a escolher. O restaurante não

tinha nenhuma sofisticação chamativa. Bastante simples, asseado

e acolhedor, mantinha as mesas no espaçoso salão a uma distância

regular, de maneira que a clientela, por mais que se acotovelasse,

na hora de movimento intenso, não se sentisse espremida,

esbarrando uma sobre as outras. De moderno, uma porta de vidro

fumê, aparelho de ar condicionado central e música ambiente de

gosto apurado.

A turma elegeu, por unanimidade, uma espécie de reservado,

onde juntaram mesas e cadeiras, formando um círculo sobre o

qual todos se veriam de frente sem correrem o risco de ficarem

fora do bate papo durante a refeição. Numa das paredes que

fundeava a peça, sobressaía uma enorme tela que ocupava toda a

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

40

parede, consumindo-a de um extremo a outro, onde se via, pintado

em alto relevo, o Jardim do Éden, bem como o primeiro homem e

a primeira mulher; os animais em derredor, vivendo em disposição

bem ordenada e, em sintonia com a natureza; além de árvores

frondosas e copadas. Destacava, ao alto, um céu límpido e muito

azul, com ralas nuvens brancas e, ao longe, um riacho de águas

cristalinas descendo por entre um emaranhado de árvores e pedras.

O painel de cores fortes conciliava a perfeição e a destreza do

autor, realçando seu espírito criativo em grau máximo, ao mesmo

tempo em que sobrelevava sua simplicidade a patamares profundos,

tornando a obra praticamente uma coisa quase irreal dentro do

real. Dava a impressão de que a pintura se solidificava com o

resto do refeitório, tamanha a beleza, a calma e a tranquilidade

que emanavam de todo o conjunto, declarando a sua

engenhosidade ausente de qualquer defeito de criação.

Ambrósio, o mais velho do grupo, de descendência alemã, mal

começou a comer, estancou o garfo no ar. Olhando fixamente

para o quadro comentou:

- Parem um pouco e observem aquela gravura. Olhem

bem para o Adão. O corpo atlético, físico ricamente trabalhado

recorda - ainda que ligeiramente – um deus grego, as faces

vermelhas, ruborizadas, talvez, pelo sangue que lhe corre nas veias.

E a Eva? Que doçura, que candura! Contemplem as pernas, os

seios, os olhos. Divinamente angelicais. Lembra-me Afrodite a

deusa da beleza e do amor. Adão e Eva, com certeza, eram alemães.

- Discordo plenamente – interrompeu Narciso com ar

engraçado – Se vocês atentarem mais apuradamente para o Adão

e fixarem a ferramenta de trabalho (olhem o tamanho) e,

consequentemente, perderem uns bons segundos no vasto e

cabeludo triângulo de amor da Eva, no meio das pernas, verão

que, de ambos, desprende uma espécie de erotismo nato, quase

tribal, com pinceladas, eu acrescentaria, animalescas. Adão deve

tirar umas ótimas bombadas e deixar a Eva em frangalhos.

A outra perna do saci

41

Quando falo em frangalhos, me refiro às partes pudentes que, nessa

hora, costumam ficar em brasa viva. Sem medo de errar digo a

vocês, aqui, agora: estamos diante de um belo casal de franceses.

Não asseguro isso só porque morei na França, quatro anos.

Nada a ver.

Baldaraque, um loiro vesgo que nunca tirava os óculos escuros

da testa, contestou os amigos acrescentando:

- Pelo amor de Deus, não falem besteiras! Ambrósio e

Narciso, vocês estão complemente equivocados. Prestem atenção

nas mãos de Adão. Vejam, que mãos. São de homem macho.

Fixem o semblante da Eva. Reparem os cabelos de princesa, a

fronte de rainha, o nariz de gente fina, a pele tratada a rigores de

ervas, os seios delicados. Devo lembrar, ainda, que Adão e Eva,

segundo estudos de pesquisadores recentes, têm, nas veias, sangue

nobre, sangue inglês. Você não está de pleno acordo comigo, amigo

Tomaz?

Tomaz comia quieto, em profundo silêncio. Ouvia o papo

furado, mandando para dentro um suculento filé ao molho pardo

com batatinhas fritas. Não se ligava na conversa e, para ele, aquele

assunto não importava:

- Tomaz, está dormindo, cara?

- Desculpem, andava longe! O que foi que disse

- Estou afirmando para nossos caríssimos que Adão e Eva,

como estão postos naquela pintura, eram ingleses. Queria fechar

minha tese com suas considerações. Pode ser?

Tomaz levantou os olhos por breves segundos, capturando o

verde que escorria deles na pintura gigantesca. Depois de

prolongada contemplação, muito sério e senhor absoluto do que

diria para os companheiros, expôs:

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

42

- Os prezados não perceberam alguns detalhezinhos, a

meu ver, importantíssimos. O Adão está nu. A Eva, pelada. Ambos

descalços, os pés feridos. Não há casa ou barraco por perto.

Parecem viver sem teto, ao relento, à mercê de chuvas e ventos.

Não vislumbro sinais de abrigo, sequer uma barraca dessas

vagabundas, para passarem a noite. Vejo mais: apenas uma maçã,

uma única maçã, na mão da Eva. Já nem quero falar da cobra ao

lado. Estão vendo a cobra? Magra, raquítica, como se esperasse

o momento certo para dar o bote e roubar a fruta. Pois bem, numa

escala ascendente, tentando ser um pouquinho melífluo, Adão

transmite um ar de babaca, de bobo. Pois então, a Eva com aquele

par de peitos prontos para serem sugados, mamados, um traseiro

descomunal e uma boce... Desculpem, uma periquita maior ainda,

livre e desimpedida para entrar no ferro e, levando-se em conta o

sorriso sacana e ligeiramente enrubescido, recorda, vagamente, a

Madame Josefina, dançando numa boate vagabunda e soltando a

franga sem medo de ser feliz. O Adão não tem bunda, só pau.

A Eva parece doida de pedra para liberar o traseiro e esconder a

trosoba de seu homem. Esses dois, meus prezados, finalizando

minha humilde observação, largados às agressividades da

sobrevivência, fodidos e mal-pagos e, ainda, sonhando com o

paraíso, só podiam ser brasileiros.

A outra perna do saci

43

Missão quase impossível

A EMÍLIA TINHA NA CABEÇA, além dos cabelos literalmente

loiros e compridos, uma fantasia excêntrica: fazer amor ao vivo e

em cores com o namorado, em seu local de trabalho. Fábio era

chaveiro e passava os dias numa espécie de mini trailer 24 horas

instalado numa avenida movimentadíssima do centro. Para piorar,

funcionava, contíguo, um shopping centter recém inaugurado.

O troço fervia como feira livre, de segunda a domingo. Mal dava

oito horas, começava a chegar gente vinda de todos os lados.

Nessa correria desenfreada, o rapaz sequer respirava.

Na sua peregrinação, vezes sem conta, Emília rondava o

pedaço, na expectativa de tornar seu sonho realidade. Todavia,

sempre na horinha agá, pintava um serviço urgente e a vontade

dela acabava ficando presa, engasgada como um nó incomodando

na garganta. Nervosa, ou melhor, furiosa, a coisa mexia com seus

pensamentos, remoía de tal forma que, em pouco tempo, se não

conseguisse praticar, viraria uma tremenda paranoia. Não colocasse

em prática as loucuras que se formavam em sua mente, certamente

acabaria lelé da cuca.

À noite, não dormia direito. Mal se recolhia, estranhos pesadelos

se formavam e invadiam seu pequeno mundo, que não ia além de

um quarto muito amplo e ricamente mobiliado com pôsteres gigantes

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

44

de artistas famosos, espalhados pelas paredes. Seus pais lhe

davam de tudo e, nesse tudo, incluía o que havia de melhor: um

espaço só seu, cheio de bonecas, um guarda-roupa abarrotado

de saias de grife, jeans, blusas, meias, e sapatos de marcas famosas.

Na garagem, ao lado da Mercedes do pai e do Jaguar da mãe, um

Peugeot zero bala para ir e voltar da faculdade de comunicação

sem precisar enfrentar ônibus lotados. Não contando que morava

numa suntuosa mansão incrustada num bairro nobre, onde circulava

a mais alta nata da sociedade.

Em paralelo, seus genitores viviam ligados à moda fashion -

quase sempre a mídia especializada nessa área marcava presença

- jantares e reuniões de negócios em busca de novidades e fofocas.

Embora tivesse tudo a tempo e hora, Emília não estava satisfeita

com sua vidinha pacata. Recém hospedada na esteira dos vinte,

fazia dois meses que conhecera o Fábio e começara a namorar

sério, escondida dos pais, mas sério. Foi amor à primeira abertura

de um cadeado que ele nem se lembrou de cobrar. Logo que viu o

“pedaço de mau caminho”, seu coração de mulher se abriu como

um paraquedas. Daí em diante, passou a quebrar as chaves nas

fechaduras e a cegar os alicates de unha da mãe e de uma tia

solteirona que morava junto, só para as duas, obrigatoriamente,

passarem de carro, no trailer do saradão e encomendar seus

préstimos, e, claro, pedir, depois, que ela fosse buscar e pagar

pelos serviços. O encontro inaugural aconteceu meio sem graça.

Mas rendeu.

- Oi!

- Oi...

- Você abre este cadeado para mim? Perdi as chaves.

- Claro. É pra já.

Fábio, vinte e dois anos, o que tinha de bonito, carregava

de tímido. Caladão e sério, não ia além de um sorriso maroto.

Contudo, diante de Emília, como num passe de mágica, a vergonha,

de repente, deu lugar à ousadia.

A outra perna do saci

45

- Que livro é esse?

- Capitu Sou Eu, de Dalton Trevisan.

- Já li alguma coisa.

- Você também é chegado em leituras?

- Bastante.

- O que está lendo?

- Zero Absoluto de Chuck Logan. Como meu tempo é

curto e as horas corridas, levo quase um mês para chegar ao final.

Antes de Logan, consegui terminar Harold Robbins.

- Maneiro. Recém terminei 79 Park Avenue, dele.

- O cara é irado.

- Tô ligada.

Emília realmente se ligou. A tal ponto que no encontro

posterior rolou uns beijinhos, mãozinhas bobas aqui, mãozinhas

bobas ali, até que a moça encasquetou de se entregar inteira, corpo

e a alma, de lambuja. Afinal de contas vivia seu primeiro caso,

curtia o primeiro namorado, o primeiro homem, seu primeiro amor

de verdade.

Decidiu que a doce aventura seria no trailler apertadinho

entre chaves, alicates, tesouras, cadeados, facas, gente chegando

e saindo.

O roça-roça passava de um mês. Na verdade, um mês e

quinze dias. Ela estava pra lá de seca, ele igualmente doido,

descontrolado, subindo pelas paredes, trepando de costas. Mas

o bem-bom, o bem- bom, nada.

- Vou ser dele. E vai ser no chão daquela bosta.

A primeira investida, entretanto, falhou. Como a segunda, a

sexta, a nona. Parecia que algo lutava contra. Surgia uma brecha,

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

46

eles não perdiam tempo: se engalfinhavam um no outro. Todavia,

no momento de partirem para os “finalmente”, pintava sujeira.

Emília teve uma ideia. Trancar a porta pelo lado de dentro e ficar

de cócoras. Quem chegasse, só veria o Fábio da cintura para

cima. Jamais alguém, em sã consciência, desconfiaria que, por

debaixo do minúsculo balcão, uma marinheira de primeira viagem,

se preparava para dar uma festa de arromba e deixar seu bem

amado de queixo caído. Ou seria de saco vazio? O que importava

era a festa, aliás, prometia ser inesquecível.

Aconteceu no sábado. Emília se posicionou no diminuto

compartimento, disposta a se entregar aos prazeres do sexo e à

fogosidade da carne fraca que lhe faziam tremer todas as partes

do corpo. Havia nela um fanatismo instilado que a empurrava para

frente, numa ansiedade descomedidamente irrefreável de perder a

virgindade com aquele deus grego. Nesse prazer escrachadamente

doido, faria o Fábio viajar até as nuvens, embalado e montado

numa potranca de fogo, como vira num filme pornô que trouxera

emprestado da casa de uma amiga da escola.

Chegou uma freguesa. Emília, porém, não se fez de rogada.

Ao diabo esperar mais. Abriu o zíper da calça do namorado.

A peça foi descendo até formar um amontoado de pano amassado.

Fábio começou a trabalhar no alicate da madame. Emília, de

repente, se viu frente a frente com a arma do crime colada em seu

rosto. E bem perto de seus lábios ressequidos pelo prazer. Fábio

tinha um tremendo de um volume grosso que pulsava, irrequieto,

dentro da cueca. Parecia a ponto de pular fora e se aninhar em

meio às mãos da gulosa. Na verdade, o troço saltou mesmo.

E esquentou. E o bicho pegou.

- Ai, ai...

A senhora que aguardava, recostada no parapeito do balcão,

por um momento imaginou que o rapaz estivesse às portas de um

piripaque.

- Você está se sentindo bem, meu filho?

- Sim... Estou... Estou quase...

A outra perna do saci

47

- Quer que eu chame um médico? Nossa, meu querido,

você está suando em bicas!... Ficou branco... Não, amarelo, Credo

em cruz!

- Ai, ai, engole... Sua vaca... Sua puta...

Sem entender o que se passava, ao ouvir essas palavras,

ditas assim, sem mais nem menos, na lata, na bucha, a madame

rodou a baiana.

- Pelo amor de Deus, meu amigo, que modos são esses?

– gritou a posuda mulher – cenho franzido - nunca fui tratada dessa

forma. Que falta de respeito! Acaso me chamou de vaca, de puta?

E quer que eu engula... Engula o quê? Escuta aqui, seu pilantra.

Não volto mais aqui. Nem eu nem minhas amigas. Passa pra cá

meu alicate. Suspenda o serviço. Eu deveria chamar a polícia, seu

mal-educado, vagabundo, tarado!

- Não, senhora. Por favor, não é nada disso que está

pensando. Eu estou falando com a... Ai, ai, aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!

Emília se despojou de todos os preconceitos e talantes clericais,

nos quais se criara desde pequena e mandou bala.

Àquela altura, não mais volveria à lucidez. Num delirar sem conta,

enfiou, na boca, numa só estocada, a chave grossa e comprida

pendurada no meio das pernas de Fábio e a fez dar uma série de

giros numa fechadura inimaginável. Engoliu de forma tresloucada

o pau quente do namorado, sorveu os centímetros que pulsavam

com vontade e determinação. O troço parecia ter aumentado de

intensidade, principalmente, depois que fora colocado goela abaixo.

De certa forma, esse gesto inesperado atiçou a gula, despertou a

fome e a libido. Afinal, ela estava no êmulo de sua fraqueza. Talvez

o ineditismo da cena, o local, a posição, a forma como tudo

acontecia ajudava a criar um clima novo. Emília literalmente

agarrada, feito uma possessa, no talo do rapaz, e depois de tê-lo

levado às nuvens, não parava de friccionar o pênis num vai-vém

incessante. Em busca do “quero de novo”, voltou com a pica na

posição inicial e começou a lambê-la, primeiro com a ponta da

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

48

língua, depois enfiando inteira, sem pestanejar, a uma velocidade

incontrolável.

O patrão de Fábio, um tal de Miguel das Mil Utilidades, chegou

no exato minuto em que a dona do alicate, furiosa, voltava com

dois policiais em meio a uma pequena multidão de curiosos.

Gesticulava, muito braba, apontando o trailer.

- O Senhor é o dono dessa espelunca? Seu

funcionariozinho aí...

Emília conseguira de novo. Fábio gozava pela segunda vez.

Da sua máquina, ainda quente e turbinada, acabava de jorrar um

jato branco muito forte, fazendo com que urrasse

descontroladamente. Agora de joelhos, Emília terminava de

saborear o final do boquete, a substância viciadora do pecado,

escorrendo pelas maçãs do rosto e parte da boca. Acabara de

saciar seu desejo aprisionado. Tudo como havia sonhado, ao fazer

a sua escolha. Foi legal, ainda que ralando os joelhos numa

superabundância de chaves velhas e alicates imprestáveis. O aríete

de Fábio, aos poucos, entrou em estado de repouso. Parecia um

pequeno botão de rosa, pendendo para a esquerda e chorando

uma reluzente lágrima de orvalho. A mão de Emília, contudo,

continuava dentro da calcinha. Ela teimava em continuar fustigando

os pequenos lábios. Enquanto engolia o sêmen quente do seu

macho, gemia, gemia num crescendo, gemia com seguidas ondas

de êxtase, assemelhada a uma cadela no cio, tal como se estivesse

fora de suas faculdades normais. De fato, estava!

O embasbacado patrão, sem saber o que acontecia, tanto

dentro, como fora, destrancou a porta e entrou esbaforidamente.

Atrás dele, a galera pedia providências. O casal, surpreendido no

flagra, foi posto no olho da rua. Não fossem os policiais, ambos

teriam sido linchados.

Uma semana após o acontecido, Miguel das Mil Utilidades

ajustou, para ocupar a vaga de Fábio, um rapazola loirinho, muito

alegre e simpático, que sorria como uma hiena e, claro, nas horas

de folga, entre o intervalo de um alicate e a feitura de uma chave,

quebrava os galhos chupando a vara do patrão.

A outra perna do saci

49

Um intruso no formigueiro

“Era uma vez um louco: Eu”

Pachá

OLHAR PARA AS GATINHAS QUE PASSAM todas as

manhãs embaixo da minha janela, com destino à escola pública,

quase em frente a minha casa, instiga a minha libido terrorista. Se

me fixar em seus traseiros mais afogueadamente, com certeza, terei

uma ereção nos moldes das derrubadas das torres gêmeas do

World Trade Center, em New York. Geralmente essas inocentes

espiadelas terminam ali mesmo, ocultas por detrás das cortinas,

ou trancafiadas no banheiro, diante de um pôster gigante da Bruna

Ondinha, num pecaminoso cinco contra um, o que redunda,

invariavelmente, num verdadeiro entulho de 250 mil toneladas de

espermatozóides sendo ejaculados ao “deus dará”. Recentemente

descasquei uma banana prolongada para a Vivi, nua em pêlo, numa

revista feminina que roubei do meu vizinho, que tem assinatura e,

às vezes, demora para visitar a caixinha do correio. Me imaginei

na pele do Gozadão, com todo aquele material de primeira, ao

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

50

alcance das mãos, esparramado numa cama redonda, com teto

solar, piscina de água quente e outras diversões, longe dos curiosos,

num desses flets espalhados por lugares deslumbrantemente

exóticos.

Gosto, como todos os rapazes da minha idade, de apreciar as

revistas de mulheres peladas. Devoro todas as publicações que

me caem nas mãos. Faz um bem enorme avaliar as curvas perfeitas

das modelos mais cobiçadas deste país. Nessas horas, sinto como

se estivesse dentro do carro, o pé até embaixo, no acelerador,

voando perigosamente em alta velocidade, por uma estrada sinuosa,

margeando uma serra cheia de curvas fatais. Ao meu lado, ajudando

a dar vazão a esse quadro irreal, uma colegial (dessas que todos

os dias passam rebolando na calçada da minha janela) com o

rostinho de princesa, lembrando, não a Vivi do Gozadão, mas a

Anita Caxinha de Fósforo, com os cabelos longos e soltos à moda

da Maria Nasci Rica. Enquanto seguro o volante, com a outra

mão, atolo o dedo no pequeno triângulo que ela carrega escondido

como um brilhante valioso no meio das pernas, onde, bem sei,

existe um caminho secreto, encoberto por um invólucro minúsculo

de nylon, levando meus devaneios às loucuras irascíveis do prazer.

Semanas atrás quase aconteceu um milagre. Só não foi

completo... Acho melhor contar desde o começo para que a coisa

fique bem clara e não reste dúvidas a respeito da minha sanidade

mental.

Aconteceu assim: voltava do trabalho, quando à altura do

Viaduto Maria Paula, tropecei com uma velha amiga, a Santi,

conhecida de longa data. Não encontrava pela frente essa figura

fazia bom tempo. Conversa vai, conversa vem, consegui arrastar

a moleca para um quarto de motel, na Praça da Sé. Por sorte,

nesse dia, havia sobrado uns trocados no bolso. Mixaria, mas

quebrava o galho. Entre um suco de manga e uns biscoitos que

compramos, ela resolveu ceder aos meus impulsos. Como a um

telefone, me tirou, ou melhor, me arrancou do gancho.

A outra perna do saci

51

Tomamos um banho demorado com ervas e sais afrodisíacos,

misturados a espumas aromáticas. A magia da sua presença

inebriava o ambiente. Seu corpo, abrigo de vinte e cinco

primaveras, tinha a sutileza de uma rima. Uma flagrância envolvente

nos cabelos lhe corria pelos cachos dourados e terminava à altura

exata onde a calcinha cor da pele encobria os dois lados do pecado.

Cheguei a sentir o cheiro forte que ligava seus ciclos menstruais à

lua. Ao deslizar a língua em seu traseiro, saboreei o doce gosto de

mel estagnado que emanava da sua bundinha avantajada.

Por breves minutos, me senti na pele de um rei poderoso,

desfrutando de toda sua majestade intocável. Os móveis que

compunham o quarto onde estávamos, embora humildes e antigos,

pareciam pequenos súditos reverenciando nossa felicidade.

Na verdade, naquele momento mágico, me imaginava com

autoridade absoluta diante daquele corpo escultural todinho

entregue a minha disposição. Uma verdadeira visão hipnótica,

disfarçada em meiga candura.

Depois do banho, partimos para a cama. Santi tirou de dentro

da bolsa uma Sexy onde se via estampada às formas impecáveis

da Sandroca Beleza. Virando o rosto para meu lado e empinando

o traseiro, segredou que gostaria de ser como a Pati Boneca, sua

atriz preferida. Revelou que igual às colegiais americanas é

cheerleader de um time de basquete do colégio, onde cursa o

sexto período da faculdade de comunicação e que, vez em quando,

para ganhar uns trocadinhos, trabalha como acompanhante de um

casal de idosos, no Tatuapé.

Por fim, anunciou que seu namorado – um negrão recémchegado

do Senegal – disse para seguir a carreira de modelo.

Jamais desperdiçar seu belo par de olhos azuis. Seria uma pena

irreparável se isso acontecesse. Concordo plenamente com o

sujeito. Não é todo mundo que enquadra um visual tão propício

para a arte das passarelas: 1,67m de altura, 48 quilos, 86

centímetros de busto, 6l cm de cintura e 86 cm de quadris. Santi,

porém, está vivendo uma dúvida cruel. Ultimamente, para ajudar

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

52

nas despesas do apartamento que divide com algumas amigas, no

Largo do Arouche, vem ganhando a vida como garota de programa

(o quê???) numa movimentadíssima boate, na Marquês de São

Vicente, na Barra Funda. Garota de programa? Puta que pariu!

