segunda-feira, 4 de novembro de 2024

domingo, 5 de abril de 2020

O Súcubo


O Súcubo

(*) Texto de Aparecido Raimundo de Souza.

Esta noite ela me apareceu de novo. Já é a terceira vez, este mês, que a linda chega assim, de repente, sem avisar, sem, telefonar, sem ao menos interfonar da portaria. Chega e sobe direto sem marcar hora. Entra me arregaçando, me agarrando, me apertando, a boca sequiosa, o hálito quente, a língua descontrolada, se enrodilhando na minha. São tantos os afagos e abraços que mal tenho tempo de respirar. A graciosa tem um jeito engraçado de me provocar. Gosto quando me desorienta os sentidos pedindo que lhe beije os bicos róseos dos peitos. Me derreto ao seus impulsos e ela vai em frente minando minha impertinência com gestos e pernas, ora roçando meu sexo no dela, ora me engolindo inteiro, até o profundo da garganta, sempre com uma volúpia incontrolável.
Me acostumei a sentir a quentura da sua vagina na minha boca, como também o roçar dos músculos do esfíncter insistindo em não liberar os gases retidos. Louco, eu quero partir para o acasalamento. Imploro sequioso, para o desejo da posse plena e imediata, todavia, ela me nega a deixar apertar o botãozinho do abra-te sésamo. No melhor da festa a criatura desconversa com palavras melosas sussurradas no meu ouvido, pula sobre meu corpo como uma tresloucada, colocando seus encaixes perfeitos nos meus, ao espaço  que bombardeia carinhos e mimos de uma forma tão pujante e eficaz que eu respondo com recíproco medo de perder, de vez, a noção e o juízo.
Meu dedinho segue como um autômato em enfiadas preparatórias profundas em seu traseiro delicioso. E sei que gosta, porque ao sentir o indicador bem lá dentro, algo a deixa catatônica e praticamente eletrizada. Neste espocar de sensações, ela rebola cadenciadamente, enquanto seus lábios grudados nos meus agem como se deles emanasse um gel lubrificante a base de saliva, cuspe e suor, conduzindo nossos momentos a loucuras indescritíveis e insofismáveis.  Amo de paixão quando ela vem por cima, dando as cartas. Eu me sinto impotente como um lutador atrelado a um inimigo desigual. Eu não a vejo, nem a descrevo na forma de fêmea alada, ao contrário, a enxergo como a uma espécie de elfo me cavalgando estabanadamente. No aparelho de CD as vozes de César Camargo Mariano e Nana Caymmi aproveitam a deixa e envolvem a nossa briga, dando, a contenda, pequenos contornos que chegam a hipnotizar.   
De repente ela se faz completa. Me mostra o portão do jardim secreto aberto, totalmente escancarado e sem pudor. Eu vou em frente, ensandecido. Ela então solta a mulher aprisionada e as amarras caem a meus pés.  A brecha no meio do nada que eu procuro com ansiedade invulgar, está agora, ao meu alcance.  A sua entrada por dentro de mim é feita com as mesuras e reverências destinadas às celebridades. Encorajado, vou fundo na batida, no estoque, no vai e vem. Quero feri-la por inteiro com a minha lança pontiaguda. Ela contra-ataca estorcendo-se ofegante, convulsa, com uma velocidade espantosa. Seus espasmos se tornam selvagens ao tempo que grita em francês: Oh, c’est fou! Oh, c’est fou!. Num instante a princesa fica por baixo de mim, depois de lado e de quatro. Nesse jogo de posições, em dado momento, a fúria incontida não agüenta. E ela explode por inteira dançando numa simetria corporal perfeita. Seu rosto se inunda de uma luminosidade vital, onde alegria e erotismo, a um só tempo, nos deixa em puro êxtase de contemplações efêmeras.
A vagina da encantada parece uma maçã mergulhada numa cachoeira. Meu pau, antes enrijecido, depois do apogeu do gozo, se transforma num bichinho medroso, escorregando dissolvido em rota de colisão com os grandes lábios que se desabraçam cansados e literalmente saciados. Do corpo da linda escorre um suor perfumado que inebria o momento, tornando-o único e inimitável.
No abrupto seguinte, ela pula da cama, e, antes que eu desperte, de vez, daquele estado atemporal, sentindo o sabor de morango com chocolate da sua tanguinha comestível, ela se recompõe com outro lingerie oriental que reluz no escuro do aposento. Exatamente num átimo de segundo ela me joga um beijinho com as mãos em concha e depois some sorrindo em direção ao banheiro.

(*) Aparecido Raimundo de Souza, 57 anos é jornalista.


"INFANCIA". NESTE TEXTO APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA NOS LEVA DE VOLTA AO SEU PASSADO. É UMA VIAGEM QUE VALE A PENA SER FEITA.