Na minha santa ignorância achei que levara uma eternidade enorme

para arrastá-la comigo, até aquele cubículo imundo, de frente para

as escadarias da Estação Sé do metrô.

- E aí, vamos partir para os finalmente? – disse ela num

dado momento da conversa - Tenho outros encontros, você

sabe como é, né mesmo!

Olhar para as gatinhas que passam na rua em direção à escola

aqui perto de casa, agita, a olhos vistos, o meu lado animal. Foi

assim quando revi a Santi, depois de muitos anos, não sei

exatamente quantos, mas isso não importa agora. Estar numa cama

de hotel com ela ao alcance das mãos e de outras coisas me fez

senhor absoluto de mim. Juro que, por breves instantes, me senti

como Príapo, filho de Baco e Vênus, que nasceu, segundo a

história, com um pênis desproporcionalmente imenso.

Contudo, a revelação dela, de cara limpa (garota de programa?)

- olhando bem dentro de meu coração desafortunado - caiu como

um balde de água fria - misturado com cubos de gelo recém saídos

de um imenso congelador. A ferramenta, símbolo da masculinidade

deste pobre ser mortal, se tornou flácida, encolheu de medo e

perdeu a pose do tamanho. Na verdade, o troço fugiu correndo

para o esconderijo, ante a revelação nua e crua, mais crua que nua

de Santi. Então, a desgranhenta safada, ordinária, se transformara

numa prostitutazinha barata?! Meu Deus, quem diria, uma vulgar

que ganhava a vida em troca de um punhado de moedas, a duras

flexões em camas barulhentas de espeluncas baratas. Pintou, na

moleira, uma série de pequenos fragmentos que redundou no

esfriamento completo do apetite bestial. O estágio intermediário

da babaquice deu lugar a uma realidade gritante que, num momento

de lucidez, passei a enxergar.

A outra perna do saci

53

De repente, percebi que o espelho tinha duas faces distintas.

Através de uma delas, me vi enfiado numa espécie de almofada

pegajosa, onde os bichanos dormem e sonham com gorduchos

ratos de esgoto. Foi para os cambaus, meu milagre. Daí o quase.

Claro, não teve clima. Santi sentiu primeiro que eu - os propósitos

de uma bela foda haviam perdido a gana - e, de roldão, todo o

ritual da intensidade pela posse da Besta Primeva.

A outra face refletiu o momento exato em que vestimos nossas

roupas em meio a um silêncio constrangedor. Saímos cabisbaixos,

como se tivéssemos medo ou vergonha um do outro. Deixei a

vadia em frente ao prédio do Fórum Cívil, onde acenou para um

táxi. Na despedida, trocamos um beijo ríspido e vazio, sem sabor,

um beijo maquinal. Ela cheirava a sexo barato. Só fui perceber

depois que revelou ser uma tremenda vagabunda!

O melhor que tenho a fazer nesse “chove não molha” é vigiar a

revista pornô deste mês, que chega na caixinha do correio do meu

vizinho. Os colegas de trabalho lá da empresa comentaram que a

filha do Margarina, a Marina, vai pintar mostrando tudo, nuazinha,

nuazinha, em carne e osso, como saiu da barriga da mãe.

Lembrando desse incidente com Santi, e vendo uma leva de gatinhas

indo e vindo em direção à escola, vou partir em busca do esquisito

pendurado no meio das pernas. Coitado! Ele que seja macho, que

me endureça as feições e aguente a turminha de dedos que cairá

em seus costados. Só espero, sinceramente, que na hora agá, meus

colhões não empaquem e resolvam, junto com o caralho, fazer

greve de porra!

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

54

55

Persuasão

O RAPAZ CHEGA PARA A NAMORADA E PROPÕE:

- Lígia, minha linda, estamos aqui sentados no interior deste

carro, desde as oito horas da noite. São quase duas da manhã.

Como pode ver, ninguém na rua. Que tal aquela chance?

- Qual Julinho?

- De lhe fazer feliz por inteira.

- Mas sou completamente feliz, amor. Você me preenche

todos os vazios.

- Ficaria mais satisfeito e realizado interiormente se

fizéssemos amor.

- Não estou preparada. Namoramos há seis meses, mas

não estou pronta. Entende o que eu digo? Não chegou o momento...

Julinho finge uma mágoa ensaiada. Bruscamente pede a Lígia

que levante de seu colo e passe para o banco do carona.

- Você não gosta de mim como eu de você.

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

56

- Claro que gosto, amor. Eu te amo. E muito. Você sabe.

Dou minha vida por nosso amor.

- Mas não dá o que realmente nos uniria de uma vez para

sempre.

- Julinho, você só pensa em sexo. Seu negócio é transar,

transar, transar. Quantas coisas bonitas tivemos a oportunidade

de dizer um para o outro. Você tem se saído um verdadeiro poeta.

Recita versos lindos, me enche de frases românticas... Sem falar

nas cartas maravilhosas que escreve. Vamos dar mais um tempo.

Nosso momento chegará. Pode ser amanhã, depois, ou...

- ...Ou nunca, Lígia. Para mim, chega. Tô fora.

- Julinho, eu te amo. Não seja tão radical. Já dei várias

demonstrações de que você é o cara com quem quero me casar,

ter filhos, construir uma vida, envelhecer.

- Faltou a principal.

- É tão importante essa prova?

- É.

- O que você quer?

- Preciso dizer?

- Meus pais...

Julinho abre a janela e aponta para a varanda enorme um pouco

acima deles.

- Seus velhos estão numa boa. Quem sabe até, pelo

adiantado das horas, em promoção de temporada.

- Promoção de temporada?

- Isso mesmo. Devem estar trabalhando na fabricação da

raspa do tacho.

A outra perna do saci

57

- Raspa do tacho? De onde você tirou essa maluquice,

Julinho?

- Como você é ingênua. Raspa do tacho é o mesmo que

bebê temporão, ou seja, aquele irmãozinho inesperado que chega

para aumentar o clã familiar quando menos se espera. Risos.

- Papai a estas alturas do campeonato ronca a sono solto.

Mamãe, coitada, deve andar pra lá de Bagdá.

- Sentiu o drama? Ambos, dormindo, perdendo um tempo

precioso, como nós, aqui, agora.

- Amor, amanhã a gente continua o papo. Preciso subir.

- É cedo, gatinha.

- Amanhã eu...

- Amanhã é outro dia, depois de hoje... E hoje é o nosso

agora.

- Sofia, minha irmã, subiu passava um pouco das dez. Meu

irmão, Marco Aurélio, idem. Só eu estou aqui.

O rapaz continua firme na sua determinação e parece que nada

o demove a deixar a coisa para a noite seguinte.

- Escute o que vou dizer: entramos ali na garagem, só por

alguns minutos. Juro que levo você às estrelas.

- Não vejo estrelas. O céu está escuro demais.

Julinho deixa a aparente mágoa de lado e volta a abraçar a

namorada. Beija-lhe carinhosamente a nuca e os seios.

- Deixa lhe mostrar essas estrelas.

Enquanto tenta quebrar as últimas resistências de Lígia, abre o

porta- luvas do carro e, de lá, retira uma caixinha.

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

58

- O que é?

- Abra e descubra.

Lígia, curiosa, obedece.

- Dois dadinhos?

- Na batata. Dois dadinhos.

- Para que servem? O que estão escritos neles?

- Calma princesa. Por etapas. Vamos até a garagem?

Enquanto fala, Julinho sobe vagarosamente a mão pelas pernas

de Lígia. Seu coração bate descompassadamente. O dela pouco

falta para saltar do peito numa erupção desenfreada de desejos

sendo despertados. A mão do rapaz segue adiante. Continua firme

e determinada, subindo, subindo, galgando centímetro após

centímetro. Lígia, quase sem fôlego, está sem ar. O corpo treme.

Sua pele sua. Entrementes, os dedos de Julinho bolinam na calcinha

e, afoitos roçam a...

Lígia enlouquece. Explode a vontade da posse contrabandeada

pelo desejo da entrega total. A tentação chega ao ápice, desperta

de seu sono, acorda furiosa.

- Está bem. Venha comigo.

O casal sai do carro e entra no escuro da garagem.

- Que volume é esse no seu bolso?

- Uma lanterna.

- Para que você quer uma lanterna, Julinho?

- Vamos jogar dadinhos. É assim. Deixa eu te explicar. Na

face que cair você deverá praticar ou fazer o que estiver escrito.

- E o que é que estará escrito?

A outra perna do saci

59

- Como vou saber? Você terá que jogar.

Os dois se acomodam num canto bem no fundo ao lado do

CITRÖEN dos pais de Lígia. Julinho tira a lanterna do bolso e

procura, com o foco, um espaço livre, no chão.

- Aqui está legal. Chacoalhe os dados com uma das mãos

e jogue, devagar.

A garota aquiesce.

- Leia.

- Neste aqui, NA MESA. No outro, COM A PORTA

ABERTA.

- Não valeu. De novo.

- Lígia faz a segunda tentativa.

- E agora?

- No primeiro, AO AR LIVRE, no segundo, SEXO ORAL

NELE.

- Ótimo. Vá em frente.

- O que? Eu!...

- Amor prove que me ama de verdade. São seis meses.

Olhe só como estou por sua causa. Me dá aqui a sua mão. Sinta o

volume. Veja como você me deixa. Vamos, gatinha, aposto que

vai gostar. E pedirá bis. Não dói.

Desce rapidamente as calças. Num piscar de olhos está de

sunga, a camisa aberta.

- Tire fora. Olhe o que vou fazer.

Do bolso da camisa puxa um vidrinho pequeno.

- Nossa Senhora, Julinho, o que tem nesse trocinho?

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

60

- Calma, Lígia, isso aqui é Jelly Well.

- Jelly o quê?

- Gel corporal.

- Qual é a serventia?

- Vou passar na pontinha do... Do Juninho.

- Credo! Não vou aguentar esse negócio comprido e

grosso dentro de mim. Acaso esqueceu que sou virgem? Você

sabe que nunca transei.

- E estou muito feliz por nós dois. Escute, minha linda: não

vou introduzir o “Juninho” dentro de você. Inicialmente pretendo

colocar o nenenzinho na sua boquinha. Obedeça aos dados. SEXO

ORAL NELE. Experimente. Ainda estou te dando a chance de

ser aqui dentro. Lembre-se que no outro dadinho saiu AO AR

LIVRE.

- Eu, eu...

- Deixa de conversa fiada. Sinta o sabor do gel na ponta

da sua língua.

- Tenho nojo. Nunca fiz antes...

Todavia, diante de tamanha e acirrada insistência (embora não

suportasse mais esperar para ver como funcionava a coisa) Lígia,

meio sem jeito e ressabiada, começa a praticar sexo oral no

namorado. À medida que sorve o espesso membro, a emergência

definidora da vontade imperiosa de se subjugar às vontades do

rapaz, como por encanto, vai se soltando dentro de seu corpo,

aos poucos, até que, completamente relaxada, sente seu organismo

inteiro se descontrair. Num instante mágico, se desprende de todas

as amarras impostas pelos recatos da sua formação moral e segue

em frente. O brinquedo armado pulsa febril entre seus dentes, lhe

dá total sensação de liberdade, uma liberdade jamais sentida. Pela

primeira vez ela se sente mulher de verdade. Entrementes finge

uma vergonha inexistente.

A outra perna do saci

61

- Chega... Que gosto horrível... Vou... Vou...

- Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! Por que parou? Merda, eu estava quase...

A donzela, desvairada, corre e vomita para todas as direções

e, pior, deixa o namorado a ver navios com bolinhas coloridas no

meio do aposento escuro, quase às três da manhã.

Dia seguinte, mesmo horário e lugar, a cena se repete.

- Jogue os dadinhos.

- Hoje é sua vez, gatinho. À vontade.

O rapaz não espera uma segunda ordem.

- Saiu EM FRENTE AO ESPELHO e SEXO ANAL.

- Tudo bem. Vamos nos contentar só com o que temos.

Não vou lá em cima buscar um espelho, a menos que você faça

absoluta questão.

- Para mim, tudo bem. Faremos sem o espelho.

- Afinal de contas, amor, qual a função do espelho?

- Desfrutar melhor dos movimentos... Você adoraria ver o

Juninho entrando no seu... Na sua bundinha. Dá uma sensação...

Risos.

- Pense que não faltará oportunidade. Talvez na próxima.

A gente vem pra cá preparado e traz tudo que tem direito.

A propósito, ia esquecendo: deixa te mostrar o que minha irmã

Sofia me deu de presente, antes de ir hoje cedo para o trabalho.

Cadê a lanterna?

Lígia levanta o vestido. De dentro da calcinha retira uma

pequena latinha.

- Posso saber o que tem dentro desse recipiente?

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

62

- Calma. Dentro de alguns minutos matará a sua

curiosidade. Agora senta aqui a meu lado e deixa te falar uma

coisa. Contei tudo o que fizemos ontem a Sofia, ou melhor, o que

tentamos e não conseguimos.

- Pô, você abriu pra sua irmã?

- Sim. Qual o problema?

- Jesus Cristo, estamos fritos.

- Relaxe, meu príncipe. Fique frio. Ela é sangue bom. Aliás,

me deu altos conselhos. Deixou bem clara a nossa situação.

“Maninha, vá em frente. Para segurar a onda e manter um homem

embaixo dos seus pés, não espere, dê. Solte a franga. Mostre

logo do que é capaz. Detalhe: ele vai chegar junto e te pedir uma

comida básica no traseiro. A primeira vez dói pra caramba.

Parece que as pregas estão sendo arrombadas e arrancadas ao

mesmo tempo, por um estilete. Por mais carinhoso que o cara seja

enfiando a piroca com jeitinho e usando de toda delicadeza, você

subirá ao topo da Torre Eiffel e voltará ao chão umas “trocentas”

vezes. Não se assuste. O corpo sede, tudo sede, você sem se

aperceber dará gritinhos de prazer, além do que a bunda tem uma

elasticidade medonha para se amoldar ao ferro entrando. Nas

metidas que se seguirem depois, aposto, você estará enfiando de

primeira e rebolando em cima do pau dele, tão carente, mas tão

carente, quanto uma criança recém saída do gueto”. Me deu isto e

pediu que passasse antes de você me chamar no saco.

- E o que é?

- Unta cu.

- Unta o quê?

- Deixe de conversa fiada. Você jogou os dadinhos,

lembra? Tirando a história do espelho, ponha em prática o que

saiu escrito no outro.

A outra perna do saci

63

Nó na garganta

MAL E PORCAMENTE PANTOLFO CHEGOU DA RUA

E SE ACOMODOU no sofá da sala para tirar os sapatos, o pequeno

Luan, que assistia desenhos na TV, desligou o aparelho e

encarou o pai, muito sério.

- O senhor saberia me esclarecer quem nasceu primeiro?

O homem ou a mulher?

- O homem.

- E a mulher?

- Veio de uma costela de Adão.

- E quem é Adão?

- O primeiro homem.

O garoto sentou ao lado do pai e cruzou as pernas como se

fosse adulto.

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

64

- Foi?

- Isso.

- E onde ele está agora?

- Morto.

- Se ele está morto, como é que a mulher nasceu da costela

dele?

- Obra de Deus, meu filho. Obra de Deus. Cadê sua mãe?

- Saiu com a Maria. Foram ao supermercado fazer compras.

- Seu irmãozinho?

- No parquinho com a babá. Pai, tem um negócio que está

me causando um monte de dúvidas? Será que o senhor...

- ...Se estiver ao meu alcance.

- Voltando a esse tal de Adão. O senhor falou que a mulher

veio da costela dele. Se a mulher veio da costela desse tal de

Adão, a mamãe saiu da sua costela?

- Não, filho. Mamãe e papai são diferentes.

- Diferentes? Como?

- Mamãe nasceu na casa de seu avô Tonico e de sua avó

Simone.

- E o senhor?

- Eu vim da casa de vovô Anacleto e de vovó Custódia.

O moleque caminhava absorto em pensamentos distantes.

- Pai, onde é que o vovô Tonico e a vovó Simone

A outra perna do saci

65

nasceram? E o vovô Anacleto mais a vovó Custódia, vieram do

mesmo lugar?

Boquiaberto, Pantolfo não sabia o que responder. Precisava

pensar rápido, inventar uma desculpa qualquer que satisfizesse a

curiosidade do filho e o retornasse aos desenhos.

- Todos eles vieram lá do céu, no bico de uma cegonha

enorme.

- O senhor também veio no bico dessa cegonha?

- Como todo mundo...

- Pai, essa cegonha traz gente grande igual todo adulto ou

só carrega criança do meu tamanho?

- Só criança do seu tamanho.

- No bico?

- No bico.

- E a criança não cai?

- Não, não cai. A cegonha é muito cuidadosa.

Luan estalava os dedos das mãos, como fazia seu avô Anacleto.

Parecia nervoso e preocupado. Aliás, estava. E muito.

- Pai, meu irmão Lucas veio no bico da cegonha?

- Veio. E pousou bem aí nos fundos do quintal.

- Que troço mais esquisito!

- O que é esquisito, filho?

- Se for mesmo a cegonha quem traz as crianças, como é

que o Lucas saiu da barriga da mamãe e nasceu na maternidade?

Será que a cegonha errou de endereço?

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

66

Pantolfo abriu a boca e franziu o cenho diante dessas revelações.

Para ele, até então, o guri não passava de uma criança com o

espírito embebido na aventura da idade, só querendo conhecer

um pouco mais da vida dos adultos. Todavia, a história da barriga

e da maternidade mexeu fundo com sua cabeça.

- Quem falou que o Lucas saiu da barriga da mamãe e

nasceu na maternidade?

- O padre.

- Padre? Que padre?

- Padre Gregório.

- Quem levou você a esse tal de padre Gregório?

- Tia Elaine.

- Quando?

- Não sei.

- Não sabe?

- Acho que “era” ontem.

Risos.

- Sua mãe acompanhou vocês?

- Não. Mamãe parou na padaria.

- Na padaria?

- É pai. Ela disse à tia Elaine que iria comprar uns

trecos:ovos, pão de forma, manteiga, não sei mais o que e fermento.

- Fermento? Para que sua mãe precisa de fermento?

- Acho que é para pôr na torta que vai fazer para tia Vânia.

A outra perna do saci

67

- Torta para tia Vânia?

- Ela vai fazer aniversário, esqueceu? Mamãe está preparando

uma torta de surpresa. Eu e tia Elaine fomos até a paróquia

convidar o padre.

- Hummm!...

- Pai, o padre Gregório é mulher?

- Não conheço pessoalmente o padre Gregório, filho, mas

por tudo quanto é mais sagrado, de onde você tirou essa idéia?

- Ele não usa uma saia preta e comprida?

- Todos os padres se vestem assim. Aquilo não é saia.

É batina.

- Mamãe usa batina?

- Sua mãe usa saia.

- E tia Elaine usa batina?

- Saia.

- E tia Vânia?

- Saia. Todas as mulheres usam saia. A Maria, a babá de

seu irmão, sua avó...

- Por que os padres usam batina e não vestem calça?

O senhor não acha que tia Elaine e tia Vânia ficariam mais bonitas

se usassem uma batina igual a do padre Gregório? Ou vice-versa?

O senhor teria coragem de usar batina, ou uma saia bem curta

igual a da Maria, nossa empregada?

Pantolfo começou a mostrar sinais de irritação e impaciência.

O moleque queria saber demais, e a uma velocidade vertiginosa.

Torrava a paciência. Principalmente, depois de um dia estafante e

cheio de encrencas no escritório da companhia. Teve uma ideia.

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

68

- Filho, você não quer chupar um sorvete?

- De morango ou de abacaxi?

- Você escolhe o sabor que melhor lhe aprouver.

- Melhor o quê?

- Agradar. Melhor lhe der satisfação.

Luan, contudo, não se fez de rogado. Voltou à bateria de

perguntas.

- Pai, como é o nome da primeira mulher?

- Eva.

- Eva?

- Eva.

- Gozado! O senhor não vai acreditar. Ela mora ali

embaixo, depois da pracinha, perto do açougue. É a mãe do

Funchal.

- Mãe... Mãe de quem?

- Do Funchal, um colega meu. Estuda comigo. A gente

senta um ao lado do outro.

- Filho, essa Eva é outra. Não é a que saiu da costela de

Adão.

- Como é que essa outra Eva conseguiu sair da costela

desse tal de Adão?

- Já disse: ela não saiu...

- O senhor não acabou de falar que a Eva saiu da costela

de Adão?

- Sim.

A outra perna do saci

69

- Então?

Pantolfo colocou as mãos em concha no rosto miúdo do garoto

e tentou parecer calmo. Por dentro, entretanto, uma pilha.

- Lembro que estávamos comentando a respeito da

primeira mulher, não da mãe de seu amiguinho aí... Como é mesmo

o nome?

- Funchal.

- Claro, Funchal. Que nome.

Luan seguia disposto a não dar tréguas.

- Pai, o que é costela?

Em resposta o pobre e cansado pai arrancou do bolso uma

carteira e, dela, uma nota de dez reais. Balançou no ar.

- Olha só. Vamos gastar tudo em sorvete?

- O senhor não respondeu: costela, o que é costela?

- Está bem. Você ganhou. Costela, ou melhor, costelas,

são esses ossos que temos aqui nas costas.

No que falava, Pantolfo se posicionou de lado e, com o braço

esquerdo, tentou indicar as vértebras à linha média no ventral do

tronco.

- Está vendo?

- Não senhor.

- Tudo bem. Vamos voltar ao sorvete? Você falou em

morango e abacaxi...

O menino, porém, andava longe.

- Droga! Agora acho que “pirei”...

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

70

Pela segunda vez, Pantolfo voltou a arregalar os olhos. Fixou

o rosto do filho como nunca havia feito até então. Não queria

acreditar no que acabara de ouvir.

- Acha que o quê?

- Pirei...

- Explique o que é “pirei”.

- Todos os meus amiguinhos da escola falam “pirei quando

vi a professora levantando a calcinha no banheiro, pirei quando

minha madrasta chegou e me pegou batendo uma punheta. Pirei

quando o diretor me pegou mijando de pau duro, na parede da

secretaria...”

- E, no seu caso, como é que você acha que pirou?

- Tio Léo veio dormir aqui em casa quando o senhor viajou.

- E daí?

- Trouxe com ele a tia Berenice. Eu escutei os dois

conversando lá no quarto da Maria. Tio Léo disse e mamãe também

ouviu quando ele falou que a tia Berenice era a costela dele.

Tia Berenice saiu da costela do tio Léo, pai?

O telefone tocou. Pantolfo, quase à beira de um ataque de

nervos (não tinha mais saída para tantas perguntas e, sobretudo,

empombado com a sagacidade e a inteligência do primogênito),

deu um pulo do sofá e correu atender. Graças a Deus havia sido

salvo pelo gongo. Mais um bloco de perguntas e entraria em pânico.

Do outro lado da linha, alguém procurava pelo Luan.

- É seu amigo navio.

O pequeno franziu o cenho.

- Meu amigo navio? Eu não tenho nenhum amigo navio,

pai.

A outra perna do saci

71

O infeliz levou as mãos à cabeça. Não sabia mais o que fazer,

ou dizer. Na verdade, sua vontade se constituía numa só: arrancar

os poucos fios de cabelo e sair correndo feito um louco pelo meio

da rua. Optou por gritar o nome do coleguinha e pronto. Assunto

encerrado.

- Funchal, Funchal. É o Funchal...

- E por que o senhor chamou meu amigo Funchal de navio?

Teve vontade de explicar que Funchal era um transatlântico

que ele vira atracado no porto, quando voltava para casa.

E, coincidentemente, seu amiguinho tinha o mesmo nome dessa

embarcação. Conteve o ímpeto a tempo. Sabia, de antemão, que

qualquer observação que fizesse não ficaria restrita só a pequenos

pormenores. O guri iria querer detalhes:

- Escuta aqui, seu espertinho. Atenda ao telefone e deixe

de conversa fiada. Vou lá fora comprar cigarros.

- Cigarros? Para quem? O senhor não fuma! E o meu

sorvete? Cadê o dinheiro que o senhor tirou do bolso e ia me dar

para comprar sorvete?

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

72

73

PACU DA CABEÇA VERMELHA SABIA QUANDO a

gostosura da vizinha do 301 estava em casa. Morava no 201, o

que lhe proporcionava, na pacífica contemplação dos sons

produzidos por ela, uma viagem ao faz de conta, em que meditações

bucólicas embaraçavam sua alma de homem solitário. De repente,

se via no meio da cena, como se estivesse lá em cima, ao lado

dela, igual um poeta sentado e embevecido com o sussurro das

árvores docemente agitadas pelo calmo sibilar do vento.

A misteriosa moradora - dona de um corpo escultural e perfeito

- reunia todos os encantos do ser ideal com os quais qualquer

sujeito normal sonharia. Em razão disso, Pacu se tornou

perdidamente apaixonado. Uma paixão delirante, inconsequente,

desenfreada e inexplicável, que impregnava nas paredes pequenas

nuances de senilidade, misturados com momentos de furor e de

ciúme mesclados com pitadas de reviravoltas de ternura e

lágrimas. A linda chegava sempre por volta das cinco horas da

manhã. Estivesse dormindo ou não, acordava com o barulho dos

sapatos dela nos degraus. Moravam, ambos, num prédio antigo,

de três andares onde se acessava as residências por uma escada

de corrimão amarelo. Logo que entrava em casa a jovem ia ao

banheiro. Ouvia a tampa da privada sendo abaixada às pressas e,

Anjo noturno

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

74

depois, a descarga acionada. Em seguida, ela se dirigia para o

quarto. Livrava os pés dos sapatos altos e os toc, toc, toc, toc,

contra o piso de cerâmica cessavam. Movia a porta de algum tipo

de guarda-roupas ou algo semelhante, o que produzia um diálogo

rústico entre o ato de ser aberta e o ranger das dobradiças, como

a de uma gata assustada soltando um miado fora de tom.

Pacu da Cabeça Vermelha imaginava, a partir desse instante,

que ela se despia completamente das roupas usuais. Tinha início

uma série de andanças calmas e suaves como o de um desabrochar

de flores. Naturalmente, a catita circulava nua, ou só de calcinha.

Tudo não passava de simples deduções devido à convivência, o

apuro dos ouvidos e a meticulosidade nas observações. Do quarto

ela entrava no banho. Abria a torneira. Sobressaíam, então, os

ruídos da porta do boxe sendo acionada, do chuveiro quente ligado

e da água escorrendo pelo ralo. O fragor desse asseio corporal

durava meia hora, quarenta minutos, às vezes mais. Outros estalidos

de menor importância vinham em auxílio às repetições desses sons,

até que, inesperadamente, se tornavam fracos como se a donzela

sumisse em pleno ar. Mas não. Em meio ao curto silêncio, ela logo

dava sinais de que estava lá, bem viva e esvoaçante. Ligava a

televisão. Vozes e tiros, gemidos e berros substituíam a calmaria

reinante. A bela surfava nos canais à procura de algo que

preenchesse vazios ou espantasse a solidão.

O passeio durava um segundo. Logo esquecia o controle e se

atinha ao reprodutor de CDs. A voz adocicada de Ana Carolina(ela

a adorava) tomava conta do ar, se misturava à magia da quase

manhã, perdia a timidez e saía pela janela, como leve brisa

balouçando ao acaso. “Eu quero te roubar pra mim, eu que não

sei pedir nada, meu caminho é meio perdido, mas que perder seja

o melhor destino”. Pacu, embalado por essa tranquilidade inabitual

e, inebriado pela voz da intérprete, dava a seus devaneios uma cor

risonha, saía literalmente do chão, como se flutuasse. Voltava à

vida quando os ponteiros do relógio passavam das onze e meia da

manhã.

A outra perna do saci

75

Uma bela madrugada, por volta das quatro da matina, despertou

com passos diferentes no corredor. Não os dela, mas de alguém

oposto aos hábitos e costumes a que se acostumara. Apurou os

sentidos. Ouviu, então, a voz grave de um homem e tal constatação

bastou para lhe fazer mergulhar em horríveis visões. Seu mundo

caiu. Desmoronou, veio a baixo. A sedutora moradora do 301,

realmente, trouxera, consigo, um “estranja” a tira-colo. Estava

patente a sua presença no pedaço e, por mais que quisesse, não

poderia simplesmente fazer de conta que não se importava. Deixar

a coisa pra lá, meter o travesseiro sobre o rosto e tentar conciliar

o sono, bem sabia, seria humanamente impossível.

Afinal, de onde vinha esse cuidado sem razão? Por que essa

preocupação descomedida com aquela jovem? Não era nada sua,

nem um simples laço de amizade mantinha com ela. Que ganharia

se metendo em sua vida? Sabia que a ocupante do apartamento

acima do seu se assemelhava a uma dessas deusas hollywoodeanas,

só vista nos cinemas, mas e daí? Vezes sem conta forçara

encontros. Chegou ao cúmulo de mandar flores e bombons com

nome trocado. Quando se esbarravam, fosse saindo ou chegando,

trocavam apenas ligeiros acenos de cabeça ou “olás” insossos.

Num desses tropeços fugidios, certa vez, ela lhe dirigiu um sorriso

seco e sem a indicação de que pretendia manter uma amizade

duradoura ou qualquer coisa equivalente.

Entretanto, a ida daquela graciosa para a cama com o tal sujeito

que viera de contrapeso, avançou para seus tímpanos como um

cortejo melodramático aos toques de uma música sombria e brutal.

Não a de Ana Carolina, “Eu vou contar pra todo mundo, eu vou

pichar sua rua, vou bater na sua porta de noite, completamente

nua, quem sabe, então, assim, você repara em mim”, mas um

batidão simultaneamente duro e solene, no qual se misturava o

pensamento fixo enroscado nos dois abraçados, atarracados, quem

sabe, num beijo de língua, rolando, por certo, sobre os lençóis e

os gritos de prazer daquela fêmea estupenda, durante o ato e,

após, saciada pelo apogeu do gozo supremo, o descanso merecido.

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

76

Essa loucura aparentemente infantil fez com que os pensamentos

desordenados explodissem em ondas de um frenesi impetuoso.

Pacu da Cabeça Vermelha se viu, de repente, em meio a uma

multidão horrorosa de fantasmas circulando em volta de si. Como

se tivesse sido atirado, sabe-se lá por quem. A esse quadro lúgubre,

se juntaram barulhos ensurdecedores, gemidos, gargalhadas, gritos

e urros distantes que outros tantos, vindos, talvez das profundezas

de prédios vizinhos, pareciam responder. Uma coisa, porém, restou

clara. A formosa do 301, a partir daquele momento, perdera, para

ele, seu caráter de nobreza. Deixou de ser a princesa que morava

em um castelo de mimos dentro de seu coração desafortunado e

vazio para se transformar numa figura ignóbil e grotesca.

Decidiu que, a partir daquele instante, era chegado o tempo de

esquecer a moça de uma vez. Para sempre. Dar um basta. Deixar

de sofrer por quem nem sabia da sua existência. Colocar uma

pedra enorme em cima. Faria isso ou acabaria louco, vivendo uma

fantasia que não levaria a nada, nem a lugar nenhum. Caminhou

até o freezer. Abriu uma cerveja bem gelada. Fritou uns tira-gostos.

“Eu quero uma lua plena, eu quero sentir a noite, eu quero olhar as

luzes, que teus olhos não me têm deixado ver, agora eu vou viver”.

De volta ao quarto, escolheu um pornô e botou pra rolar.

Repetiu a cerveja, depois outra e mais outra. Diante do aparelho

de DVD, fartou os desejos incontidos num cinco contra um em

homenagem à musa graciosa que brilhantemente coadjuvava no

filme. A campainha tocou. “Quem poderia ser, àquela hora?” Pelado,

as mãos sujas da recente punheta, não se preocupou em pegar

uma toalha e se cobrir. Estava grogue, a cabeça em pandarecos.

“Que se foda! – pensou – Seja quem for, isso não é hora de bater

na casa de ninguém”. Destrancou a chave, assoviando Ana

Carolina. “Eu não vim aqui pra entender ou explicar, nem pedir

nada pra mim, eu vim pelo que sei, e pelo que sei, você gosta de

mim, é por isso que eu vim”. Escancarou a porta até o canto.

Espanto total. Diante dele, a gostosura da vizinha do 301.

A outra perna do saci

77

QUANDO EU ERA PEQUENO, TINHA UM MEDO

terrível, que me pelava todo, da Cuca, que vovô João, dizia, a

toda hora, viria me pegar, se eu fizesse alguma coisa errada, e me

levaria dentro de um saco preto para um lugar distante. E eu fazia

muita coisa errada, porque era criança e criança não tem o

discernimento das pessoas adultas, de saber distinguir o que é

certo e o que é errado, de diferenciar entre o feio e o ridículo, ou

de separar o bem e o mal, como o joio do trigo. E fazendo coisas

erradas, entrava na “bainha do facão”, uma espécie de protetor

de couro duro onde vovô João guardava um facão enorme, usado

para cortar cana na vendinha, onde comercializava pastéis, quibes,

coxinhas e caldo de cana. Essa bainha de facão odiosa entrava em

cena quando eu o tirava do sério. Se transformava, de repente,

numa espécie de cinto que comia, sem dó nem piedade, por cima

do lombo.

Demônios eternos

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

78

Lembro que vovó Marta acordava muito cedo para fritar uma

porção de salgados (já preparados na véspera) para, às sete horas

em ponto, a pequena portinha de ferro estar escancarada ao público

e vovô João aumentar o volume dos seus trocados nos bolsos.

Morávamos em frente a um grupo escolar, onde, aliás, eu

também estudava, na parte da tarde. Na hora do recreio, o velho

Airão abria a porta de madeira. Um bando de meninos e meninas,

entre afoitos e alegres, corria a atravessar a rua movimentada para

pegar um lugarzinho melhor na vendinha de meus avós. A maioria

da garotada ficava do lado de fora comendo, sentada na calçada,

porque não cabia todo mundo lá dentro. À noite, na hora que

fechavam, os dois velhinhos faziam a festa, e antes de ser servido

o jantar, ficavam num canto do quarto contando um amontoado

de moedinhas. Depois, separavam cada uma pelo seu valor

correspondente e depositavam em pequenas latas de leite em pó.

Só, então, depois de cumprido esse ritual, os dois se separavam.

Vovô ia esconder o dinheiro atrás de uma velha estante que havia

no quarto do casal, e vovó Marta seguia para a cozinha para

preparar o jantar. Geralmente, a última refeição se constituía numa

suculenta panela de sopa com os mais variados tipos de legumes.

Mas a tal da Cuca, meu Deus, essa praga povoava meus dias

de manhã à noite. Seguia meu rastro pelos corredores, se fazia

presente na sala de aula, me vigiava pelas esquinas e estava sempre

por perto, prestes a dar o bote e me matar. O Orlando, um

amiguinho meu, que estudava na sala ao lado, era paralítico, se

movimentava com a ajuda de dois paus de arrimo e, praticamente,

todos os dias, quando tocava a campainha para o intervalo,

costumávamos trocar o lanche das nossas lancheiras. Ele falava,

com o rosto tomado pelo pavor, que na sua casa havia um bicho

“danado de medonho”, que seus pais diziam que se não estudasse

direito e repetisse o ano, ele seria entregue tão logo soubessem da

notícia pelo boletim. Era o Saci Pererê, um menino mal encarado,

A outra perna do saci

79

filho do demônio, que andava pulando numa perna só e fumava

um cachimbo comprido cheirando a enxofre. Com a Aninha, uma

outra coleguinha de classe (que sentava ao meu lado direito) não

acontecia diferente. Aninha morava com uma tia feia e chata, de

cabelos avermelhados, duas casas abaixo da minha. Não tinha

mãe, nem pai. Eles morreram quando atravessavam o leito da via

férrea, num acidente horrível, envolvendo o carro de passeio, em

que viajavam e o Litorânea, um trem expresso, de passageiros,

que cruzava a cidade, tarde da noite, vindo da capital, com destino

ao interior. O bicho da Aninha era o Boi da Cara Preta. A simples

menção desse troço a deixava em pânico, aos prantos e em estado

de choque.

Porém, o tempo passou. A infância cedeu lugar ao mundo adulto.

Cresci, virei gente grande. Casei. Arranjei um monte de filhos.

Hoje, olhando para eles, percebo que a mesma história dos tempos

dos meus avós, das tias e dos pais dos meus amiguinhos de infância

continuam se repetindo, indefinidamente. E com certeza, serão

eternos, movidos pelo medo e pelo ressentimento que cada um

carrega dentro de si. Serão imortais esses malnascidos,

alimentados pelas línguas dos nossos entes queridos e amados,

que ainda conseguem ressuscitar e fazer desses demônios, bichos

de aparências indescritíveis, com sete cabeças e mil braços,

invencíveis e indestrutíveis como os fantasmas iracundos que estão

dentro de nossos corações.

A Cuca não pega, o Boi da Cara Preta não assusta, nem leva

ninguém para lugar algum. Tampouco o Saci Pererê, e tantos mais...

Nada disso existe. Esses seres inexpressivos são figuras

mitológicas, sem alma, frutos de mentes doentias que lhes davam

vida e forma, movidos por uma imaginação tacanha. O nosso medo

bobo, por eles todos, está bem aqui dentro do peito, escondido,

inoculado, como uma vacina de horrores, pronto para entrar em

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

80

cena a qualquer momento. Eu sou a Cuca, o Orlando o Boi da

Cara Preta, a Aninha o Saci, ou vice-versa. Nós próprios criamos

um receio que não existe e vivemos com ele, como se fosse uma

doença incurável, para o resto de nossas vidas. A Cuca,

definitivamente não estará, jamais, espreitando quem quer que seja,

no final do corredor, nem o Saci Pererê entrará por uma janela

que ficou aberta, como igualmente o Boi da Cara Preta não correrá,

desembestado, em volta da casa, intencionado em levar, com ele,

preso aos chifres, uma menininha linda que não quis dormir de luz

apagada. A escuridão sombria é o pavor medonho do nosso quarto.

Somos nós mesmos, idiotas petrificados, refletidos no espelho do

nosso terror. Como a luz benigna que se acende, também vem de

dentro de nós e se espalha como o sol bonito lá fora, por todo o

infinito que o Criador nos deu de presente. Esses demônios têm a

vida que lhes damos e respiram o ar que colocamos em suas

narinas. Como fazia vovô João. Por isso, essas criaturas se

movimentam, segundo nossas vontades. Esses bichos-papões que

andam, à solta, pelos becos e guetos de nosso dia a dia, a

amedrontar, hoje, nossos filhos, e amanhã, e certamente depois,

tirarão o sossego e o fôlego de nossos netos e bisnetos, estão e

estarão vivos dentro de cada um que os queira alimentar. Estão e

estarão presentes em nosso caminho, como aquela gigantesca

árvore do mal, fazendo uma sombra escura cair, pesada, por sobre

nosso futuro. Precisamos, pois, cortá-la, para que não tenha mais

vida plena. Arrancar, de uma vez, a raiz maligna que nasce do

centro da nossa alma e brota, como se tivesse mil tendões.

Precisamos exorcizar esses demônios, banalizar a barbárie, de

maneira que só restem deles, uma lembrança longínqua, esquecida,

apagada, atenuada para sempre, num canto ermo da nossa

memória.

A outra perna do saci

81

O MENINO ENGRAXAVA SAPATOS NO CENTRO DA

cidade e, naquele momento, cruzava a ponte, voltando para casa

com sua caixinha debaixo do braço. De repente, seus olhos argutos

e muito vivos avistaram a peça que descia rio abaixo, ao sabor do

vento morno da tarde ensolarada. Como um doido danou a correr

gritando para o pessoal que bebia cerveja na birosca do Waldemar,

em torno de um outro grupinho que tocava cavaco, surdo, recoreco

e pandeiro:

- O sofá, o sofá! Venham ver, o sofá!

A rapaziada se pôs de pé e acorreu para onde o moleque

apontava o precioso achado. Em pouco tempo, uma multidão de

moradores da Favela do Elefante, ao ouvir a gritaria e perceber o

corre-corre, engrossou a massa dos curiosos. Era assim, qualquer

novidade mudava o quadro daquelas famílias humildes. Num abrir

e fechar de olhos, o cotidiano de cada um saía do marasmo e

explodia para uma espécie de alvoroço inusitado. A miséria se

escondia num canto e em seu lugar nascia o momento mágico do

irreal e do ilógico. Saídos de ruelas e becos os mais diversos,

homens de bicicleta e sem camisa, mulheres com crianças no colo

Zona de impacto

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

82

e agarradas às barras de seus vestidos imundos, paravam os

afazeres. Os comerciantes cerravam as portas de suas vendas e

lojinhas para se juntarem à raia miúda que, em polvorosa, se

acotovelava em fila tripla, espalhada por toda a extensão ribeirinha

com a finalidade de bisbilhotar o que o rio trazia em seu leito.

Misturado em meio a tubos de óleo, pedaços de sacolas, sacos

plásticos, latas de cerveja e refrigerante, garrafas descartáveis,

restos de acampamentos e piqueniques, lá vinha, boiando, meio

capenga, o enorme sofá vermelho de curvim. Nessas alturas,

alguém lembrou de chamar o Rubião Mathias, líder comunitário,

que, junto a um vereador local e um representante do prefeito,

faziam um trabalho voluntário exatamente no sentido de

conscientizar os cidadãos da periferia a não jogarem dejetos no

velho rio que, às vezes, dava a impressão de estar morrendo em

lenta agonia. Mas não estava. Quando chovia a favela virava um

inferno. Se o temporal perdurasse por muitas horas, as águas subiam

acima do nível normal, atravessavam o asfalto, engarrafavam o

trânsito, invadiam os barracos e, muitas vezes, deixavam famílias

inteiras ao desabrigo. Afora o desespero de perderem o pouco

que possuíam, a tragédia, nessas ocasiões, não vinha sozinha. Trazia

consigo a desgraça e a incerteza de um amanhã cheio de dores.

A maioria das cabeças de porcos que ocupava, praticamente,

todo o terreno, no qual se fundava o vilarejo dos casebres, era

construída com caixas de papelão, depois envolta em plástico e

coberta com folhas de zinco. Muitas vezes, essas construções

precárias não resistiam ao temporal e, em consequência, vinham

abaixo e, com eles, a desgraça de alguém aparecer morto - tentando

resgatar um aparelho de TV, roupas de cama e até comida - na

hora precisa, não atinava com o bom senso de largar tudo e escapar

a tempo de salvar a pele. Mas nesse dia não havia chovido. O dia

transcorrera calmo e sossegado. O rio apresentava um curso

coberto por uma película oleosa, em que uma variedade de microorganismos

perigosos proliferava a céu aberto. Sem contar nos

cinco milhões de metros cúbicos de sedimento, lixos e afluentes

de esgotos industriais e domésticos. Bem, ainda, coliformes fecais

A outra perna do saci

83

e descargas de outros afluentes que terminavam se juntando a ele,

a rotina seguia sua sequência normal.

Não fosse, igualmente, o pestinha ter dado o alarme, a favela

findaria o resto da tarde em clima de total tranquilidade:

- O Sofá, o sofá. Venham ver!

O que teria de tão extraordinário naquele cacareco malajambrado

para movimentar uma centena de desocupados e vadios

em torno de sua presença? Por que a favela em peso se levantou

num salto gigantesco para lhe colocar os olhos em cima? Não era

apenas um velho móvel vermelho de curvim? Que estranho mistério

o envolvia?

As respostas estavam condensadas num fato acontecido há

algumas semanas. Um traficante conhecido como “Chiquinho

Fumaça” havia sido preso junto ao seu bando num arrastão que a

polícia fizera, sem aviso, em sua brejada. Os representantes da lei,

contudo, não encontraram nada do que procuravam, ou seja,

cocaína, pedras de craque e maconha. O “Chiquinho” comandava

uma boca de fumo da pesada no coração da favela, mas na hora

do “pega pra capar”, não havia nada que o incriminasse.

O sujeito parecia ter trato com o Coisa Ruim. Algumas horas

antes de ser levado para a carceragem, como que adivinhando e

antevendo os acontecimentos, operou um processo de

“engravidamento” no sofá, ou seja, acondicionou tudo que se

relacionava ao seu comércio ilegal numa espécie de fundo falso,

bem camuflado. Contratou um carroceiro de fora da favela e

transportou o “material”, incluindo dinheiro, joias e uma vultuosa

quantia de dólares para a casa de uma de suas amantes que morava

numa outra favela, não muito distante, também, por coincidência,

à beira do mesmo rio e, cujo endereço até o próprio diabo

desconhecia. O interessante, nessa história, é que a moça que

receberia o sofá sabia que o companheiro vivia às margens da lei,

contudo, não atinava com o segredo valioso que ele escondia

dentro de si.

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

84

Na segunda noite, contudo, o inesperado aconteceu:

O “Chiquinho” apareceu enforcado misteriosamente em sua cela.

Sua morte foi comentada em todos os jornais e programas de

televisão. A amante, logo que soube dos fatos, e, temerosa de se

ver envolvida com a Federal, resolveu ir embora da cidade. Fez

as malas e, antes de abandonar, de vez, o barraco achou por bem

“dispensar” o sofá, atirando-o ao rio.

Quando a notícia da morte de “Chiquinho” se espalhou pela

favela do Elefante muita gente, na calada da noite, resolveu tomar

posse dos bens do falecido. Todos sabiam que o camarada tinha

culpa no cartório. Só não sabiam como os homens da lei não o

flagraram com a boca na botija. Em meio a tanto disse-me-disse,

a vizinhança e os próprios colegas de infortúnio, por unanimidade,

concluíram que o espertalhão havia “enxertado”, de alguma forma,

o velho sofá vermelho de curvim e sumido com ele sabe Deus

para onde. A prova disso é que a polícia ficou de mãos abanando,

a ver navios...