Infância




Tanto vai a nada a flor que um dia se despetala.



Guimarães Rosa



Quem poderia imaginar uma loucura dessas? Eu desejava plantar uma semente de urubu no fundo do quintal lá de casa para ver se nascia uma ave igual às muitas que avistava da janela do carro de papai, quando ele vinha buscar-me no final de semana, para eu ficar com ele em seu apartamento, na capital. Há curto tempo, ele se havia separado de mamãe e, desde então, passei a dividir as loucuras do vaivém incessante, entre a cidade barulhenta e a roça, esta despojada dos espetáculos que enchiam meus olhos de menino a uma semana no albor dos oito anos.

Tinha verdadeira adoração por meu pai. Ele era o meu herói de todas as horas. O homem forte que lutava com dragões gigantes e vencia as batalhas mais difíceis e impossíveis. Pouco acima da linha dos 30, profissional conceituado na firma onde trabalhava, procurava manter o ritmo de antes, quando ainda vivia com a gente. Não deixava faltar-me nada. Do computador moderno ao celular de última geração, do brinquedo mais sofisticado aos jogos de videogames recem-lançados no mercado; roupas e sapatos com as assinaturas das melhores grifes. À mamãe, também fazia graças elegantes, marcando presença constante. Não porque quisesse tê-la de volta. Simplesmente seu coração era grandioso demais e o amor que nutria por nós ultrapassava os limites do mensurável.

Quando o questionava sobre morar novamente embaixo do mesmo teto, ele, muito polidamente, ficava em silêncio. Um silêncio que chegava a ser constrangedor. Despistava, mudava de assunto e, por fim, para não deixar-me totalmente sem resposta, inventava uma desculpa esfarrapada, mas que, bem sabia, não convencia meu ego interior, sedento de alguma coisa mais concreta.

Eu era uma figura esguia, porém franzina e tímida, alvo fácil dos guris mais corpulentos, que, vez por outra, inventavam de querer esperar por mim na porta da escola, para me descerem a lenha nos costados. Chamavam-me de “galinho rico”, porque a melhor mochila era a minha, como a calça do uniforme e o tênis. Enfim, implicavam até com a merenda que eu levava na lancheira. Por isso, tinha raiva deles, um ódio mortal, um sentimento que, se pudesse ser posto à prova, aniquilaria a todos só com a força do pensamento.

Quem sabe fosse essa a razão maior de eu querer plantar uma semente de urubu lá nos fundos do terreno de casa. Se pudesse comandar a ave, como num jogo, certamente não pensaria duas vezes para ordenar que arrancasse o couro daqueles molecotes desgraçados e depois deixaria o bicho devorar-lhes as carnes fedorentas até atingir os ossos. Não sabia, claro, que os urubus não matam, apenas se alimentam de carniça. E mais: desconhecia o princípio da vida. Eles não nasciam de sementes jogadas à terra, como se fossem plantinhas caseiras que floresciam e se tornavam adultas com o passar dos dias. O processo era um pouco mais complexo, e a sua formação estava muito aquém dos meus conhecimentos limitados.

Mas o dia de hoje tinha um motivo a mais para ser comemorado. E não somente pelo fato de papai ter vindo buscar-me na roça. Uma satisfação profundamente marcante regozijava meu mundo de criança mimada: o aniversário dele. Mamãe, dias antes, comprara um presente requintado para que lhe fosse dado. Nunca me senti tão próspero — apesar da pouca idade —, tão orgulhoso de mim, em poder retribuir à altura tudo de bom que recebia daquele homem de cabelos cortados à militar, vestido a rigor, impecável em ternos de linho, com motorista particular que abria e fechava as portas do carro e fazia reverências engraçadas.

E mamãe? O que dizer dessa mulher maravilhosa que preenchia o meu outro lado? Se papai era o corpo sólido, ela, evidentemente, constituía-se no espírito materializado, na beleza angelical e pura, na santa que venerava todas as horas, de modo incansável. Mamãe, a bebida mais gostosa, o vinho mais doce que embriagava os lábios, a fruta apetitosa que saciava a fome do filho com carinhos e atenções especiais. Entretanto, com todos esses atributos, mamãe não passava de uma criança abandonada. Às vezes, eu sonhava que ela havia sido deixada por alguém que eu não distinguia bem a fisionomia. Largada, coitada, à sorte, num pequeno cesto, à deriva, à frente de transeuntes que passavam ao largo e lhe viravam o rosto, indiferentes à sua solidão.