Depois de alguns dias, caso passado, outros investigadores

retornaram à favela a fazer perguntas. Claro que uma pá de gente

lembrou-se do carroceiro e da carroça fretada. Claro que uma pá

de gente chegou a ver, realmente, o sofá vermelho saindo, numa

boa. Porém, nesses lugares, ainda impera a lei do silêncio.

Conclusão: mesmo que algum idiota tivesse visto ou presenciado

qualquer tipo de manobra estranha, faria, com certeza, vistas

grossas, ou colocaria um zíper na língua para não ser assassinado

e amanhecer com a boca cheia de formigas.

Mas, na tarde daquele dia, a porra do menino voltava da cidade,

onde trabalhava engraxando sapatos. De repente, no meio da ponte,

seus olhos argutos e muito vivos avistaram a peça que descia rio

abaixo, ao sabor do vento morno da tarde ensolarada:

- O sofá! Venham ver! O sofá do Chiquinho está vindo ali,

venham, venham depressa!

Tanta gente se fez ao rio que, em menos de cinco minutos, o

velho sofá, como por encanto, desapareceu.

A outra perna do saci

85

TENHO UM AMIGO COMUM, O PEDRA NA VESÍCULA

que, impreterivelmente, nos finais de semana, não deixa de beber

a sua cachaça. Chova ou faça sol, haja algo ou não para comemorar,

lá está ele, fiel a sua companheira.

Outro dia, ao socorrer uma jovem que fora atropelada no

trânsito, fui parar, quase às duas da madrugada, num prontosocorro

desta cidade. Para surpresa minha, quem não encontro

na recepção, com a cara toda arrebentada preenchendo uma ficha

para ser atendido? Ele mesmo, Pedra na Vesícula. Entre espantado

e boquiaberto (ou mais boquiaberto e desesperado pelo fato de

ter me visto) lhe perguntei, de chofre, o que havia acontecido.

Meio estonteado e titubeante, na verdade, mais para lá do que

para cá, o coitado explicou com uma voz bastante rouca:

- Foi a pia. Se estou aqui, agora, neste estado lastimável

que você está presenciando, agradeço a ela. Unicamente a ela.

- A pia? Mas que pia?

- Pelo amor de Deus, Barbosinha. Você não sabe o que é

uma pia?

Foi tudo culpa da pia

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

86

- Claro que sei o que é uma pia. Mas que relação pode

haver entre uma pia e esse seu estado deplorável?

- Vou tentar ser objetivo. Como sempre faço, depois do

serviço, passo na birosca do Aleijadinho. Tomo umas geladinhas

com alguns amigos de copo para calibrar o organismo debilitado.

Depois de algumas boas rodadas, acabo de chegar no lar doce

lar. Entro direto para o banho, janto, vejo um pouco de novela na

televisão e, então, vou para um quartinho que tenho nos fundos.

Não sei se você sabe, mas eu construí um cômodo nos fundos lá

de casa. Na verdade, fiz uma puxadinha para a Narcisa, minha

filha, que vai casar até o final deste ano. Lembra da Narcisinha?

- Mais ou menos. Quero saber da tal história da pia.

Não enrola e conta logo.

- Calma, homem, eu chego lá. Como estava dizendo, me

dirigi para o quartinho. Sempre que resolvo “embriagar” os ossos,

encharcar a alma, me desligar dos problemas, me tranco nesse

aposento e “meto bronca”. Bebo até o copo fazer bico e a garrafa

pedir arrego. Minha mulher, a Rita, que você já conhece, não

aprova a ideia. Aliás, ela odeia quando bebo alguma coisa, mesmo

que seja uma xícara de café. Acredito até que pretendia “tirar uma”

e eu não estava muito a fim. Não é todo dia que você está com

vontade de “dar no coro” e esquentar aquelas partes secretas,

não é mesmo? Conclusão: a filha da mãe me pegou de porrada e

a coisa acabou nesse quadro que o companheiro está vendo com

os próprios olhos.

- Mas espera lá. Você não falou que não foi a Ritinha?

- De fato.

- Então?

- As “cacetadas” que a Ritinha me deu, você sabe, não

fizeram nem cosquinha. De mais a mais, tapinhas de amor não

A outra perna do saci

87

doem. A culpa realmente foi da droga da pia.

- Está bem. Sou todo ouvidos.

- Na verdade, tenho sempre em casa dez ou doze garrafas

de aguardente, da “boa”. Coisa de primeira. Acontece que a Ritinha

bateu na porta do quartinho e me chamou para ir deitar. Iniciamos

uma pequena discussão. Entre tapas e beijos ela resolveu medir as

forças e avançou resoluta para cima de mim, de cabo de vassoura

e me obrigou a jogar as garrafas fora. Imagine!

- Você não obedeceu, não é mesmo?

- Nem poderia. Como já estava grogue, ou para lá de

Bagdá, peguei a primeira garrafa, bebi um copo e joguei o resto

na pia.

- Continue.

- Peguei a segunda garrafa, bebi outro copo e joguei,

também, o que havia sobrado dela, na pia. Parti para a terceira

garrafa e aí fiz o seguinte: mandei para dentro o resto da água que

os passarinhos não bebem e joguei o copo na pia. Voou vidro

para tudo quanto foi lado. Com a quarta garrafa não foi diferente.

Bebi na pia e joguei o resto no copo.

- Como é que é?

- Você já vai entender: na quinta garrafa, eu peguei uma

tigela cheia de tira-gosto e atirei para o cachorro.

- Para o cachorro?

- É. Mas ele não estava a fim. Deu uma cheirada básica e

foi embora. Meu cachorro não se dá bem com nada que tenha

pimenta do reino. Depois disso eu joguei uma tampinha de garrafa

nos cornos da Ritinha. Ela fica fula da vida quando eu atiro uma

tampinha de garrafa em seu rosto. Não sei o que tem contra as

tampinhas.

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

88

Acredito que seja trauma de infância. O pai dela, que já morreu,

meu sogro, que Deus o tenha, trabalhava numa fábrica de rolhas e

tampinhas de garrafas. Pois então. Enquanto ela se desvencilhava

da tampinha, aproveitei e ingeri, de uma só vez, toda a bagaceira.

Depois, passei a mão na sexta garrafa, meu chapa. Corri para a

pia, corri com vontade e, antes de chegar nela, bebi seu conteúdo.

Bebi na moral, sem ao menos respirar. Ato contínuo joguei o copo

no resto.

- O quê?

- O copo no resto, cara. Joguei o copo no resto. É difícil

entender o meu papo?

- Vá em frente...

- A sétima, meu prezado, peguei no resto, enfiei o dedo

nos olhos da nossa empregada, a Lucrecinha, que veio correndo,

quando se apercebeu do bafafá comendo solto e, antes dela me

xingar todinho, bebi a pia.

- Bebeu... Bebeu a pia?

- Isso mesmo. Na seguinte, nem lhe conto! Que loucura!

Passei a mão no copo, arranquei a pia do lugar e a arremessei

com tudo, contra a nona garrafa. O troço caiu no chão e explodiu

como uma bomba, dessas caseiras.

- Você ficou louco? Pirou de vez?

- Calma, deixa eu acabar de concluir.

- Ta legal. Prometo não interromper mais.

- Pois bem. Por derradeiro, joguei a décima garrafa no

copo, tropecei na décima primeira e me atirei, incontinente

(enquanto segurava a décima segunda garrafa debaixo dos braços)

de cabeça, na pia.

A outra perna do saci

89

Gêmeas

BILICO TANAJURA INVENTOU DE PEGAR UM

DESSES COFRINHOS DE plástico que essas financeiras

distribuem nas ruas, a título de chamarisco, para angariar clientes

novos. Caiu na besteira de levá-lo para casa. Um fiasco. Logo

que meteu a cara dentro do apartamento, topou, na sala, com

Crístiam, uma das suas filhas. A pequena correu em sua direção,

para beijá-lo e, ao fazê-lo, descobriu o cofrinho num dos bolsos

do paletó.

- É meu, papai, é meu?

- Sim, trouxe para você.

- Oba! oba!

Lembrou, então, da Cristiane, gêmea da Crístiam. Coçou a

cabeça. Acabara de criar um problema muito sério. Tentando

remediar a situação, saiu correndo atrás da filha, mas a pequena

sapeca já havia sumido pela porta da cozinha. Certamente iria

levar a novidade para a amiguinha de escola que, coincidentemente,

também era vizinha e morava dois andares acima. Tarde demais.

O que estava feito, não tinha como desfazer ou remediar.

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

90

Pediu uma cerveja à empregada e, enquanto a Lurdinha

preparava a bebida, foi ao quarto e se livrou das coisas que

incomodavam . Odiava sapatos sociais. Terno e gravata, então,

representavam a morte. Meteu os pés num chinelo, vestiu uma

bermuda meio surrada e pegou uma camiseta na gaveta da

cômoda. Retornou à sala. Ligou a televisão. Passeou pelos canais.

Nada de bom. Lembrou que comprara um DVD e havia um filme

na estante que ainda não assistira. “Vai ser agora”.

Lurdinha chegou com a cerveja e um potinho de porcelana

com azeitonas verdes, seu tira-gosto preferido. A serviçal estendeu

uma toalhinha e acomodou tudo numa mesinha de centro.

- Mais alguma coisa, doutor?

- Minha mulher ligou?

- Chegará às oito. Hoje é quarta-feira e o senhor sabe, ela

tem dentista.

- Cadê minha outra filha? A Crístiam eu sei que está na

casa da Samara. E a Cristiane?

- Foi ao shopping com dona Esther, sua sogra.

Bilico apertou o play. Acomodou as costas numas almofadas e

botou as pernas para cima. Depois de um longo dia, alguns minutos

de relaxamento no conforto aconchegante do velho lar. Sem mulher,

sem as crianças, sem a sogra vigiando cada gesto seu...

Que maravilha, ele sozinho, como um rei, só com a empregada a

seu serviço. Bastava estalar os dedos e lá vinha a coitada correndo,

solícita, atenciosa, um amor de pessoa. O filme começou.

Bilico Tanajura gritou à Lurdinha que lhe renovasse as azeitonas

e trouxesse mais uma geladinha.

O filme estava na sua melhor parte. De repente, entra na sala

a Crístiam agarrada nos cabelos da Cristiane e a avó na cola,

fazendo mais barulho que as duas, na tentativa de acalmar os

ânimos entre as briguentas.

A outra perna do saci

91

- Parem com isso, meninas, parem, pelo amor de Deus!

Crístiam não arredou pé. Continuou mantendo a irmã submissa

às suas garras, presa pelos cabelos. Cristiane, sem saída,

praticamente sendo arrastada, gritava e chorava

desesperadamente. Bilico deu um salto do sofá e olhou feio para

as duas.

- Alguém pode me dizer o que é que está acontecendo

por aqui?

- Ela pegou meu cofrinho.

- Ele é meu. Eu não peguei.

- Papai trouxe e deu pra mim.

- Mentira. Esse aqui é meu.

- Sua louca. Fui eu quem achou no bolso de papai.

E tome puxada de cabelo pra cá, beliscada pra lá, chutes e

tapas.

Bilico deu um berro.

- Calmaaaaaaaaaaaaaaa! Querem, por favor, me escutar,

as duas?

Ambas se aproximaram. A sogra de Bilico aproveitou o ensejo

e veio na onda. Botou o dedo no rosto do genro.

- Você não tinha nada que ter dado essa porcaria a Crístiam.

Olha só a confusão.

- Dona Esther, as filhas são minhas.

- Mas eu sou a avó.

- E eu o pai, esqueceu?

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

92

- Vá à merda...

- Se a senhora for comigo, cheiraremos juntos!

A velha partiu para cima do genro. Foi contida pela filha

juntamente com a Lurdinha que milagrosamente apareceram em

cena e trataram de apartar os contendores na hora em que o circo

começava a pegar fogo.

- Mãe, por favor. Lico tenha modos. Por que essa confusão

toda?

Antes de responder a velha retirou de dentro de uma sacola

de supermercado um pequeno cofrinho em formato de porco.

- Por conta desta bosta que esse energúmeno trouxe da

rua e deu a Crístiam. Esqueceu que tem duas crias. Esse negócio

de preferência é um caso sério!

- Não tenho preferência, ô velha jararaca, caninana. Gosto

das duas com a mesma intensidade. Vai ver se estou na esquina...

- Me arranja um cabresto. Se você estiver por lá, eu

aproveito e lhe trago preso nele. Evita que perca a caminhada.

- Chega. Silêncio, os dois. Mãe, para o quarto.

Dona Esther não se deixou amedrontar. Mandou bala:

- Burra...

- Mãe!

A velha saiu furiosa, indignada, soltando marimbondos pela

boca.

- Você não acha que já está bem grandinho para ficar

implicando com minha mãe? Olha a idade dela.

- Querida, foi ela quem começou. Eu estava quieto, no

A outra perna do saci

93

meu canto, tomando minha cerveja, vendo meu filme. Pergunte à

Lurdinha.

A esposa de Bilico ia retrucar, mas Crístiam interrompeu a

discussão.

- Pai, quem é que vai ficar, afinal, com essa droga de

cofrinho?

Bilico fez uma cara de ternura e contemplou a jovenzinha que

olhava para ele muito séria.

- Você, quem é?

- Sou Crístiam, pai.

- Mentira. Ela é a Cristiane. Eu sou a Crístiam.

- Pai, não vê que ela só está tentando confundir a gente?

A Crístiam sou eu.

- Vamos fazer o seguinte. Primeiro provem pra mim, quem

é quem. Estou vendo, na minha frente, duas meninas como se

tivessem saído de uma máquina xerox. A mesma aparência uma

da outra, cabelos semelhantes, olhos inconfundíveis, penetrantes,

sem falar que estão vestidas identicamente. Até os rostinhos não

diferem em nada. Nenhum traço, nenhuma manchinha ou pintinha

para distinguir e afirmar, categoricamente esta sou eu, e, esta não

sou eu. Querem ver. Crístiam, quantos anos você tem?

- Cinco.

- E você Cristiane?

- Também.

- Qual é a cor dos seus sapatos, Crístiam?

- Pretos.

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

94

- E os seus, Cristiane?

- Pretos.

- Muito bem. Você é a Crístiam e ela a Cristiane.

- Lógico que não, pai. Eu sou a Crístiam.

- Eu é que sou.

- Tenham calma. A confusão perdura. Farei uma pergunta

básica. Quem acertar leva o cofrinho: onde é que ele estava quando

eu botei os pés aqui em casa? Quero saber exatamente de qual

dos meus bolsos ele saiu. Esquerdo ou direito?

- Esquerdo pai.

- Sua tonta, você errou. O cofrinho estava no bolso direito.

- Esquerdo, pai

- Direito.

Bilico rodava as duas irmãs em volta de si e começava

uma brincadeira que dava gosto presenciar. Homem de paciência

chegou ali parou.

- Agora que embaralhei as duas, quero saber uma coisa:

afinal, quem é você?

- Eu sou a Crístiam pai e ela a Cristiane.

- Eu é que sou a Crístiam. Pensa que papai é bobo.

Bilico voltou a se sentar no sofá. Sorveu um gole da cerveja

e, em seguida, se voltou para as irrequietas princesinhas:

- Estamos, realmente, diante de um impasse.

- Que impasse, pai?

A outra perna do saci

95

- De saber no meio dessa confusão toda, quem é a Crístiam

e quem é a Cristiane. Vamos tentar de novo: Quem é você?

- Eu sou a Crístiam, já cansei de falar.

- E ela?

- A Cristiane, quem mais poderia ser?

- Eu sou a Crístiam.

- Vamos fazer de conta que estamos numa audiência no

tribunal. Eu sou o juiz. Darei, agora, o veredicto. Como ninguém

aqui me provou quem é quem, de verdade, e, ainda, levando em

conta o fato que, nenhuma das duas lembra em qual dos bolsos do

meu paletó estava o pivô desta balbúrdia, e como até eu mesmo,

como pai, não saberia dizer quem é a Crístiam e quem não é a

Cristiane, e, sobretudo, levando em conta, que se eu devolver o

cofrinho à suposta Crístiam, a Cristiane, sua irmã, ficaria em

desvantagem e vice versa... Se pensarmos nessa hipótese simples,

no fundo, eu, indiretamente beneficiaria uma filha e deixaria a outra

descontente. Por todas essas razões, eu informo às lindas

mademoiselles, que o simpático cofrinho acaba de ser confiscado.

A partir deste momento ele é meu. Agora, minhas bonequinhas,

lindas do papai, com licença. Vou me preparar para o jantar.

Seguiu, sorrindo em direção ao quarto levando o bendito cofrinho.

- Viu só. Você mentiu para o papai. Eu sou a Crístiam.

- Chata, burra, nojenta. Você é a Cristiane. Eu é que sou a

Crístiam.

A mãe fez cara feia, ralhou, deixando claro que, enquanto

estivessem sentadas na mesa, comendo, não queria ouvir nem um

pio. Obedeceram prontamente. Todavia, continuaram a trocar

farpas com os olhares carregados de insatisfação. Se ódio matasse,

certamente morreriam ambas, em conseqüência dele.

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

96

97

BORIS TORQUATO PIMENTA DE ARAGÃO Y

ARAGÃO, com ipsilom, doutor em medicina pela Sorbonne, de

Paris, cuja profissão exercera por quase cinquenta anos

ininterruptos, tornara-se conhecido no tout paulista da feminilidade

graças a sua dedicação ímpar às clientes, seguida de uma

demonstração de carinho e dedicação incondicionais. Amava o

sacerdócio médico e vivia feliz envolvido nos dramas de cada

paciente fazendo deles, não um cliente, mas um amigo em potencial,

cujo sentimento ficava para sempre.

Profissional competente alçou às culminâncias do sucesso, da

fama e da glória e se tornou, com o passar dos tempos, um beau

vivent. Só não chegou a se aposentar como tal, tendo em vista

uma internação quase que às pressas, num sanatório desta cidade.

Os motivos? Estresse, depressão, loucura, sabe-se lá. Algum mal

súbito, todavia, lhe penetrou lentamente às faculdades mentais qual

se fora um unguento tresloucado, acompanhado de um bálsamo

que espatifou seu cérebro lhe fazendo experimentar as sensações

da imprudência e os descaminhos das tropelias.

Doutor Boris

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

98

Segundo o diagnóstico do psiquiatra que o atendeu, o Doutor

Boris passou a acrescentar no final das frases, e em tudo mais que

dizia, aquele trocinho que toda mulher traz no meio das pernas.

Isso mesmo. A perseguida, a vulva, a vagina ou como é

popularmente conhecida, pela alcunha de boceta. Dessa forma,

ele não mais senhor de si, alcançou um aflitivo tumulto espiritual e,

em vista disso, parecia débil e vencido pela enfermidade da

insensatez. Nessa agonia sem precedentes, jungida à canga da

insanidade que o finava consideravelmente, precisaram afastá-lo

dos consultórios e dos hospitais onde dava plantões diários, bem

ainda do convívio familiar.

Contam, os mais chegados, que tudo começou ha duas

semanas, ou mais precisamente num domingo, em meio a um

churrasco entre companheiros e funcionários da sua clínica

particular, amigos, respectivas esposas e filhas no aconchego de

sua suntuosa mansão, aberta nos finais de semana às reuniões da

frivolidade social. A certa altura, teria o vistoso anfitrião passado a

comentar sobre filmes assistidos. Doutor Boris falava com

entonação de quem sabia o que queria expressar.

- Ontem, Matias passou, num desses canais pagos,

“A Sociedade das vaginas mortas” e, logo depois, o clássico infantil

“Alice no país das vaginas”. Mas o que mais me chamou a atenção

foi o que tive o prazer de acompanhar, logo a seguir, em outro

canal, se não me engano naquela da Seção Pipoca, quase já no

finalzinho, “A Insustentável leveza da vagina”. Fantástico! Na

sequência, exibiram “Os caçadores da vagina perdida” e...

Dizem que um amigo tentou intervir mudando o rumo da prosa:

- Boris, você teve oportunidade de ver “O Exterminador

do futuro”?

- Não, meu prezado, mas em compensação, assisti, por

cinco vezes seguidas “Apertem os cintos, a vagina sumiu” e “Os

filhos de vagina”, seguido de “Corra que a vagina vem aí”.

A outra perna do saci

99

- Credo, que é isso?

- A propósito: qual de vocês aqui teve o desprazer de ver

“Loucademia de vaginas” e o “Massacre da vagina elétrica”?

- Boris, pelo amor de Deus, pare com isso. Olhe as

senhoras...

O velho médico não estava nem aí para as madames presentes

que conversavam num canto, animadamente.

- Pretendo ver amanhã “2001 Uma vagina no espaço” e

“As vaginas do senhor reitor”.

Um outro do grupo tomou a frente:

- Boris, vamos ver como estão as panelas lá na cozinha?

Estou com uma fome!

- Antes deixa acabar de concluir aqui para o nosso colega

cardiologista os filmes que loquei final de semana retrasada: “Vagina

em fuga, A última vagina do resto de nossas vidas, Eu sei o que as

vaginas fizeram no verão passado, Romeu e Vagina e Uma linda

vagina, com Richard Pau e a Julia Vagina”.

O tal cardiologista tentou levar na esportiva sem perder a

serenidade:

- Boris, chegou a assistir “O Morro das bocetas uivantes”?

- Infelizmente um sujeito chegou antes de mim. Mas não

me fiz de rogado. No lugar dele eu trouxe “Doze homens e uma

vagina, Sociedade das vaginas mortas, A vagina do diabo e A

espera de uma vagina”. Para meus netinhos escolhi “Vagina aranha

I e II e A Ilha da vagina cortada”. Ainda ganhei de brinde “A vagina

de Brair e O rapto da vagina dourada”.

Diante da insistência do amigo, achou melhor desconversar:

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

100

- Que tipo de literatura você aprecia, Boris?

- A boa, a impecável. Para seu governo, tenho lido muito

de uns tempos para cá.

Parecia estar dando resultado. Todos aplaudiram em silêncio.

- Qual seu autor preferido?

- Poderia enumerar vários deles. Minha nossa...

- Diga alguns nomes.

- Bem, acabei de ler o Luiz Vagina e Carlos Vagina. Aprecio

também os clássicos como José Vagina, Jorge Vagina, Érico Vagina,

Clari Vagina, Maria Vagina e, claro, Antonio Vagina de Santa

Copacabana

O que convidara o Doutor Boris para ir até a cozinha não pode

deixar de soltar uma estrondosa gargalhada.

- Vamos falar de música.

- Aproveitem e coloquem o CD que eu trouxe da Lizete.

- Que me dizem, antes da Lizete, o Jorge Plutão?

Doutor Boris arrancou o copo de cerveja da mão de um de

seus convidados e mandou bala:

- Nada de Jorge Plutão. Minha filha me deu de aniversário

o último do rei Vagina e Chico Vagina. Independentemente desses

que acabei de citar, tenho, lá na estante - caso alguém queira variar

o repertório - Vagininha preta, Mel Vagina, Banda Eucaliptovagina

e Pobre e Vagina.

Dois outros inventaram de acomodar o Doutor Boris numa

rede armada entre duas grossas pilastras em frente aos banheiros

A outra perna do saci

101

que serviam a piscina. Talvez o álcool ingerido o fizesse pegar no

sono.

- Deita um pouco e relaxa, amigão!

- Não estou cansado.

- Quer ver televisão? Alguém sabe onde está o controle?

- Televisão? A essa hora?

- Sim, estamos todos querendo ver o jogo. Não é galera?

A turma gritou um sim alto e uníssono.

- Meus queridos, neste exato momento está começando o

Feriadão do Vaginão. Não seria melhor mudar para o canal

português?

- Tem algum filme lá?

- Vai começar, daqui a pouco, um filme que considero

sensacional.

- Qual?

- Se não me engano, Efeito borboleta.

- Acertou em cheio. Se for esse, não devemos perder

nenhuma cena.

Doutor Boris se serviu de um gole de vinho e voltou à carga.

- Todos aqui estão por fora. O que vai passar na tv, dentro

de quinze minutos, é Vagina Indecente com Robert Redvaginfor e

Demeu Vagimoore.

- Que tal darmos uma olhada no canal de esportes?

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

102

Doutor Boris não estava nem um pouco bêbado como a

princípio dera a entender ao seleto grupo de cirurgiões, reunidos

nos jardins da sua acolhedora residência. Ao contrário, ele havia,

realmente, entrado num tormento indimensional e, por conta dele,

pirado mesmo, talvez, quem sabe, pelo excesso de trabalho e anos

de dedicação à gloriosa arte de praticar, com zelo e presteza, a

profissão que escolhera. Na frente do sisudo psiquiatra não foi

diferente a conduta de comportamento.

- E aí, Boris, tudo na santa paz?

- Tudo.

- Quer me contar o que está acontecendo? Parece um

pouco exausto e abatido...

- Estranho! Você me lembra aquele sujeito da “Volta à

vagina em 80 dias”... Ou seria o de “Uma vagina de mestre”?

Ah, lembrei. O guarda que foi morto dentro da cela naquele filme

famoso o...

-...Dragão vermelho?

- Não, Silêncio das vaginas.

O psiquiatra opinou, sem maiores circunlóquios, pelo imediato

internamento de Doutor Boris.

A outra perna do saci

103

- EU ME CONSIDERAVA FEIO, CARA, MUITO FEIO,

disse Leon Ildebrando à Monsueto - um negrão de quase um metro

e noventa, seu amigo, desde os tempos de infância - até o dia em

que, Mãe Santíssima, não quero nem lembrar! Chega a me dar

arrepios...

- Continue, disse Monsueto, enquanto ajudava a sorver a

gelada que comprara para recepcionar o companheiro que viera

visitá-lo.

- A mulher chegou lá em casa, conversamos uma meia

hora, na sala, sobre os assuntos mais triviais, tomamos umas

cervejas, comemos uns tira-gostos e depois começou a pintar um

clima. Fomos para o quarto.

- Então, valeu a pena?

Radical

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

104

- Não tenho nada a reclamar. Correu tudo às mil maravilhas.

Porém, na hora em que ela se dirigiu ao banheiro, para lavar as

partes pudentes, e voltou sem roupa, enrolada numa toalha...

- Espere aí. Deixa ver se entendi direito. Vocês transaram

vestidos?

- Mais ou menos.

- Como, mais ou menos?

- Na verdade, eu fiquei logo peladão. Estava em meu

território e, em nosso território, ou bem ou mal, somos o rei, o

mandachuva. Quanto a ela, logo que se deitou a meu lado toda

fogosa e doida para soltar a franga, pedi que arriasse a calcinha...

- Arriasse?

- É. Solicitei gentilmente que só tirasse a calcinha. Que

ficasse de saia, blusa e sutiã.

- E ela?

- Achou estranho transar de roupa e tudo, só tirando a

peça íntima.

- Chegaram aos finalmentes?

- Sem sombra de dúvidas. Ela, na cama, é divina,

maravilhosa. Faz gato e sapato com uma pica ereta e dura. Se

não tivesse acontecido comigo, eu mesmo não acreditaria. A

poderosa tem o dom de colocar o indivíduo para ir e voltar ao céu

umas trezentas vezes. Confesso que fiquei de quatro, queixo caído.

- Conta a história da calcinha. Estou intrigado com essa

parte. Ela tirou e vocês mandaram brasa?

A outra perna do saci

105

- Sim, nos engalfinhamos até que ela deu uns gritos de fera

enjaulada.

- Seriam de prazer?

- Acho que sim. Em seguida gemeu, botou as duas mãos

na cabeça e quase arrancou os cabelos, sem contar que se mexia

mais que cobra em areia quente.

- Como?

- Cobra em areia quente.

- E cobra se mexe em areia quente?

- Se mexe ou não, meu prezado Monsueto, não posso lhe

assegurar com precisão. Vovô Gob, já falecido - que Deus o tenha

em sua Glória - dizia que sim e comentava com os amigos dele,

quando o assunto girava em torno de mulheres.

- E depois da trepada?

- Como te falei, ela foi tomar banho. Ficou uma hora no

chuveiro quente. Pensei na minha conta de luz. Voltou enrolada

numa toalha.

- E esfregou de novo o brinquedo na sua cara?

- Pior que isso. Cismou de ficar pelada na minha frente.

Não se contentou só de mostrar aquele corpo feio e gordo, mas

passou a dançar uma dança esquisita. Você precisava estar lá para

presenciar tudo. Parecia uma avariada maluca.

Risos

- Diante disso, você caiu em cima dela de novo?

- Qual o quê! Tive vontade sair em desabalada carreira.

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

106

A potranca tinha, além do corpo feio, umas pernas horríveis, cheias

de veias verdes. A bunda, meu Deus, horrorosa, descomunal,

repleta de estrias. Sem falar na pança enorme, derramando banha

pura e, finalmente, o troço...

- Troço? Que troço?

- O sexo dela. A xoxota no meio das pernas. Meu caro

amigo, que desatino!

- O que havia com o sexo dela?

- Parecia um filho de cruz-credo desmamado.

- Filho de cruz-credo desmamado? Explique.

- Não tenho como. Pretendia até tirar uma segunda, mas

ao ver o material ali, às claras, bem diante de meu nariz...

- Caiu matando?

- Ao contrário. Apaguei. Brochei!

- E quanto a ela, com relação a você?

- Adorou, disso eu tenho plena certeza. O tempo todo

amou estar por baixo de mim. Suava em bicas. A vagabunda estava

no seco, no cio, acho que não via um... Acho que não via uma

vara há tempos.

- Acabou a festa com você de pau murcho?

- Para mim, sim, para ela, não. Tentou, ao seu modo, uma

segunda seção.

- O que foi que ela fez?

- Caiu de boca. Agarrou no ferro pelo talo e mamou como

nunca vi mulher nenhuma mamar. Saiu de beiço inchado, os

A outra perna do saci

107

maxilares doendo. E olha que em matéria de mulher não sou nenhum

marinheiro de primeira viagem.

- E como ele se comportou?

- Ele quem?

- O seu... O seu... Pinto, Leon Ildebrando?

- Me sacaneou bonito. Permaneceu de cabeça baixa o

tempo todo: flácido e mole. Acho que nem assoprando decolaria.

Não quis nada com o trabalho. Mas a filha da mãe mostrou que

tem talento, garra, determinação, força de vontade. Foi em frente.

Não desistiu...

- E o que ela fez? Conta, conta, conta de uma vez.

- Me fez um belo de um fio terra.

- Um o quê?

- Fio terra, cara, fio terra.

- E o que é fio terra?

- Não tenho como explicar. Espere um pouco. Se você

virar a bunda eu mostro.

- Virar o quê? A bunda?

- É. A bunda. Sua bunda. Vira ela pra mim, fica de quatro.

- E por que eu faria tal coisa?

- Não quer saber como é o fio terra?

- Querer é claro que eu quero, Leon, mas daí virar o rabo

pra você...

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

108

- Não somos amigos, Monsueto?

- Claro que sim, Leon!

- Então. Arria um pouco a calça, abaixa a cueca que lhe mostro

em um minuto.

– Vou trancar a porta. Pode, por azar, chegar alguém e até

explicar o porquê de estar de bunda virada para seu lado... E

nessa posição esquisita!

Monsueto se levanta e chaveia a porta. Ao voltar desafivela o

cinto e desce a calça. Em seguida, arria a cueca.

- Então, me mostra como é esse tal de fio terra.

- Feche os olhos.

- Se eu fechar os olhos, como verei você fazer a porcaria do

fio terra?

- Não vai ver, vai sentir. Agora vira a bunda e faça o que mandei.

- Pronto.

Monsueto, o negrão de quase um metro e noventa, soltou um

grito medonho, um brado de dor e agonia que ecoou por toda a

casa. Acabara de levar de Leon Ildebrando uma tremenda de uma

dedada bem no centro do olho do cu.

A outra perna do saci

109

TANGERINO CHUPADO DA SILVA TRABALHAVA

NUMA SEÇÃO onde mexia com uma série de arquivos mortos.

Por causa deles, passava o dia procurando velhos papéis de

pensionistas e aposentados que requeriam benefícios ao INSS.

O problema é que muitas dessas criaturas já haviam passado desta

para melhor, mas alguém, em nome dos falecidos “defuntos”,

pretendia uma revisão disso, ou daquilo, enfim, havia uma máfia lá

fora mamando às custas dos “de cujos” e, claro, dos parentes

que, desconhecendo a verdadeira pretensão dos cabeças da

gangue, entregavam documentos sem pensar duas vezes nas

consequências de tal ato.

A função de Tangerino: desarquivar esses processos e

encaminhar ao chefe da seção que, por sua vez, mandava tudo

para o pessoal da perícia. Num desses arquivos, Tangerino

encontrou uma lâmpada tipo a do Aladim. Satisfeito com o achado,

pensou num jeito de levar a raridade embora. Talvez a coisa fosse

mágica. Como todo ser normal, acreditava piamente em sonhos, e

por acreditar neles, quem sabe...

Lâmpada milagrosa

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

110

Na hora do almoço saiu mais cedo e disse ao encarregado que

iria atrás de um par de sapatos novos, tendo em vista que os seus

estavam, a muito, furados. E realmente isso era verdade. Assim,

comprou um modelito vagabundo na primeira loja que avistou.

Jogou o velho no lixo e voltou contente para a repartição com a

caixa vazia debaixo do braço. Se alguém perguntasse sobre o

embrulho diria que ali dentro estava o pisante antigo, que levaria

de volta para usar nos finais de semana. A ideia era economizar o

novo. Continuar surrando o velho. No fundo, a função da caixa

era outra: meter dentro dela a lâmpada misteriosa. Assim fez.

Orgulhoso da sua vivacidade se gabou do plano que arquitetara.

Ninguém desconfiara de nada e ele saiu da sala, passou pela

diretoria, pegou o elevador e para não levantar suspeitas, antes de

ganhar a rua, tomou um cafezinho requentado com o porteiro e

fumou um cigarrinho com o vigia.

O trajeto até sua casa demorou uma eternidade enervante.

Nunca o trem empacara tanto, da estação Luz até Prefeito

Saladino, onde morava com a mulher, um casal de filhos e uma

sogra rabugenta. No aconchego do lar, beijou a esposa na cadeira

de rodas e o casal de filhos que brincava com Ritinha, a empregada.

Só então se predispôs a esconder o pacote num lugar seguro.

Pensou em um que seria inquestionável. Havia entre o guardaroupas

e a parede um desvão. Ali Tangerino depositou a caixa.

Para despistar a turba de curiosos, pegou uma cadeira quebrada e

entulhou com umas roupas que estavam sobre a cama. Essa atitude

ajudaria a afastar as crianças.

Em seguida, se livrou dos sapatos e da camisa. Pegou uma

toalha limpa no armário, levou uma bronca da sogra chata, que

apareceu de repente reclamando das coisas deixadas no meio do

caminho, da camisa suada sobre a cama e da toalha limpa, que ela

havia acabado de recolher do varal, para guardar.

- Por que não usa mais uns dias a que está lá no banheiro?

A outra perna do saci

111

Fazendo ouvidos de mercador Tangerino fingiu não ter escutado

uma palavra. Assobiando “Quero que vá tudo para o inferno”, de

Roberto Carlos, encostou a porta do banheiro (nunca trancava a

porta, tinha essa mania), ligou o chuveiro e mandou a sogra para a

casa do Carvalho. Do Carvalho mesmo, melhor não confundir

com aquilo que alguns homens costumam não carregar no meio

das pernas.

O Carvalho, sujeito bom, pacato e humilde. Da mesma idade

da sogra. Vivia paquerando a jararaca. Por azar de Tangerino, a

maldita não dava chance para o infeliz levá-la, de vez, para dividir

as escovas de dente com ele. O elemento nutria sentimentos nobres

com relação à setentona, todavia, a megera não abaixava a guarda.

O fato é que seu Carvalho, duro, e Tangerino, mole, debaixo do

chuveiro, quando via água quente jorrando sobre a cabeça,

esquecia da vida. Levava horas para voltar a si. Ao menos para

pensar na conta de luz e no rombo que sofreria seu bolso, no final

do mês, quando viesse o talão. Nesse interregno, a velha resolveu

ir ao quarto do genro e preparar uma muda de roupas. Estava

quase na hora do banho da filha, que por infelicidade, num desastre

de automóvel fraturara as duas pernas e estava toda engessada,

sem poder se locomover para as necessidades mais prementes.

Lá chegando, estranhou, de cara, deparar com uma cadeira

encostada no canto com algumas das peças de roupas que ela, há

pouco, havia passado. Faltava guardar nas gavetas

correspondentes. Quem as colocara ali? As crianças? Com certeza!

Sem pensar duas vezes, passou a mão na cadeira. Ao passar a

mão na cadeira, uma blusa foi ao chão. No que apanha, a velha

enxerida avista a caixa de sapatos acondicionada detrás do roupeiro.

- Danadinho. Isso é arte do Marcelinho mais a Francisquinha.

Pegou a caixa de qualquer jeito. A caixa se abriu, sem querer,

e ao abrir, caiu no chão a estranha lâmpada fazendo um barulho

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

112

seco contra o assoalho. Os olhos da velha se alvoroçaram numa

cobiça só. Ao ver a joia, seus pensamentos trouxeram à baila

tempos passados.

- Meu Deus parece àquela lâmpada do... Como é mesmo

o nome do personagem? Ah! Lembrei. Aladim!... Mas espere,

pior que é!

Correu à porta, espiou o corredor. A filha, coitada, estava com

os olhos pregados na novela. As crianças brincavam.

- Será que se eu fizer alguns pedidos e esfregar, esse treco

funciona?

Trancou-se, por dentro, silenciosamente. Ansiosa e meio

trêmula, não esperou mais. Não custava tentar. Experimentou.

Na primeira esfregada, uma grande luz branca começou a surgir

do bico da lâmpada, enquanto uma imensa forma humana

masculina ia se projetando no espaço. Num piscar de olhos pintou

na frente dela um gênio com cara de Brad Pitt, esbanjando

músculos bem trabalhados. Até a voz lembrava o astro, embora a

tradução do inglês para o português fosse de péssima qualidade.

- Diga, minha ama e senhora. Estou aqui para lhe servir.

Peça e a atenderei. Devo informá-la que tem direito a três pedidos.

- Só três?

- Que realizarei imediatamente. Então, madame, o que vai

ser?

A velha estava um pouco atordoada e desconcertada com tudo

o que acontecia, mas não se fez de rogada. Pensou por um instante

e decidiu.

- Quero minha filha fora daquela cadeira de rodas e

andando normalmente.

A outra perna do saci

113

- Seu pedido é uma ordem.

Puf!

No minuto seguinte, a sogra de Tangerino Chupado ouviu gritos

vindos da sala e fortes batidas na porta. Complemente atordoada,

correu abrir. Deparou com a filha andando. Marcelinho,

Francisquinha e Ritinha, logo atrás, na maior algazarra.

- Vó, a mãe voltou a andar. Cadê o pai?

Enquanto Francisquinha dava meia volta com Ritinha e ia em

busca do pai para lhe contar a novidade, a velha agarrou a mão da

filha e do neto. Praticamente arrastou os dois para dentro do quarto,

voltando a passar a chave na porta.

- Mãe, quem é esse cara e de onde ele saiu? Não me diga

que a senhora...

- Calma, filha, não é nada do que está pensando. Deixa

que depois explico com mais calma. Seu gênio, por favor, vamos

em frente: quero ter muito dinheiro para poder viajar e conhecer o

mundo com minha filha aqui e meus lindos netos.

E o gênio, solícito.

- Como disse há pouco, madame, seu pedido é uma

ordem.

Puf!

Uma avalanche de dinheiro caiu de um buraco que se abriu no

teto. Em menos de um minuto, metade da peça estava abarrotada

de notas de cem.

- Meu Deus, Meu Deus, não acredito. Minha filha, estamos

ricas.

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

114

O gênio interrompeu a velhota e observou.

- Falta o terceiro, minha ama e senhora. Por favor?

A velha parou de rir e ficou séria. A filha abraçou Marcelinho e

encarou o gênio. A velha olhou para a filha, depois para Marcelinho

e se voltou para o gênio.

- Chega o ouvido aqui, meu bom amigo. Vou mandar o

terceiro pedido.

O encantado, com suas maneiras estudadas e extremamente

corteses, chegou o ouvido perto da velha. Realmente um homem

bonito, sem falar no porte elegante que lhe emprestava ares de um

daqueles antigos reis que viviam em castelos medievais à beira de

lagos eternos. Uma pena que vivesse recluso e literalmente

“enlampado”.

Tradução de enlampado: mesma coisa que engarrafado.

- Meu terceiro pedido é o seguinte: quero...

Completou baixinho, sussurrando o restante da frase de maneira

que só o iluminado a escutasse.

- Perfeitamente, madame. Seu pedido é uma ordem.

Puf!

Vem lá de dentro, correndo, a Francisquinha com Ritinha a

tiracolo, segurando, com as duas mãos, um porquinho todo

molhado, pingando água pelo chão.

Praticamente esmurram a porta. Quando a mesma é aberta...

- Mainhê, olhe só o que achei no banheiro, debaixo do

chuveiro!

A outra perna do saci

115

AS DUAS FAXINEIRAS SE ENCONTRAM NO corredor

de um dos andares do edifício onde trabalham.

Marli

- Biloca, estou pasma! Hoje cedo fiquei sabendo uma da

Lurdinha que me deixou de queixo caído.

Biloca

- A pirua do 301?

Marli

- É.

Biloca

- O que te contaram, Marli?

Marli

- Que ela está saindo com o cara do 403.

Biloca

- O Etevaldo?

Fofoqueiras

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

116

Marli

- Esse mesmo. Parrudão, olhos verdes, cabelos

compridos, presos por um elástico de amarrar dinheiro...

Biloca

- Tem uma Mitsubishi prata?

Marli

- Tem!

Biloca

- O próprio.

Marli

- Pensei que tivesse caso só com o seu... Deixa pra lá...

As aparências enganam.

Biloca

- Começou fala. Odeio quando as pessoas fazem esse

tipo de sacanagem.

Marli

- Sabe o que é? Depois a bomba estoura nas minhas mãos.

Biloca

- Fala, droga.

Marli

- Esquece.

Biloca

- Ora, vamos. Não confia em mim?

Marli

- Não se trata de confiar, ou não. Acho melhor ficar de

boca fechada.

Biloca

- Ta bom. Não te conto o que fiquei sabendo da Ritinha

do 805.

A outra perna do saci

117

Marli

- Você vai falar. Ah, se vai. Que diabo de amiga fui arranjar

que não compartilha os segredos?

Biloca

- Chumbos trocados não doem. Você não quer me dar a

ficha do Etevaldo do 403!

Marli

- Não é que não queira. Já tenho fama de leva e traz por

aqui. Se alguma coisa vem à tona e descobrem que fui eu quem

bateu com a língua nos dentes, acabo parando no olho da rua.

Tenho duas boquinhas para dar de comer, o marido e a sogra

chata.

Biloca

- Não seja por isso. Eu também tenho um casal de filhos,

o marido e, graças a Deus, a sogra chata mora sozinha e bem

longe lá de casa.

Marli

- Vamos fazer um trato?

Biloca-

Que trato?

Marli

- Vomite os podres da Ritinha do 805 que eu canto a pedra

do Etevaldo. Tenho certeza de que você vai cair de quatro.

Biloca

- Fechado.

Marli

- Vai guardar segredo?

Biloca

- Sou um túmulo

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

118

Marli

- Jure!

Biloca

- Pela minha mãe.

Marli

- Qual delas?

Biloca

- Como qual delas? Só tenho uma. A outra é minha

madrasta, quero dizer, a companheira do meu pai.

Marli

- Então?

Biloca

- Tá. Juro pela minha mãe.

Marli

- Quer ver ela mortinha da silva?

Biloca

- Credo!

Marli

- Sim ou não?

Biloca

- Que seja. E aí?

Marli

- Esse Etevaldo da Mitsubishi está comendo a Lurdinha

do 301 e pulando a cerca com...

Biloca

- Pera ai! Que cerca?

Marli

- Você é mesmo uma burra de pai e mãe. Parece saber

A outra perna do saci

119

tudo, mas olha só. Pular a cerca significa que ele está tendo um

caso... Um galho entendeu?

Biloca

- Um caso? Um galho? Com quem? Pelo amor de Deus!

Não é só com a Lurdinha?

Marli

- Não. E Você não faz ideia de quem seja o galho dele?

Biloca

- Gente aqui do prédio?

Marli

- Não exatamente. De fora.

Biloca

- Vamos por eliminação: a gata que vem sempre no 901?

Marli

- Tá frio.

Biloca

- A bunduda que faz as unhas do velhote do 1007?

Marli

- Gelou mais ainda. Última chance.

Biloca

- Me liguei. Caiu a ficha. É a Marieta. Só pode ser a

Marieta. A sem-vergonha quando morava aqui abriu as pernas

pra todos os machos do pedaço. E mesmo depois de ter se

mudado, continua aprontando. Dia desses esteve aqui e deu para

o vigia da noite, e depois para o paralítico do 202.

Marli

- Seu Piteco?

Biloca

- Em carne e osso. Ela encarou a muleta dele, numa boa.

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

120

Bem, voltando ao Etevaldo, só falta agora o saradão papar a

ceguinha do 107 e... E você.

Marli

- Me erra, Biloca. Acha que sou assim tão fácil como

apanhar mosca com mel? Pensa que vou para a cama com qualquer

borra-botas? Ainda mais em se tratando do galinha do Etevaldo.