Embora lutasse para parecer alegre, no fundo algo me dizia que um vazio muito grande embaraçava seus passos. E por que se separou de papai? Por quê? Dava-me vontade de sentar em seu colo e perguntar, indagar, conversar como adulto, como gente grande. Contudo, nas poucas oportunidades em que ensaiei partir para o assunto, ao aproximar-me, sentia-a temerosa, intranqüila, afogueada, tal como um pássaro perdido, vivendo a contragosto em ninho alheio.

Agora, esperaria a hora oportuna para entregar o presente. Mamãe fizera uma manobra rápida para que o embrulho em papel vermelho com um laço discreto chegasse ao porta-malas sem que ele desse por conta. Foi fácil. Não enfrentamos embaraços. Do nosso lado, dando uma força, o motorista. Assim que saímos, vi pelo retrovisor que o bom homem me dera uma piscadela, acompanhado de um sorriso de cumplicidade.

Finalmente chegamos à capital. Amava o burburinho dessa metrópole gigante, os ônibus, as pessoas de um lado para outro, atormentadas com seus afazeres. Semáforos demorados, a fila interminável de automóveis de todos os tipos e cores, buzinas, gritarias, a vida fluindo rápida, engolindo os minutos. Num dado momento papai virou-se para meu lado e perguntou:

— Com fome?

Balancei a cabeça afirmativamente. Algumas quadras à frente, paramos num restaurante em que já havíamos estado anteriormente. Uma moça solícita, logo que reconheceu papai, veio ligeira, ao nosso encontro, abrindo passagem e indicando um dos imensos salões luxuosos. Assim que nos sentamos à mesa, e depois de pedido meu prato preferido (o garçom sabia de cor: nunca mudava), disse que precisava ir ao banheiro. Uma mentira convencional. Na verdade, corri para os fundos do prédio que abria uma saída para o estacionamento.

O motorista, em pé, ao lado do carro (como a esperar-me), se apressou a abrir o porta-malas e de lá retirei o misterioso embrulho. Quando retornei, papai falava ao celular, de costas para mim. Fui me aproximando, devagarinho, pé ante pé, a respiração contida, um sorriso largo, o coração batendo acelerado.

— Pai!

Ele virou-se, interrompeu a ligação com um “Te ligo depois”, levantou-se, colocou o aparelho sobre a mesa, abriu os braços e caminhou ao meu encontro. Dois passos, apenas.

— Campeão, o que é que temos por aqui?

Acocorado, beijou-me longamente a testa.

Naquele instante, todos os que estavam acomodados em mesas à volta, pararam para olhar nós dois. Ouvimos, de repente uma aclamada salva de palmas. Se tivesse combinado com alguém aquela recepção momentânea, certamente não teria dado tão certo.

— Por essa seu pai não esperava. A cada dia você me surpreende. Obrigado, filho.

Papai fez uma reverência com a cabeça em agradecimento às palmas recebidas e em seguida voltamos a sentar-nos. Antes do primeiro gole de refrigerante, enquanto papai desembrulhava a enorme caixa com a velocidade febril que atropelava a sua idade, virei-me para ele e comecei a falar. Tudo o que havia em volta da gente me dava a impressão de estar em estado de suspensão. Eu sentia que os pratos, os copos e os talheres postos sobre as mesas vibravam com a nossa presença.

— Queria dizer uma coisa — falei com efusão —, mas não sei como começar. Só sei que amo muito o senhor e quero que o senhor nunca se esqueça de mim.

Papai deixou-se envolver, encantado pela felicidade que sentia. Capturei duas lágrimas rolando pelo canto dos olhos, escorrendo, ligeiras, por sobre as maçãs do rosto. Parecia embalado por um doce acalento, ao tempo que lutava, com todas as forças, para fugir de lembranças e melancolias amargas que o definhavam interiormente. Nesse instante, embora não entendesse muita coisa do mundo dos adultos, vi, diante de mim, um homem forte, mas sozinho; senhor absoluto de si, mas desprotegido; dono da verdade, mas amargurado; desorientado no espaço, como se tivesse perdido a noção do essencial e se sentisse, por isso, preso nos laços do impenetrável de seus pensamentos mais lúgubres. Recordo que não consegui conter a emoção e me abri num choro soluçante que demorou a passar. De súbito, ele deu comigo a observá-lo. Nossos olhos se encontraram, ele se perturbou. Constrangido, vacilou, ameaçou baixar a cabeça, mas acabou sustentando o olhar e enfim se abriu num sorriso mágico.

— Você será sempre o meu campeão. Não importa quanto tempo passe, jamais deixarei de amá-lo. Você foi, é, e será sempre o presente mais bonito que recebi lá do céu. E sabe de uma coisa? Só posso agradecer à sua mãe por isso e também por esse momento. Acredite, meu filho, ele será eterno.