E agora, pior, depois do que eu soube. Ainda que assim não fosse.

Tenho meu marido, sou bem casada, adoro meus filhos e até a

sogra chata que é um porre!

Biloca

- Pode até ser, mas soube que andaram te dando uns

presentinhos, apesar de ser bem casada, ter filhos e pá e bola,

caixinha de fósforos. O que me diz dos perfumes e das calcinhas

exóticas?

Marli

- Tudo mentira. Inveja pura. Olho grande dos brabos.

Quem falou deve estar morrendo de raiva e doido para estar em

meu lugar. Afinal, embora não passe de uma serviçal, não sou de

jogar fora. Você mesma já presenciou quando estamos vindo ou

indo para o trabalho - que estou arrumada - fica “assim” de carinhas

assoviando e jogando piadinhas. É ou não é?

Biloca

- Não mude de assunto. Quem é a nova Felizarda?

Marli

- Que nova felizarda?

Biloca

- Ora, de quem estamos falando? Do Etevaldo do 403,

que tem um caso com a Lurdinha do 301. Agora você me deixou

curiosa, dizendo que, além da Lurdinha, o Etevaldo está

bombeando mais uma. Quem é, afinal, a dita cuja?

Marli

- Preparada?

A outra perna do saci

121

Biloca

- Sim

Marli

- Acho melhor sentar.

Biloca

- Estou bem em pé.

Marli

- Senta.

Biloca

- O rodo e o balde de água me seguram. Pelo amor de

Deus, fala de uma vez. Que diabo!

Marli

- Não é felizarda. É felizardo. O Etevaldo joga nos dois

times, amiga. É gilete. Bomba e é bombado.

Biloca

- O quê?

Marli

- Isso mesmo que ouviu. Ele dá o caneco. Gosta de

empurrar o quibe. Come e... Não é preciso falar...

Biloca

- Aquele pedaço de mau caminho, de olhos verdes e

cabelos compridos? Não, não pode ser... Deve ser intriga da galera.

Tem muita colega nossa querendo reganhar pra ele.

Marli

- Todos no prédio estão comentando a nova conquista.

Eu, particularmente, acho uma pouca vergonha, uma indecência.

Me admiro a Lurdinha se submeter a sair com ele. Se pega uma

doença, babau. E pior é o cara que enraba ele. Casado, dois filhos,

esposa carinhosa, os cambaus.

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

122

Biloca

- Tá, deixa de frescura. Quem é o sujeito que manda brasa

nele?

Marli

- Trato é trato. Quero saber da Ritinha, do 805.

Biloca

- Ela está de flerte com Romeu, o porteiro da noite.

Pilharam os dois no maior amasso.

Marli

- Minha nossa. Quem diria. Romeu com aquela cara de

santo...

Biloca

- Deixa o Romeu pra lá. Já falei o que sabia. Agora quem

é o sujeito que come o cu... Que manda brasa no Etevaldo?

Marli

- É o seu...

Biloca

-...Seu Augusto, o síndico?

Marli

- Psiu! Fale baixo. Quer parar no olho da rua? Não é o

seu Augusto.

Biloca

- Então, quem é? Solta logo essa língua...

Marli

- Acho melhor você ir lá embaixo e pedir a Balduína um

copo de água com açúcar.

Biloca

- Deixa de ser nojenta. Não preciso dessas besteiras. Fale

de uma vez.

A outra perna do saci

123

Marli

- Tem certeza de que não vai passar mal?

Biloca

- Fala ou deixo de ser sua amiga. Por tudo quanto é mais

sagrado, não podemos ficar aqui o dia inteiro.

Marli

- Tá bom. Se você faz tanta questão de saber, lá vai a

bomba: o Etevaldo está transando com seu marido.

Biloca

- O quê? O que foi que disse? Repita que não ouvi direito...

Transando com quem? Repita, sua filha da...

O elevador, de repente, abre a porta e alguém desce. Ambas

se dispersam. Sai cada uma para um lado esfregando o chão.

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

124

125

O REPÓRTER PEGOU TONINHO BAIACU NESTE

INÍCIO DE SEMANA, bem no meio da praça, de surpresa.

Atrás do repórter, um cara com uma câmara ligada gravava cada

palavra que saía de sua boca, enquanto outro, com uma luz forte,

acesa acima da cabeça, suspensa por uma espécie de mastro,

tentava jogar o foco diretamente na direção do seu rosto. Em redor

dos quatro, uma pequena multidão de pessoas começou a formar

uma rodinha, até que o cordão humano se tornou coeso e atento,

não só às perguntas que eram formuladas, como também às

respostas do entrevistado. Não se ouvia a respiração de ninguém.

Na verdade, todos estavam ávidos para saber o que o jornalista

queria com Toninho Baiacu (até aquele momento um ilustre

desconhecido) e como ele se sairia daquela batelada de perguntas.

- Você me disse que se chama Antônio. E me disse também

que tem um apelido engraçado. Poderia dizer qual é esse apelido?

- Eu? Pois não: Toninho Baiacu.

Camisa de onze varas

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

126

- E por que Toninho Baiacu?

- Porque desde pequeno aprecio esse tipo de peixe. Baiacu

é um peixe. Não como outro, por melhor que seja. Daí o pessoal

lá de casa, meu pai, meus irmãos, minhas irmãs, me chamarem de

Baiacu. E pegou...

- Toninho, você vai participar, ao vivo, do programa do

Fernandinho Cuca Fresca, da Rede Vem que é Mole. Pode ser ?

- Claro.

- Olhando para esta câmera, quando eu falar três. Podemos

começar? Um, dois, três. Fernandinho, estou aqui com o Toninho,

conhecido na intimidade, como Toninho Baiacu. Por favor, diga

um olá para o Fernandinho.

- Olá, Fernandinho, tudo bem? É um prazer muito grande

participar do seu programa.

- Toninho, vou lhe fazer algumas perguntas. Aliás, as

mesmas que já fiz anteriormente para os dois caras da pesada que

estão concorrendo com você. O Marcos e o Cláudio. Preste

atenção. Não pode pensar muito, tem de falar o que vier na cabeça,

certo? Volto a repetir. O candidato que fizer o menor tempo e der

a resposta mais criativa ganhará um final de semana, com tudo

pago, para curtir, com a namorada, amiga, ou quem ele quiser

levar como acompanhante, para a suíte presidencial do Motel Fome

dos Prazeres, do nosso amigo Leo, para quem eu mando um forte

abraço e, o mais importante, leva, igualmente, de lambuja, um carro

GOL FLEX, zero bala, completo, oferecimento da Corcovado

Automóveis, do Jorginho Brucutu, que também está ligado no nosso

programa. Preparado?

- Eu? Positivo.

- Você é casado?

A outra perna do saci

127

- Eu? Não, sou solteiro.

- Bem, sendo solteiro, fica um pouco complicado. Mas,

tudo bem, vamos lá. Saberia dizer para o público aqui presente e

para todos os demais telespectadores qual é o maior e o melhor

truque feminino?

- Bem, embora seja solteiro, como já lhe falei, tenho, graças

a Deus, um punhado de mulheres aos meus pés. Você me perguntou

qual é o maior e o melhor truque feminino. Pois bem: o maior é

quando a mulher, na cama, nos leva ao delírio, ou a loucura. O

melhor é quando alcançamos, juntos, os finalmente e gritamos:

Mengo, Mengo...

- Vejo que o amigo é um flamenguista doente.

- Eu? Com certeza.

- Pois muito bem, quem você levaria para uma ilha deserta?

- Eu? Deixa ver... A Karina Mal Me Quer? Não, muito

nova! A Gorduxa? Acho que a Gorduxa não faz o meu tipo. Já sei,

a Margarida da quitanda..

- Sentiu o lance aí, ô Fernandinho? Nosso amigo aqui tem

bom gosto. Mandou bem.

- E por que a Margarida?

- Ela é gostosa demais. Tem um traseiro...

- Três coisas que você pediria, caso ela chegasse aqui,

agora.

- Eu? Três coisas? A Margarida?

- Claro.

- Me leva ao céu, beleza. Joga minha cara no chão, e,

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

128

depois pisa com força. Pra me deixar de queixo caído, gamado

em você, espezinha meu coração, amassa até sangrar.

- Companheira ideal?

- Pra mim? Bem, eu... A Monique. Isso mesmo, Monique,

uma vizinha do arco da velha, que mora de frente para minha casa.

Ai! Me arrepio todo, só de pensar nela...

- Toninho, como você se define?

- Eu? Bem: gostoso, machudo, bom de cama...

- Consegue marcar quantos gols numa só noite?

- Eu? Bem. Tenho que responder a isso?

- Claro, você está ao vivo, para todo o Brasil.

- Bem, duas, três, sei lá. Depende do pedaço de mau

caminho que estiver comigo. Se fosse a minha vizinha Monique,

por exemplo, acredito que conseguiria alcançar o clímax umas cinco

vezes, sem tirar de dentro e sem deixar ela ir ao banheiro fazer

xixi.

- Garoto esperto, Fernandinho. Esse aqui bota nós dois

no bolso. Só gosta do que é bom. Agora, a última, concorrendo

com o menor tempo e a resposta mais criativa. Se for você, e vou

torcer para que seja, um final de semana com tudo pago, na suíte

presidencial do Motel Fome dos Prazeres, do nosso grande amigo

Leo; e um carro GOL FLEX, zero bala, completinho, gentileza da

Corcovado Automóveis, do Jorginho Brucutu. Boa sorte! Toninho,

se você chegasse em sua casa agora e recebesse o recado de que

essa sua vizinha, como é mesmo o nome dela?

- Monique.

- Se você recebesse a notícia de que a Monique pediu

A outra perna do saci

129

para que você fosse até a residência dela para prestar um pequeno

favor e, quando você chegasse lá, ela viesse abrir a porta só de

calcinha e sutiã e, para apimentar o lance, estivesse segurando, em

uma das mãos, uma lâmpada, e, na outra, uma escada para você

subir e fazer a troca da nova pela queimada, o que é que faria,

exatamente? Um segundo. Tempo.

- Quem? Eu? Minha nossa, o que eu faria? Engolia a

lâmpada e me acendia, depois, todinho, dentro dela, como um

curto circuito, trepando, ligeiro pela escada.

- Bravo! Resposta inteligente e criativa. Fica aqui ao meu

lado. Vamos a mais um candidato. Temos o Marcos, o Cláudio e

o Toninho. Deixa eu ver quem vai ser. Ok, você aí, atrás da moça

de amarelo, o baixinho de blusa azul. É, você mesmo. Vem prá cá,

correndo. Fernandinho diretamente dos nossos estúdios, a

produção com o cronômetro nas mãos, marcando o melhor tempo.

Quem será o vencedor? Toninho Baiacu, Marcos, Cláudio ou...

Muito boa tarde, como é o seu nome?

O domingo, finalmente, chegou. Nesse dia, por coincidência,

acontecia o aniversário da sogra de Toninho. Estava, pois, por

conta desse evento, reunida a família, em peso, bem como parentes

e amigos. No quintal imenso rolava um churrasco no capricho,

refrigerante para a garotada, a dar com o pau, e para os marmanjos,

muita cerveja gelada.

Por volta de oito da noite, a galera resolveu sentar na sala e

ficar de olho grudado na televisão. Para aumentar o impasse e

criar expectativa e audiência, o canal de tevê, que exibia o programa

do Fernandinho Cuca Fresca, não revelava o nome do vencedor.

Mandava para o ar, especificamente, o bairro que havia sido

contemplado, mais nada. Santo Antão, por sua vez, quando

confirmou a novidade, abriu as veias fervilhantes da curiosidade.

Sem exceção, todos queriam saber quem era o felizardo, para,

evidentemente, dar-lhe os cumprimentos e os parabéns.

De repente, eis quem se transforma em celebridade: Toninho

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

130

Baiacu . Os filhos quando viram o pai, se arrebentaram em aplausos,

promoveram uma algazarra sem tamanho. Um dos garotos

grudou no seu pescoço, o outro pulou em seu colo. O menorzinho,

mais afoito, disparou à cata da empregada da casa, que conversava,

nada mais, nada menos, com a Monique, a mocetona da frente,

autora dos caprichos e das comedias louçãs de Baiacu.

Vieram as duas, em desabalada carreira, juntamente com outros

vizinhos e se barafustaram na sala apertada que, aquelas alturas,

não cabia mais ninguém. A esposa, animada, berrava saltitante:

- Silêncio, pelo amor de Deus, vamos assistir!

A sogra, surda de um ouvido, deu um jeito de se acomodar

perto do aparelho:

- Meu genro, você daria para ser artista. Fica um gato

diante de uma câmera e um microfone. Minha filha é uma sortuda

por ter casado com você.

O sogro foi nas águas da mulher e completou:

- Lembra um pouco meus tempos de rapaz, esse sanhudo.

Toninho Baiacu, todavia, parecia mordido por um bicho

carpinteiro. Sua impaciência andava à mil. Não demoraria muito,

teria um piripaque, um faniquito ou algo parecido. A poder de

muito custo e sacrifício conseguiu pegar o controle e mudar de

canal.

- Sogrão, ei, sogrão, tem um jogaço na Band. Seu time

acaba de entrar em campo.

- Ficou maluco? Volta pra Rede Vem Que É Mole. Não

perco você no Fernandinho Cuca Fresca por nada neste mundo.

A esposa deu um chega pra lá no companheiro.

- Senta ai e abaixa o facho, seu filho de uma égua. Deixa

de conversar pabulagem..

A outra perna do saci

131

Toninho Baiacu entrou em pânico. O desespero se fazia visível,

e não havia mais coesão em seus atos. O infeliz suava em bicas.

Sem falar na tremedeira pelo corpo inteiro. O programa do

Fernandinho começava e, aquela altura, a comunidade, em peso,

sabia que ele havia se sagrado vencedor. Santo Antão virara um

palco de festa, com pula-pula para a criançada, carrinhos de

pipoca, algodão doce, e soltura de fogos na praça da matriz. Tinha

até um grupo de pagode na porta da casa. E a galaria em peso,

numa bulha encarnada, balançando o esqueleto, como se fosse

carnaval fora de época.

- Pessoal vamos ver outra coisa. Essa porcaria do

Fernandinho só exibe o que não presta.

Quase apanhou. Faltou pouco. A massa compacta queria

assistir, na íntegra, a entrevista na praça e, saber das respostas

que ele dera às indagações do entrevistador. A esposa, coitada,

não cabia em si de contentamento, naturalmente levada pela alegria

intensa de estar vendo o marido, pela primeira vez, ao vivo, num

programa de televisão, em rede nacional.

O desditoso e desastrado, diante da sua impotência, da sua

estupidez e insignificância, olhou desalentadamente ao redor.

Primeiro, encarou a sogra e o sogro, em segundo, se deteve nos

filhos, e na companheira de tantos e tantos anos. Por fim, fixou os

olhos na multidão que viera até sua residência, passando pelos

mais chegados, e, no meio deles, a cunhada, e os sobrinhos.

Terminou sua rápida peregrinação ao topar com Monique, o rosto

sem cor, sem a vivacidade de sempre, entristecido e estremunhado,

na angustia da vergonha, como se transformasse cada escárnio

que receberia a “depois”, numa bofetada profundamente sentida.

Com certeza, naquela noite, tudo que construíra anos a fio, rolaria

água abaixo: sua vida, seu lar, seus filhos, seus sonhos; a amizade

dos amigos. Era o fim, o fim de tudo, sem a menor sombra de

dúvidas. Naquela noite, tudo deitaria por terra.

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

132

Dito e feito. Quando a entrevista acabou, suas tralhas estavam

todas - não empilhadas ordenadamente na calçada, à saída do

portão – ao contrário, dava a impressão de terem sido jogadas,

atiradas, de qualquer jeito, pela janela, e, de fato foram

arremessadas com a fúria e o menosprezo de seus familiares,

notadamente a indignação da esposa, a maior ultrajada em sua

honra e moral.

Foi chegando gente – sempre nessas horas aparecem os

retardatários - juntando aqui e ali, por sobre muros e carros, rostos

de feições sombrias e assustadas, uns para apertar as mãos de

Toninho, a maioria, porém, para chafurdar nas bisbilhotices do

inusitado das desgraças alheias.

Toninho Baiacu, rabo entre as pernas, humilhado, acabado e

vencido, mal teve tempo de pegar os documentos pessoais.

Praticamente fora expulso de casa, a poder de toques de caixa.

No bar onde se reunia com a rapaziada dos copos de cerveja,

implorou choroso, por uma pequena migalha a fim de inteirar a

passagem e tomar o ônibus até o terminal.

Para completar seu quadro desolador, quando pegava a

condução, chegava, no bairro, sob forte alarido, a caravana, com

a produção do programa do Fernandinho Cuca Fresca, seguida

por uma baita carreta, em cima da qual, uma dezena de meninas

sumariamente vestidas, dançava freneticamente, ao som de uma

música esquisita, em volta de um elegante GOL FLEX zero bala

completo. Na verdade, o automóvel que havia ganho pela

vivacidade do menor tempo e a originalidade da resposta mais

criativa.

A outra perna do saci

133

“Ah! Essas mulheres... Sempre tive uma, amando quatro

de cada vez...” (Fernandinho Saraiva).

A PRIMEIRA, DE UMA SÉRIE DE MUITAS QUE TIVE

O PRAZER DE colecionar, ao longo da vida, foi uma

empregadinha doméstica que veio trabalhar em casa, logo que

mudamos para o apartamento novo. Elizabete. Loirinha, de olhos

verdes, dezenove anos. Uma gracinha de menina, um amor de

pessoa. Personalidade acima de qualquer suspeita. Monumental.

Quando a vi pela primeira vez, meus olhos se encheram de

minúsculos coraçõezinhos apaixonados. O tal cupido que o Lilico,

meu irmão de vinte e sete, vivia falando toda hora, finalmente,

havia atirado seu dardo envenenado e acertado em cheio o meu

coração de garoto que começava a descobrir as coisas boas do

mundo. Logo que veio morar com a gente, Elizabete não trouxe

muitas coisas. Sua bagagem, se bem recordo, não passava de

uma bolsa de nylon, bastante surrada e de um verde desbotado,

meia dúzia de sacolas de supermercados com sapatos, discos e

uma outra, com uma caixa cheia de produtos de beleza.

Mamãe a ajudou a se instalar. Deu-lhe um cobertor, lençóis,

fronhas, uma colcha e um travesseiro. Não havia cama. Nos

primeiros dias, Elizabete dormiu no chão, de frente para a porta,

numa espécie de estrado improvisado por papai. Os meses foram

passando...

Iniciação

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

134

Durante o dia, Elizabete cuidava de todos os afazeres

domésticos oriundos de uma casa de família: lavava, passava,

vigiava um irmão recém-nascido (raspa de tacho, como apregoava

meu velho), fazia feira aos domingos e, ainda, ajudava mamãe a

servir o café, o almoço, o lanche da tarde e, à noite, o jantar.

Depois de cumpridas todas essas tarefas, ela se retirava para seu

quarto e ficava por horas a fio ouvindo discos numa velha

radiovitrola.

Um ano após sua chegada, as coisas para ela melhoraram

consideravelmente. Havia, agora, num canto, uma penteadeira, com

um espelho oval, um banquinho e uma cômoda, onde colocava,

bem arrumadinho, um monte de LPs de Roberto Carlos, Jerry

Adriani, Wanderley Cardoso, Gilliard, Odair José, Diana, Jessé,

Cely Campello, Guilherme Arantes, Adilson Ramos, Carlos Alberto

e tantos mais. Naquele tempo, não existiam os CDs. Os bolachões,

ou discos de vinil, com suas capa duras cobertas por um plástico

faziam a festa e invadiam as lojas de discos. Elizabete seguia uma

espécie de ritual: entrava no quarto, encostava a porta, não passava

a chave, apagava a luz e acendia um pequeno abajur em forma de

elefante. Despia-se, esparramando as roupas a caminho do

banheiro. Tomava uma ducha longa e demorada, de meia hora,

talvez um pouco mais. Vinha, então, a melhor parte. Saía do

chuveiro só de calcinha e estirava o corpo na cama de solteiro que

meu irmão doara para ela, logo depois do seu casamento com a

Liliane.

Meu posto de observação ficava num lugar bastante engraçado.

Para as sessões de espionagem, lembro que precisava trepar numa

espécie de baú repleto de livros e cadernos atirados às traças.

Essa peça jazia, jogada à sorte, perto da máquina de lavar roupas

e do tanque, na varandinha, ao lado da porta da cozinha. Era dali

que espreitava, às escondidas, a Elizabete, depois do seu retiro

para a intimidade. Uma báscula que nunca fechava, servia mais

como passagem de ar para resfriar o ambiente. Uma espécie

A outra perna do saci

135

de cortina caía, por sobre os vidros, lisos, e, devido a isso, se

tornava difícil, ou quase impossível, alguém, do outro lado, dar

comigo espionando. Ademais, tomava um cuidado medonho para

que ninguém me pegasse no flagra, principalmente, o Nelsinho,

outro irmão, ainda solteiro, que costumava trazer a namorada para

dar “uns amasso” numa espécie de dispensa, onde guardavam,

além das ferramentas de papai, mantimentos em estoque, latas de

óleo, garrafas de cerveja, produtos de limpeza, botijões de gás e

outras quinquilharias.

O fato é que, a cada nova manhã, Elizabete ficava mais radiante.

Simplesmente abafava. O salário que ganhava aplicava em coisas

de uso pessoal. Tinha um excelente bom gosto, a danada. Gostava

de usar roupas curtas e justinhas à pele (estava em moda a minissaia)

e, geralmente, as garotas imitavam as cantoras da moda. Por assim,

quando colocava um daqueles minúsculos “xortinhos”, realçando

o bumbum, ou uma minissaia, deixando à mostra a calcinha, eu

“viajava na maionese”, “pirava na batatinha”. À noite, os ares

ficavam mais densos. Elizabete saía do banho, enfiada numa

camisola branca, muito curta e transparente, que mostrava, em

todo o esplendor, seu corpo de mulher. As formas perfeitas, a

barriguinha, o umbiguinho, com destaque para o biquíni minúsculo

com enfeites de gatinhos, cobrindo carinhosamente o triângulo do

amor. Para mim, tudo aquilo dava a impressão de estar

espremidinho, pedindo socorro. Nessas horas, voava em

pensamentos distantes, ao tempo que roia, desesperadamente, as

unhas.

Um dia, Elizabete pulou fora do banho sem nada cobrindo a

nudez, sem a calcinha, sem a toalha, sem qualquer recato ao pudor,

a água quente escorrendo, macia por sobre seus cabelos formando

uma poça nos azulejos brancos do chão. Caminhou até o aparelho

de som e colocou cuidadosamente um disco no prato. Ajustou o

volume de maneira que somente seus ouvidos pudessem curtir a

melodia. Era o Odair José e as músicas desse artista faziam um

sucesso danado, na época, e ela, fã de carteirinha, sempre que

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

136

podia, botava alguma coisa dele para rodar. Tinha, inclusive, um

pôster tamanho gigante, pregado na parede, ao lado da janela,

que dava vista para o prédio contíguo:

“... As minhas coisas

De repente estão tristes

Compreenderam que não existe

Nada mais entre nós

Meu violão

Caiu de cima do armário

Suas cordas rebentaram

Dando adeus a minha voz...”

A graciosa parecia absorta. Sem ao menos se enxugar ou se

cobrir com a toalha, deitou de barriga para baixo, deixando à

mostra, para meu deslumbramento, um senhor par de pernas bem

torneadas, que terminavam numa montanha de ancas bem

proporcionadas, dessas de deixar qualquer homem maluco, com

visões sinistras do paraíso. Vendo aquilo o instinto falava alto. Aliás,

isso sempre acontecia. Bastava fixar os olhos em Elizabete, algo

anormal como um fogo interior transformava meu ser. Cuidadoso,

olhava para a porta da cozinha. Ninguém por ali. Corria os olhos

para o lado da dispensa. Nada, também. Então, relaxava, dava

asas à imaginação. Abaixava o calção até a altura dos joelhos e

colocava para fora o membro enrijecido pelo tesão que sentia por

aquela deusa maravilhosa, que me deixava completamente louco

e fora de qualquer controle. Do meu posto, acomodado na ponta

dos pés e por sobre o baú de livros, chegava até mim uma visão

privilegiada da cama e, em cima dela, o pecado em todas as suas

formas, exposto sobre o lençol de algodão e, ao fundo, parte da

entrada do banheiro onde ela refrescava o cansaço estafante do

dia a dia.

Enlouquecido, sonhava acordado. Imaginava mil coisas como,

por exemplo, estar deitado ao lado dela, entrelaçado em seus

A outra perna do saci

137

braços, o sangue fervendo nas veias, o suor escorrendo, os sentidos

todos em alerta. O meu deslumbramento, entretanto, não ia além

de um momento de pura felicidade, um momento fugaz, muito

rápido. Elizabete desconhecia os meus anseios secretos e tampouco

imaginava que a comia, que a devorava, literalmente, da cabeça

aos pés, centímetro por centímetro, sorrateiro, como um bicho

acuado, enquanto ela, na tranquilidade de seu retiro pessoal, sabese

lá, pensava em algum namoradinho distante. Nesse chove não

molha - enquanto descontraída ela cuidava de si, ora pintando as

unhas, ora escovando os cabelos, que lhe caíam até a cintura - eu

friccionava o pau, com força, movido por uma ânsia descontrolada.

A música rolava. De cima do baú, só restava a satisfação de me

contentar com um querer enorme, mas frustrado.

Nervoso, com os neurônios em alerta geral, agarrava o nervo

duro e irrequieto no meio das pernas. Chegava à exaustão, devido

à cadência empregada com as mãos, para atingir o clímax,

chacoalhando, sem parar o órgão genital. Essa brincadeira de mau

gosto (de mau gosto porque somente eu participava), perdurou

por muitos e muitos meses, até que numa noite, também já prestes

a gozar, eis que, de repente, o Nelsinho, como surgido dos quintos

do inferno, assomou no umbral da porta da dispensa, com a droga

da namorada a tiracolo. Os dois me pegaram de calção arriado,

na hora agá, no instante derradeiro, justamente quando meu corpo,

voltado para os prazeres da carne, uma vez mais, liberava uma

porrada de espermatozóides em homenagem àquela deusa

encantada, que recostada sobre a cama e ao som do Odair José,

seguia indiferente aos meus problemas de menino adolescente

batendo às portas dos dezesseis.

- Bonito, seu moço. Descascando banana em plena oito

horas da noite! E ainda por cima importunando a Bete. Deixa o

pai saber disso.

Não contente, completou a frase:

- Mãe, ô mãe, venha até aqui na cozinha ver um negócio!

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

138

Exatamente o que temia acabou acontecendo. Deu uma encrenca

dos diabos. Para mim, evidentemente. Mamãe acorreu, com uma

vizinha de apartamento, chata, que não saía lá de casa, o cenho

franzido, os olhos dilacerados pela fúria. Enquanto meu irmão

me puxava o braço, aos beliscões, me arrancando em

contrapartida, pelado, de cima do baú, em vão tentava esconder

o pinto da namorada dele, como da mamãe e da vizinha. Aliás,

essa maldita destrambelhada, me olhava como se estivesse

encarando um maníaco. O engraçado, o cômico, no meio desse

povo todo que apareceu, uma vergonha infinita veio vindo lá do

fundo e queimou, por inteiro, meu rosto pálido. Se fosse a Elizabete,

com certeza, o vexame não atingiria graus tão altos.

Em meio à confusão que tomou forma, Elizabete saltou da cama,

apagou a luz, desligou o som e meteu o bedelho. Pegou-me num

beco sem saída, numa situação caótica que não desejaria ao pior

inimigo. Levei, na frente de todos, uns belos tabefes no meio das

ventas. Quando papai chegou, a cinta comeu firme no lombo.

Apanhei feito cachorro magro e sem dono.

Aquele incidente, no qual me deixei ser pilhado, era tão grave

quanto fazer rolar escada abaixo a cadeira de rodas com uma

velhinha paralítica a bordo.

Depois desse mico, optei por ficar de molho, quase um mês,

confinado dentro do quarto, com vergonha de aparecer para

Elizabete, embora soubesse, de antemão, que a namorada de meu

irmão Nelsinho, havia contado a ela, com riquezas de detalhes, o

incidente, desde o instante em que me pegaram com as mãos na

massa. Pronto, estava na boca de todos o meu segredo,

desvendado, exposto, com direito até a apelido: “tarado da bunda

branca”. Em parte, a alcunha ajudou muito. De tanto falarem do

meu traseiro branco, Elizabete, por fim, aquiesceu. Veio chegando,

aos poucos, de mansinho, devagar. Parecia não ter pressa. Trazia

o café, o almoço, o lanche, conversava muito sobre tudo, sentava

a meu lado para ver televisão...

A outra perna do saci

139

Rolou o clima num final de semana. Ninguém em casa. Do seu

jeito, como só ela sabia. Aconteceu. Perdi a virgindade e, junto,

os medos bobos que povoavam minha adolescência. Passei a

conhecer, a partir de então, um mundo diferente e, dentro dele,

um sonho obscuro, onde um universo imensurável se abriu.

Elizabete me fez ver o outro lado da moeda, ou seja, o reverso da

clausura, na qual vivia enfurnado. Conheci mais, senti o

prazer, conheci o amor, a felicidade se fez plena, e a alegria de

viver que todos buscam veio ao meu encontro, como um sol

gostoso batendo no rosto.

Elizabete ficou com a gente por quase oito anos. Nesse tempo,

me ensinou tudo o que hoje sei, tudo o que um homem deve saber

para fazer uma mulher se sentir plenamente realizada. Nosso caso

de amor, que deu até aborto, infelizmente terminou de forma trágica.

Estraguei tudo. Ela me pegou, na cama dos meus pais, com a filha

de um pessoal novo, que ocupara, recentemente, o apartamento

vago, porta com porta, no andar em que morávamos.

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

140

141

Ao meu amigo SIVUCA (in memoriam).

ONTEM FOI UM DIA MISERAVELMENTE MASSADOR.

Chato pra cachorro. Pra cachorro não, particularmente pra mim.

Se eu tivesse o dom de adivinhar, ou de prever os acontecimentos

futuros, como a espertalhona da Mãe Dinada, certamente não teria

saído de casa.

Verdadeiro desastre. Logo ao pôr a cara para fora do apartamento,

tropecei nas escadas do prédio. Quase quebro o pé.

Até a parada, para tomar a condução, uma chuva intermitente

me deu um banho daqueles de gelar até os cabelos da alma. Não

sei se alma tem cabelo, mas vá lá, isso é de somenos importância.

Geralmente ensopo os ossos nos dias de aguaceiro. Não uso

guarda-chuvas, aliás, nunca uso guarda-chuvas. Tenho verdadeira

ojeriza a esse tipo de objeto, ando com a cabeça nas nuvens e

acabo esquecendo a porcaria em qualquer lugar. O último que me

lembro ficou espetado num sorvete.

Para bom entendedor,

uma cerveja basta.

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

142

No ônibus, acomodei o traseiro ao lado de uma mulher gordona.

E bota gordona nisso. A balofa parecia um piano de cauda

desafinado, desses de segunda mão, recém saído de um antiquário.

Ocupava o assento da janela e boa parte do meu. Aliás, mais o

meu do que o espaço a ela reservado. Tive que viajar até o ponto

onde pretendia descer, espremido, apertado, agoniado, feito uma

sardinha raquítica dentro de uma latinha hermeticamente fechada.

Uma droga! Nessas horas é que a gente aprende a dar valor à

liberdade e, mais, ter consciência, de como se sente uma miserável

sardinha numa latinha hermeticamente fechada. Imagine, sem ar,

sem poder se mexer, ou virar o braço para coçar a bunda.

E a bendita adiposa me olhava de soslaio, me comia de mansinho

pelas beiradas, o rosto fechado, cenho franzido, como se me

recriminasse por estar prostrado exatamente naquela cadeira.

Ao deixar o coletivo, ainda embaixo de fortes pancadas de

São Pedro, tomei outra ducha ao atravessar a rua para galgar a

calçada que dava nos escritórios da firma onde exerço as funções

de especialista em marketing impresso. Trocado em miúdos, boy

de xerox. Um automóvel, vindo não sei de onde, parecia fugir da

puta que pariu, passou feito um furacão. Deu aquela espirradela

de água suja de lama, ao bater os pneus num buraco. Dessa vez,

tive sorte. Ensopei um pouco mais a camisa branca que titia Anabela

havia passado com tanto carinho e esmero.

Outros passantes também foram atingidos. Só ouvi gente

xingando a mãe do infeliz. Não sei por que as pessoas pensam

distribuir impropérios afrontosos, direcionados principalmente às

mães. Existem umas figuras de línguas afiadas, que, nessas horas,

perdem a linha, a estribeira, o bom senso. Apelam. Mandam o

motorista deseducado e barbeiro enfiar o carro naquele lugar, ou

seja, no cu da mãe, como se no cu da mãe coubesse um carro

com motor e todos os acessórios e tranqueiras que o acompanham.

Segui meu caminho. Parei na banca de revistas do Epitáfio, para

correr os olhos nos jornais pendurados. Virou rotina. Sempre faço

isso. O dia que passo direto, o sujeito corre no meu encalço

A outra perna do saci

143

e questiona se estou com raiva dele.

“CACHORRO FAZ MAL À MOÇA” – estampava um em

letras garrafais – enquanto outro proclamava “O NOVO

SALÁRIO MÍNIMO CONTINUARÁ MINGUADO”.

Uma vergonha esse negócio de salário mínimo. Por mais que o

povo brigue por um regime de rendimentos melhores, ou condições

igualitárias justas, não consegue, ou melhor, nunca consegue, o

governo ganha os tubos com as roubalheiras e põe a culpa na

Previdência. Não sei por que a população não se une de forma

coesa e se insurge, de uma vez, pra cima dos responsáveis por

essa situação caótica, e não põe um basta definitivo no que julga

errado e, de lambuja, leva junto, a tal da Previdência. Chamou

minha atenção um terceiro jornaleco. A manchete com letras

destacadas anunciava: “MARIDO MATA A ESPOSA COM BIFE

QUE LHE FOI FRITO”.

Epitáfio, o dono da banca, como sempre, não perdia a

oportunidade. Bastava me ver encostado, se abria num sorriso

largo e perguntava se eu levaria alguma publicação, um gibi que

fosse, ou uma revista de mulher pelada. Epitáfio só queria mesmo

torrar a paciência, conversar, passar o tempo. Sabia, de antemão,

que eu ganhava pouco e jamais gastaria um centavo com besteiras.

Segui adiante.

A próxima parada, antes de entrar no edifício onde ficava a

empresa que eu trabalhava, era a loja de discos do André da

“motoleta”. Tinha verdadeira adoração por esse local. Não subia

antes de dar uma espiada nas novidades. E sempre havia coisas

novas nas prateleiras. Bem, deixa falar um bocadinho do André

da “motoleta”. Colocaram esse apelido nele, porque perdeu uma

das pernas num acidente de motocicleta.

Apesar dessa fatalidade, o rapaz é um cara feliz. Está sempre

de bem com a vida. Costuma dizer que amputou uma parte

importante de seu corpo, mas, em compensação, ganhou

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

144

um par de muletas e, com elas, não se sente tão só. Pior aconteceu

com o motoqueiro. Com o impacto, o indivíduo bateu com a cabeça

no meio-fio e acabou partindo desta para melhor. O cômico nessa

história do André é que ele nunca chegou a montar, nem de carona.

Desde pequeno, até de bicicleta passava longe. A família do cidadão

causador do atropelamento, para evitar uma demanda judicial,

presenteou o André com a bendita moto, e o felizardo, entre aspas,

colocou a dita numa vitrina com um monte de capas de CDs

espalhadas. Ficou massa. A galera da vizinhança soube do caso e,

claro, teve um engraçadinho que surgiu com uma piadinha. Logo a

coisa se propagou e, no fim, acabou se tornando uma referência.

De André da moto para André da “motoleta”, um pulo. Contei a

história do desditoso mancebo para um amigo meu, o Canterbury.

Na lata, ele me chamou a atenção dizendo que é feio colocar

cognome nas pessoas. Segundo ele, mancebo é um cabide para

pendurar roupas, formado por uma haste nos braços. A bem da

verdade, nunca estive interessado no verdadeiro significado dessa

droga de palavra. Mandei o Canterbury chupar prego velho até

desenferrujar a cabeça. De mais a mais, a alcunha do André não é

mancebo, mas “motoleta”.

Pois bem. No momento em que entrei na loja, o André botava

um CD para rodar. Adorei o balanço da música. Lembrava Mestre

Sivuca, aquele do acordeom. Perguntei de quem era o disco, e o

André, brincalhão, gritou: é do Severino Dias.

- E quem é Severino Dias?

- Você não conhece Severino Dias?

- Nunca ouvi falar.

- Pois saiba que esse cidadão é reconhecido no mundo

inteiro. Brasileiro, natural de Itabaiana, na Paraíba, nasceu em 26

de maio de 1930. Ah! esteve exilado no exterior, convencido da

marginalização da música instrumental e do solista popular

brasileiro.

A outra perna do saci

145

- Estou pasmo!

- Quer saber mais? O poderoso aí tem um currículo de

fazer inveja. Trabalhou com artistas internacionais famosos e fez

várias turnês. Tem três CDs individuais nos Estados Unidos e dois

na Europa.

- Tudo bem. Apesar desses esclarecimentos interessantes,

seu Severino Dias continua sendo para mim como um bife bem

gostoso, porém malpassado.

Lembro que havia um cliente nos fundos da loja. Escolhia alguns

discos, mas, se via, se antenara na conversa. A certa altura, se

desculpou por estar ouvindo nosso bate-papo e pediu um aparte:

- Não pude deixar de ouvir vocês. Severino Dias, eu tenho

absoluta certeza de que o prezado conhece muito bem.

- O amigo está enganado. Nunca ouvi falar.

- Vamos bater uma apostinha?

- Exatamente o que apostaríamos?

- Uma cerveja.

- Só?

- Para não passarmos em branco. Uma brincadeirinha, se

não se importa, evidentemente. Estou lhe vendo agora, pela primeira

vez. O André da “motoleta”, em compensação me conhece de

velhos carnavais.

- Tudo bem. Amigo dele é meu também.

- E então?

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

146

- Está valendo a cerveja. Não conheço Severino Dias.

- Conhece.

- Eu passo.

- Puxe pela memória.

- Severino, Severino, Severino. Desisto.

- De pé a aposta?

- Sim! Nunca ouvi falar do tal Severino Dias.

- Severino Dias é o Mestre Sivuca, aquele do acordeom.

A outra perna do saci

147

O APARTAMENTO DEFRONTE AO QUE TERREMOTO

reside possui duas campainhas distintas. Uma delas tem uma tampa

cinza e, no meio, um buraquinho redondo, com duas pernas de

fios soltas. Quando chega alguém à cata do morador (que nunca

ninguém viu, nem mais gordo, nem mais magro, nem mesmo

Terremoto), existe abaixo do olho mágico uma caixinha dessas

modernas, ou melhor, a campainha de verdade, para que seja

comprimida e, uma vez acionada, alerte o residente de que há

gente a sua espera do lado de fora. Sempre que surge uma pessoa

no corredor, Terremoto logo fica sabendo, não porque bisbilhote

o tempo todo, mas, simplesmente, porque o alarme sonoro do

subir e descer do elevador disparava um “plim” e, corroborando

com a atitude desse mecanismo, as dobradiças enferrujadas da

velha porta da engenhoca começam a ranger desesperadamente.

Xeque-mate

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

148

Nessas ocasiões, Terremoto aproveita para espiar pelo olho

mágico e ver quem é a visita que anda em busca do vizinhofantasma.

Curiosidade de quem já trabalhou muito na vida, se

aposentou com um bom salário por mês e não tem, realmente, o

que fazer, além de dormir e coçar o saco. Contudo, um excelente

exercício para matar o tempo ocioso, vez que se depara com as

situações mais engraçadas e inusitadas possíveis. Dias atrás, uma

moça com os cabelos vermelhos elegantemente vestida, procurava

pela campainha. Como todos os demais, ela não viu, diante de si,

a caixinha, abaixo do olho mágico e, por essa razão, começou a

futucar aqui e ali, na esperança de enfiar um dos dedos no orifício

da tampa cinza e juntar os fios. Os dedos não ajudaram em nada.

Talvez fossem as unhas compridas ou os anéis que atrapalhassem.

Quem sabe nem uma coisa nem outra, mas a cor dos cabelos. Em

seguida, ela introduziu o polegar e o indicador com o objetivo de,

a qualquer custo, fazer funcionar a geringonça. Puro fiasco. Um

faniquito repentino a fez sair furiosa, cuspindo marimbondos.

Não foi diferente com um cidadão baixinho, de chapéu na

cabeça e uma bolsa dessas 007. Possivelmente cobrador. O infeliz

chegou ao cúmulo de, a certa altura das frustradas tentativas, meter

o nariz no olho mágico, objetivando ver se enxergava alguma coisa

no interior do apartamento. Também teve problemas com os fios.

Quase certo, pelo ar desagradável que se fechou em seu rosto,

tomou uma tremenda descarga. Desistiu, pois, da empreitada.

Resmungando, deu meia volta e desapareceu.

Terremoto chegou à conclusão de que as pessoas, de um modo

geral, são levadas e expostas ao ridículo por pura comodidade.

Ninguém para por alguns instantes com a intenção de analisar o

que está posto e visível diante do óbvio. Pensar numa solução

simples que desencadeie algum resultado prático. Às vezes, uma

insignificância, de solução clara, está logo ali, atropelando, mas a

pressa e o nervosismo juntos, de mãos dadas com a velha burrice

botam tudo a perder.

A outra perna do saci

149

O cômico, na história do vizinho extravagante, se resumia num

só objetivo. Quem quer que pintasse no pedaço, se via logo às

voltas com os fios da campainha. Talvez, no fundo, fosse essa a

verdadeira intenção do engraçadinho. Dar choque nos chatos que

não desistiam de vir até sua residência perturbar o sossego. Com

certeza, o canastrão deveria rir um bocado e se divertir às

expensas dos apalermados. De qualquer forma, deixava claro que

não queria, decididamente, ser incomodado por ninguém. Pairava

no ar uma dúvida cruel. E essa dúvida deixava Terremoto com a

pulga na orelha. Por que o cidadão divulgava aquele endereço, se

não queria ser encontrado nele? E se espalhava com qual objetivo?

Fazer pouco caso? Tirar sarro? Zombar dos seus semelhantes?

Mais cômodo seria indicar um local público, um shopping, ou

marcar um barzinho. Perto dali havia um café expresso espetacular,

com garçonetes lindas de serem vistas. Tudo bem que as pessoas

devam preservar a sua individualidade, resguardar a sua privacidade

com unhas e dentes. Com fios desencapados, certamente, o cúmulo

do absurdo.

As duas pernas de fios soltas da suposta campainha, de certa

forma, instigavam a atenção dos que acampavam diante da entrada,

fossem quais fossem os motivos que os levassem a estar ali. Pelo

sim, pelo não, os que se aventuravam, esqueciam de atentar para

um detalhe insignificante, qual seja, fazer soar o botãozinho

politicamente correto, e à vista de um cego, logo abaixo do tal

olho mágico.

Terremoto percebeu, nessas olhadelas, que cada ser humano

reagia de uma maneira diferente. Uns xingavam, outros faziam

caretas, alguns chutavam as paredes. A maioria olhava para os

lados, desconfiada. Teve um visitante que se deu ao trabalho de

encarar o olho mágico de Terremoto. Não se sabe com qual

finalidade. Levou um baita susto. Ficou evidente que se descobrira

com a boca na botija. As mulheres eram as mais interessantes de

serem reparadas: puxavam a calcinha que entrava na bunda,

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

150

penteavam os cabelos, retocavam a maquiagem do rosto, refaziam

o batom dos lábios. Os homens, como sempre, menos exigentes

com a aparência, limitavam-se a corrigir o nó da gravata, dar uma

ajeitadinha nos óculos, e uma batidinha discreta no paletó, para

afastar algum cisco por ventura deixado com o vento. Pensavam

em tudo, esses ilustres visitantes, mas esqueciam do mais trivial:

Premer com o indicador o botãozinho da segunda campainha, logo

abaixo do olho mágico ou, por outra, de bater suavemente, com

os nós dos dedos, produzindo um leve toc, toc, toc, no sisudo e

silencioso portal do esquisito morador.

A outra perna do saci

151

A MERCEDES PRETA COM VIDROS FUMÊ encostou

silenciosamente na única bomba que se encontrava vazia para

abastecimento. Cristiane, uma das moças veio atender, solícita.

O motorista, um sujeito magro, abriu meio vidro, o bastante para

passar um molho de chaves:

- Completa o tanque, por favor.

Cristiane, mais que depressa procurou despachar o homem no

menor tempo possível. As ordens do gerente, nesse sentido, giravam

em torno do posto ter alguns diferenciais que precisavam ser

seguidos ao pé da letra: oferecer bom atendimento ao cliente, agir

com rapidez e elegância na maneira de abordar, preservar a

discrição e, em hipótese alguma, sair de cara feia, ou xingar os

engraçadinhos, caso levasse uma cantada. O segredo estava

também na diplomacia, na perspicácia e no saber se livrar dos

elementos chatos, de mansinho, numa boa, com classe, sem lhe

ofender a moral e o decoro.

Mico

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

152

Cristiane desde que admitida como frentista, agia nos conformes.