Após essas palavras, abraçou-me novamente e tomou as minhas mãos entre as suas. Até hoje, tantos anos depois, guardo, ainda, dentro de mim, o encanto e a magia daquele instante, como se fosse único e verdadeiro. Aliás, foi realmente único e verdadeiro, puro, como seu gesto bucólico de pegar as minhas mãos e me aninhar contra seu peito, e eu me lembro que me senti feliz e seguro ouvindo as batidas descompassadas do seu coração.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Sem cura

Sem cura

(*) Texto de Aparecido Raimundo de Souza.

Amigo leitor serei curto e grosso. Farei uma pergunta direta e reta, uma pergunta básica, sem meios termos, sem rodeios. Responda antes que você também se transforme na próxima vítima. Se já não é. Qual destes dois tipos de câncer não tem cura:
SERRA, DILMA,
DILMA, SERRA,
SERRA, DILMA,
DILMA, SERRA,
SERRA, DILMA,
DILMA, SERRA,
SERRA, DILMA,
DILMA, SERRA,
SERRA, DILMA,
DILMA SERRA,
SERRA, DILMA,
DILMA, SERRA,
SERRA, DILMA,
DILMA, SERRA,
SERRA, DILMA,
DILMA, SERRA,
SERRA, DILMA,
DILMA, SERRA,
SERRA, DILMA,
DILMA, SERRA?
Antes de expressar sua opinião, é bom que compreenda, desde agora, alguns pontos cruciais. Estas doenças DILMA E SERRA, atacam sem aviso prévio. Como erva daninha, se dilatam. Uma vez instaladas em seu organismo, não existe cura, não há saída, não há volta. Seus sonhos, desejos, vontades, seus dias de vida útil estão contados. Você, aos poucos, entrará num processo de definhamento, e não perceberá. A extenuação é tão forte, a degenerescência da carne é tão vil, tão silenciosa, que corrói suas entranhas de forma espantosa. Estes dois intrusos (até agora desconhecidos da Organização Mundial da Saúde) transformarão você, em questão de dias, num corpo inerte. Do estado cadáver, saiba, de antemão, não há volta, só ida. Não há futuro, só retrocesso... E ao invés de quatro, sete palmos de terra... Estes tumores vêm pelo ar, entram na sua casa pelos aparelhos de rádio e televisão, mascarados pelos horários políticos gratuitos, fazendo as cabeças dos infelizes indefesos, inflamadas pelas repetições desenfreadas, como um látego martirizante, inconstante, intermitente...
DILMA, SERRA,
SERRA, DILMA,
DILMA, SERRA,
SERRA, DILMA,
DILMA, SERRA,
SERRA, DILMA,
DILMA, SERRA,
SERRA, DILMA,
DILMA, SERRA,
SERRA, DILMA,
DILMA, SERRA,
SERRA, DILMA,
DILMA, SERRA,
SERRA, DILMA,
DILMA, SERRA,
SERRA, DILMA,
DILMA, SERRA,
SERRA, DILMA,
DILMA SERRA,
SERRA, DILMA
DILMA, SERRA,
Estes cancros malignos, portanto, debilitam, prostram, subjugam e abalam. Sobretudo, contribuem para que você, meu amigo, se humilhe, se quede vencido, vergado a debilidade da sua própria estupidez. É o caso do nosso Brasil. Ele está às portas da derrota, da banca rota, do jugo vil e infame, atado, de pés e mãos, a estas desgraças sem precedentes. E sabemos todos que não existe um remédio milagroso e eficaz. O antídoto que esperamos como um milagre a renascer das cinzas, ainda não foi descoberto pela ciência. Mesmo norte, tais doenças, cônscias da sua voracidade, da sua fome de destruição, parecem ter vida própria; vida e fôlego em abundância. Por esta razão, se prevalecem se alastram se espalham, se estendem, se multiplicam e se reproduzem. Contagiam, propagam... Esmagam...
Diante disto, meu amigo leitor, você entendeu as minhas colocações? Qual destes dois tipos de câncer, então, não tem cura?
SERRA, DILMA,
DILMA, SERRA,
SERRA, DILMA,
DILMA, SERRA,
SERRA, DILMA
DILMA, SERRA,
SERRA, DILMA,
DILMA, SERRA,
SERRA, DILMA,
DILMA, SERRA,
SERRA, DILMA,
DILMA, SERRA,
SERRA, DILMA,
SILMA, SERRA,
SERRA, DILMA,
DILMA, SERRA,
SERRA, DILMA
DILMA, SERRA,
SERRA, DILMA,
DILMA, SERRA...
Se você não conseguiu atinar com a chave do segredo, estas desgraças, infelizmente, vão continuar a corroer você, minuto a minuto, segundo a segundo, INDEFINIDAMENTE!...

(*) Aparecido Raimundo de Souza, 57 anos é jornalista.