Aliás, as demais colegas se espelhavam nela. Assim, naquela manhã,

ao ver chegar a Mercedes preta, tratou de fazer o seu trabalho

sem mais delongas. Contudo, não pode deixar de reparar no que

acontecia no interior do veículo. Embora a janela não estivesse

totalmente aberta, ela percebeu que a acompanhante do sujeito

magro – uma loirinha de cabelos compridos – praticava sexo oral.

Em outras palavras, pagava um boquete. Talvez a garota estivesse

sendo forçada a fazer aquilo. Ninguém, em sã consciência, por

mais depravado e sem-vergonha que seja, se submeteria a um

mico daqueles. Por outro lado, se havia uma terceira pessoa

ameaçando (escondida, talvez, no banco de trás), por que não

gritou, nem tentou abrir a porta e sair para pedir ajuda?

Dorinha, a colega de Cristiane, se aproximou para oferecer

outros serviços, entre eles, água gelada e cafezinho. Cristiane ainda

tentou desviar a atenção da amiga, mas era tarde. O sujeito magro,

desta vez, não abriu o vidro, escancarou a porta. Dorinha, diante

disso, deu de cara com a cena patética. O cidadão, com o troço

para fora da bermuda e a moça do banco do carona (a loirinha

dos cabelos compridos), grudada nele, chupando, como se aquele

ato fosse a coisa mais banal e corriqueira desse mundo. Dorinha,

porém, seguiu à risca as instruções: não esquecia da história dos

três macaquinhos. Essa é a melhor filosofia para se trabalhar num

posto de gasolina, ou em qualquer outro lugar.

Sem perder a calma, e mostrando serenidade, dirigiu-se ao

cliente, desempenhando maravilhosamente a sua função e, por fim,

propôs os brindes.

- O senhor aceita uma água gelada, ou um cafezinho?

- Por gentileza, um cafezinho.

- Sua companheira não gostaria de...

A outra perna do saci

153

O rapaz se abriu num sorriso debochado:

- Como pode ver, ela está ocupada, de boca cheia.

Acredito que não vai querer misturar café ao leite condensado

que logo deverá jorrar em abundância.

Dorinha se afastou. Cristiane havia acabado de completar o

tanque. Foi sua vez de se aproximar do freguês.

- Suas chaves, senhor. Deu setenta e dois reais e cinquenta

centavos. Vai querer o cupom fiscal?

- Não, belezura. Só estou à espera do cafezinho que a

outra atendente solicitamente me ofereceu. Como pode perceber,

não posso me dar ao luxo de me levantar daqui, ou a minha gatinha

teria que interromper a sua merenda. Como é seu nome?

- Cristiane, senhor.

- Aqui está o dinheiro, setenta e cinco reais. Pode ficar

com o troco. Gorjeta.

Dorinha chegou trazendo um copinho de plástico cheio de café

dentro de uma bandejinha pequena.

- Senhor.

- Obrigado. E você, como se chama?

- Dorinha, senhor. Algo mais?

- Bonito. Gostei. Cristiane também. Legal. Vocês duas são

uns amores. Estou satisfeito. Recomendarei aos meus amigos o

lugar para abastecerem aqui.

A loirinha continuava na mesma posição, chupando, sem parar,

imprimindo à cabeça um vaivém cadenciado. Enquanto sorvia

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

154

o café, o sujeito magro segurava nos cabelos dela e ordenava:

- Mais rápido, mais rápido. Cuidado para não me lambuzar

de café.

Agradeceu a bebida, fechou a porta. Antes de ligar o motor,

voltou a abrir o vidro. Olhou para as duas:

- Meninas, aqui está o copinho. Tenham um bom-dia.

Saiu tão silenciosamente como chegou.

Passado o primeiro impacto, as duas se reúnem num desabafo.

- Você viu o que eu vi?

- Estou pasma, colega! Olhe, minhas mãos estão tremendo

até agora. Meu Deus, que coisa horrível. Como é que uma garota

simpática, de boa aparência, não deve ter dezessete anos pelo

que pude perceber, se presta a fazer aquilo, em público?

- Dinheiro, amiga. O vil metal, como diz meu pai. O troço

faz das pessoas gato e sapato.

- Jamais passaria por um ridículo nessas proporções. Nem

que a criatura fosse meu marido ou o príncipe mais bonito da face

da terra. É o fim da picada!

- Concordo plenamente, amiga. E que pica... Quero

dizer, que picada!

A outra perna do saci

155

MARIA JULIETA TINHA TUDO A TEMPO E À HORA,

do bom e do melhor. Não lhe faltava absolutamente nada. Essa

mordomia se estendia do fogão de cozinha à cama onde dormia,

feita sob medida, em madeira de lei, passando pelo carro último

tipo estacionado na garagem e acabando nos vestidos de grife

encontrados em lojas grã-finas e sofisticadas. Em seu close, ao

lado do guarda-roupa, perfilados um ao lado do outro, elegantes

pares de sapatos para cada um dos dias do mês. Vestia uma

elegância ímpar e jamais repetia um modelo. Madame de vitrina,

praticamente, todas as tardes um convite lhe esperava para um

chá de confraternização ou troca de gentilezas, nas residências de

amigas – a maioria esposas de médicos que trabalhavam na clínica

Tapajós&Tapajós, em plena Alphavile em Barueri. Há pouco

completara vinte e cinco anos, ao contrario do maridão, doutor

Cornélio Dias Tapajós, cirurgião plástico renomado, em tempos

passados, assistente de Ivo Pitangui. Homem mais velho, passava

dos cinquenta. Todavia, não negava fogo. Mesmo nessa faixa de

idade dava trabalho, não fazia feio ou deixava a desejar. Punha, na

moral, como se costuma dizer por aí, muitos garotões no chinelo,

tal o vigor e a disposição na hora de fazer gracinhas para a esposa,

quando partia para o “vamos ver como é que fica”. E ficava mesmo.

O casamento deles ia de vento em popa.

Código de honra

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

156

Maria Julieta não completara dezesseis quando viu, pela

primeira vez, no consultório da clínica, o cara que viria a ser, dentro

em breve, o príncipe encantado da sua vida. Tudo aconteceu ao

acompanhar a única tia com quem vivia desde os cinco anos, que

se internara para se livrar de uns incômodos que ameaçavam sua

beleza. A jovenzinha se acendeu por dentro como uma desatinada,

diante do primeiro garoto que lhe deu uma piscadela de olhos

mais demorada e falou meia dúzia de palavras bonitas, ao pé do

ouvido. Ele também não ficou atrás. Investiu nas olhadas e paqueras.

Na verdade, ambos se corresponderam à altura, até que, uma

semana depois, jantavam de mãozinhas dadas, como dois

pombinhos apaixonados. Houve um pedido formal de casamento

entre taças de champanhe e caviar e, nessa hora, ela, Maria Julieta,

flutuou num espaço desconhecido que se descortinava a sua frente.

A princípio, a tia deu contra, afinal ela não passava de uma

menina ingênua e ele, um coroa. Contudo, diante da devolução de

um cheque pré-datado passado à clínica e uma série de outras

conveniências, acabou por concordar com o matrimônio. Em menos

de duas semanas, Maria Julieta, agora senhora Cornélio Tapajós,

se mudava de mala e cuia para a espetacular mansão do médico

em Aldeia da Serra, bairro nobre nas cercanias da grande São

Paulo.

Oito anos de felicidade plena e incondicional, regadas com

muito amor, carinho, badalações, festas, encontros, simpósios,

viagens, idas e vindas ao exterior. A garotinha do bairro do

Morumbi, de certa forma, acertara na sorte grande. Não que

precisasse. Trazia o vento dos bons presságios soprando sobre

sua cabeça, ou mais precisamente, a partir da morte dos pais, num

acidente ocorrido na Rodovia dos Imigrantes, em direção a

Santos. Passara a viver, desde esse fatídico dia, com a tal da tia

ricaça, que lhe tratava como filha e a amava como ninguém. Jovem

e bonita, conquistara sua independência financeira. Conseguira,

num curto espaço, galgar destaque na sociedade. Seu rosto de

princesa dos contos de fada não saía das colunas sociais. Como

esposa de um cirurgião plástico conhecido internacionalmente,

A outra perna do saci

157

sua ascendência às altas esferas da burguesia chegou num abrir e

fechar de olhos. Até aquele dia...

A porta de uma das cristaleiras, que ajudavam a adornar a sala

imensa e ricamente mobiliada, emperrou. Em conversa com uma

das empregadas que compunham a ala das serviçais a seu dispor,

Maria Julieta descobriu que Chiquinha, a copeira, tinha um irmão

entendido em assuntos relacionados a móveis finos e os consertava

com impecável precisão. Assim, Pedro Juliano teve acesso à

residência dos Tapajós. Num sábado, logo depois das nove horas

da manhã, estava o moço com a irmã à disposição, assim que a

patroa despachasse o maridão para se ater ao que o levara até ali.

A espera não se fez muito delongada. Menos de meia hora depois,

Pedro Juliano se viu diante de uma deusa nunca dantes imaginada.

A beleza ímpar da rainha, a senhora Tapajós, não obedecia a limites.

O destino, a partir desse encontro, mudou sistematicamente a vida

de todos os envolvidos e acabou com a paz que reinava naquele

doce lar. Pedro não se deparara com ninguém tão especial, pelo

menos a ponto de ficar embasbacado, queixo caído, feito um

doente mental.

- Me acompanhe, por favor. Mostrarei ao senhor o móvel

que pretendo seja prontamente restabelecido à normalidade.

Pedro Juliano se deixou levar pelo braço como um extasiado

diante de algo que, até então, só vira nas telas dos cinemas.

Uma hora depois, o serviço ficava pronto. Mandou a irmã avisar

que tudo estava nos conformes. A dona da casa voltou à cena.

Desta feita, entrou na sala mais elegante que antes. Pedro sentiu

um tremor. Começou a suar. Sua camisa colou nas costas.

- Senhora, me permite lavar as mãos?

Maria Julieta fez que sim, pediu um suco à Chiquinha que se

afastou prontamente em direção à cozinha. A sós, ela e o rapaz,

ao invés de conduzi-lo para os banheiros destinados aos empregados,

apontou o seu, que ficava dentro do quarto da suíte do

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

158

casal. Pedro Juliano, ao entrar naquele ambiente chiquérrimo, quase

teve um ataque. Primeiro, porque nunca havia visto nem estado

num ambiente tão luxuoso e, segundo, ao lado do sanitário e da

banheira de hidromassagem, havia uma parede, ou melhor, a parede

se constituía num quadro enorme de Maria Julieta, de corpo inteiro,

nua em pelo, comendo uvas e fazendo uma pose tremendamente

provocante e sensual. Seus brios de macho entraram em estado

de alerta. Houve uma dificuldade enorme para abrir o zíper e tirar

o grosso volume que latejava dentro da cueca apertada. Sentiu

vontade de se acabar numa série de ejaculações em homenagem

àquela formosura, que se oferecia, como uma gata selvagem,

querendo ser possuída e amada.

Ao urinar, o jato escorreu para fora do vaso formando uma

poça em torno de um tapete com desenhos do Piu-Piu. Pedro

Juliano esquecera de mirar o fundo da bacia da privada, tamanha

a tensão que fragilizava seu estado emocional.

Sem saber que estava sendo observado, Maria Julieta encostou

a porta de acesso a seu quarto e se achegou do banheiro. Espiou

então o rapaz, ou melhor, sua atenção, nesse momento, se desviou

para o que ele segurava em uma das mãos. Ao deparar-se com

“aquilo” enorme e descomunal entre os dedos, arregalou os olhos

e soltou um gritinho de espanto. Surpreso Pedro girou sobre si

mesmo e, ao fazê-lo, se viu de calças curtas, diante de Maria Julieta

em carne e osso.

A partir daquele momento, nenhum dos dois conseguiu tirar o

outro da cabeça. Até que a coisa acabou tendo que ser resolvida

na cama. Pedro Juliano passou, então, a quebra-galho oficial da

mansão, ou seja, a fazer pequenos retoques aqui e acolá. Cada

dia pintava algum objeto para ser consertado ou restaurado. Além

de quebra-galho, o sortudo ganhou, igualmente, o posto de amante

oficial da bela e apetitosa patroa de sua irmã Chiquinha e, como

tal, a desfrutar não só dos prazeres que o corpo da amada lhe

proporcionava, mas dos presentes caros que ela comprava e

A outra perna do saci

159

oferecia em troca das mijadas que, como a presença dele, na casa,

passaram a ser uma constante no banheiro da suíte do quarto de

casal.

O ilustre Cornélio Tapajós, cirurgião plástico renomado,

exatamente dois anos depois, sem querer, sem esperar, sem ser

avisado e sem planejar nada, acabou dando um flagra. Voltou, de

repente, para buscar o estetoscópio que esquecera sobre o criadomudo.

Maldita hora. Topou com a jovem esposa no banheiro,

encostada no próprio retrato, aos gemidos de “vai, meu gato, me

encha as entranhas com sua porra quente” sendo possuída por

Pedro Juliano. Cornélio Tapajós enlouqueceu. Perdeu a cabeça.

Primeira reação: passou a mão numa arma que mantinha dentro

do cofre e atirou na despudorada. Uma bala só. Certeira,

suficiente. Meio da testa. Os miolos dela mancharam a parede e

seu corpo escultural se coloriu de sangue. Em seguida, o médico

mirou os colhões do amante, sem se importar com aquela frase

conhecida que surge na boca dos envolvidos, nas horas mais

erradas possíveis. “Amigo, me escute, não é nada disso que está

pensando”. Sem escapatória. Apertou cinco vezes o gatilho.

Aldeia da Serra virou um inferno. Em meio aos gritos de “se

entregue que é melhor, jogue a arma pela janela e saia de mãos

para cima” da polícia, que cercou a mansão e do desespero dos

empregados, vizinhos e curiosos Cornélio Tapajós da Clínica

Tapajós&Tapajós, pôs em prática a terceira de suas funestas

reações: encostou a arma no ouvido e... Não havia mais nenhuma

bala disponível no tambor do revólver.

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

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O AQUILEU ERA REALMENTE UM HOMEM com agá

maiúsculo. Macho até debaixo d’água. Como delegado titular da

homicídios um exemplo de policial linha dura. Queria tudo certinho

e dentro dos conformes. Seus subordinados sabiam da fama, por

essa razão, quando sentado em sua cadeira, no amplo gabinete,

ninguém brincava. Até advogado de porta de cadeia receava visitar

preso nessas ocasiões. Final de semana, depois do expediente,

decidiu pescar com amigos, numa cidadezinha fora do seu Estado.

Geralmente, nessas pescarias rolavam muita carne no espeto,

cerveja e mulheres bonitas. Até aí, tudo bem, o Aquileu não estava

de serviço, nem perto de sua jurisdição, ao contrário, mais de

seiscentos quilômetros o separavam da pacata Santa Gertrudes.

Ademais, que mal havia sair da rotina e distrair um pouco as ideias?

Filho de Deus gozava direitos iguais como todo ser humano mortal.

Passou a mão nas tralhas. Tirou da garagem uma BMW preta,

adquirida recentemente. Ainda sem placas, os plásticos nos

bancos. Ganhou mundo.

Na roda de amigos e garotas, a algazarra corria às mil

maravilhas. Depois de pescar num riozinho de águas límpidas e

beber todas, se embrenhou para caçar mato adentro, com alguns

dos muitos rapazes que haviam sido convidados. No decorrer da

Reação em cadeia

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

162

farra, contudo, e no alvoroço que se seguiu, deixou cair, por

descuido, numa espécie de clareira, todos os documentos. Daí em

diante, nada restou nos bolsos que o identificasse. Pior, na história

toda, é que ninguém viu a carteira rolar, nem ele próprio se deu

conta. Aliás, estava como os demais, fora de si e bêbado feito

uma mula, mal conseguia parar em pé.

No domingo à noite, apesar dos companheiros insistirem para

que não voltasse sozinho (afinal, passara todo o dia misturando

cerveja, vinho e cachaça), Aquileu, teimoso, não deu ouvidos. Além

de precisar estar na delegacia na segunda-feira, às primeiras horas

da tarde, havia outros problemas a serem resolvidos antes de

encarar o batente. Tomou um demorado banho de cachoeira,

mandou para dentro um prato de arroz com feijão e carne de

porco. Em seguida, despediu-se da galera e encarou a longa

estrada de volta. Quilômetros à frente, uma blitz o fez interromper

a viagem. Tinha nego espalhado e armado até os dentes, por todos

os lados. Uma gangue vinda de Belo Horizonte saqueara um

supermercado e levara todo o dinheiro da féria. Coincidentemente

um dos carros envolvidos era uma BMW preta. A Civil e a

Rodoviária fecharam o cerco. Não passava nem agulha. O sujeito

que interceptou Aquileu chegou gritando:

- Pula fora, devagarzinho, não faça nenhum gesto suspeito

e mantenha as mãos onde eu possa vê-las.

- Sou da casa...

- Identificação?

Procura daqui, procura dali, nada. Somente nessa hora, Aquileu,

efetivamente foi se dar conta de que deixara, ou perdera, todos os

documentos. Não existia absolutamente nenhuma prova que fizesse

dele um cidadão honesto e decente. Menos ainda os documentos

de delegado. Ainda assim, procura daqui, mexe dali, vira de um

lado, futuca de outro, qual o quê. Nem os do carro, no portaluvas

para salvar a pátria.

A outra perna do saci

163

- O bafômetro. Tragam o bafômetro.

- Meu amigo sou delegado de polícia.

- Identificação?

Fizeram uma vistoria minuciosa. Arrancaram tudo de dentro

da BMW, inclusive uma pistola sete-meia-cinco, uma escopeta,

duas caixas de munição e cartuchos deflagrados. Diante de tantas

evidências, partiram para uma geral. Aí a cobra entrou em cena e

começou a fumar de verdade.

Aquileu era bom de briga. Lutava caratê, kung-fu e capoeira,

além de conhecer a fundo outros esportes violentos. Por ter

recusado a assoprar o bafômetro, e por não poder provar o

transporte das armas e das balas, levou um tapa no meio das ventas.

Furioso, não deixou por menos, revidou. Partiu para a desforra

devolvendo o tabefe. Um esquisitão que segurava um revolver

trinta e oito, perdeu a arma e dois dentes. Outro beijou o asfalto

com a testa esfolada. Um terceiro voou longe e caiu, de quatro,

dentro de uma valeta perto do acostamento. A confusão, de

repente, criou formas gigantescas. Cada um que tentava pegar a

unha o Aquileu, ou ajudar os companheiros, saía com a fuça

vermelha e os olhos inchados. Vendo que perdiam terreno, um

dos presentes solicitou reforço pelo rádio.

Pintou na área, reforçando o que já existia, meia dúzia de viaturas

vindas de todas as direções, sirenes ligadas, as luzes intermitentes

rodopiando numa confusão desenfreada. Um barulho infernal.

Acionaram, também, o comissário do lugarejo, um velhote metido

a valentão, que chegou, quase no mesmo instante. Todavia, Aquileu,

por mais brigão e arisco que fosse, ainda levando em consideração

os vapores do álcool acumulado, e mais, exausto de tanto dar e

receber cacetadas, acabou dominado, aliás, completamente

nocauteado.

Finalmente conseguiram colocar-lhe as algemas.

APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA

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- Cadê o valentão?

- Ali, doutor.

O tal comissário, muito brabo, e abusando do seu poder, chutou

com força as costas de Aquileu.

- Então você é um delegado?

- Positivo. Sou seu colega. Meu nome...

- Identificação?

- Acredite, não posso provar agora, mas...

- Seus comparsas foram para onde? Que rumo tomaram?

E o produto do roubo, onde esconderam?

Cadê o restante das armas? Além de você, quantos mais

conseguiram fugir? Desembucha de uma vez que é melhor. Lá na

cadeia disponho de uns métodos interessantes para fazer o sujeito

soltar a voz. Tenho certeza que o meu amigo “delegado”, desculpe,

o doutorzinho, particularmente, vai adorar.

Com a prisão do suspeito desfizeram a barreira. Levaram

Aquileu, a BMW e as armas para a Delegacia. Na porta do prédio

onde funcionava a DP, uma multidão de curiosos aguardava a

chegada do comissário e do misterioso assaltante. Assim que se

viu em frente ao edifício, o comissário ordenou a um agente que

levasse o “delinquente” para os fundos da construção e desse uma

chuveirada fria no mais novo “Van Damme”do pedaço para lhe

acalmar os ânimos agitados. Em obediência, dois “canas” de nariz

roxo e cabelos em desalinho (devido às porradas recebidas) se

apresentaram para dar início ao tratamento vip que consistia,

primeiramente, na revista corporal, ou como é conhecida na gíria

dos malandros, a “arrancada das penas do frango”.

Depois o meliante seria levado ao tradicional banho do

A outra perna do saci

165

descarrego, ou o jato de água fria, com mangueira de bombeiro,

que atirava a criatura longe. Por derradeiro, uma visita à sala

especial, onde “encapuzados” faziam qualquer brutamontes soltar

a língua e confessar que matou a mãe a pedradas e comeu a irmã

de sobremesa. Nessa ordem, começaram pela camisa. Em seguida,

o cinto, os sapatos, o relógio, celular, cordão de ouro, pulseira,

até que chegou a vez da calça. Aquileu voltou a ficar endiabrado e

a distribuir porradas, mesmo estando com os braços para trás,

presos ao bracelete. Todavia, seus esforços resultaram em vão.

Dominado uma vez mais pelos grandalhões com traços de

“Schwarzenegger”, finalmente, a jeans rolou pernas abaixo.

O espanto veio junto. A comoção pegou todos de surpresa.

Tomou forma em rostos de aparências rudes que nunca abriram

brechas para sorrisos. Olhares incrédulos, queixos caídos, gente

se benzendo. Um Ohhhhh! uníssono pipocou de um canto a outro.

“Meu Deus – disse um pastor – em que mundo estamos

vivendo?”.

O comissário veio lá da recepção, onde dava entrevista à FM

91,9 Rádio Comunitária. Tudo girava em torno de política.

O prefeito, o padre, os vereadores, todos, sem distinção, se faziam

presentes no átrio da delegacia. Repórteres dos dois jornais diários,

ávidos por um “furo” jornalístico, inédito naquele condado,

obtiveram permissão para adentrarem no recinto e fotografarem o

absurdo. Um sensacionalismo bizarro e, ao mesmo tempo,

dramático. Certamente, aumentaria a venda dos periódicos por

muitas semanas. A gargalhada vinda dos fundos da construção

estrondeava pelos quatro cantos. Criava força, à medida que a

notícia ia se propagando, numa velocidade incrível, de boca em

boca, de casa em casa, de bar em bar, enfim, entre a multidão em

polvorosa. O parrudo delegado Aquileu, saradão, queimado de

sol, corpo atlético e de boa aparência, no lugar da cueca, usava

uma minúscula calcinha cor de rosa.

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CONTATO COM O AUTOR:

aparecidoraimundodesouza@gmail.com

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