À GUISA DE EXPLICAÇÃO.
"Dieta dos pontos" é um dos muitos escritos de Aparecido Raimundo de Souza onde sentimos aflorar com magnificência e soberba o seu lado alegre, divertido e cômico. Uma pérola digna de ser lida, relida E APRECIADA.
(**) Carina Bratt
DIETA DOS PONTOS
(*) Texto de Aparecido Raimundo de Souza
Fosfolônio, como sempre fazia antes de ir para o trabalho, encostou o carro junto à calçada defronte de uma farmácia. Estava furioso em decorrência de uma cefalalgia que o atormentava havia anos. Por essa razão, mais uma vez, iria comprar um analgésico. A coisa se tornara rotineira. Só mudavam os lugares onde parava. Cada dia pintava em seu caminho uma drogaria diferente. Saltou do veículo e entrou no estabelecimento, indo direto ao balconista:
— Bom dia. Vê aí, por favor, um remédio para dor de cabeça...
— O cidadão tem preferência por comprimidos ou gotas?
— Qual o mais eficiente?
— Depende do que o senhor esteja sentindo!
— Dor de cabeça...
— Perfeitamente. Mas onde, exatamente?
— Na cabeça, ora essa!...
— Sei que é na cabeça, mas compreenda a insistência...
— Entendo seu desvelo e sinceramente agradeço. Que diferença faz?
— Muita. Levando em conta o lugar exato, poderá não ser o que o senhor pensa que é.
— E como fazer para atinar com o “xis” dessa porcaria?
— Veja bem. Se o senhor mostrar a localização, talvez cheguemos a um consenso.
— Já falei.
— Não é bem assim. Preciso que indique a posição.
Meio sem paciência, Fosfolônio levantou a mão esquerda e apontou a parte posterior do cachaço junto à vértebra cervical.
— Aqui.
— Posso ver?
— A dor?
— Não, cavalheiro. O ponto onde ela mais lhe castiga.
Fosfolônio girou o corpo ficando quase de costas para o atendente.
— À vontade.
O rapaz tocou com os dedos, projetando ligeira pressão sobre a pele.
— Hum! Nesta região não é dor de cabeça.
— E o que é?
— Enxaqueca.
— Enxa... Enxa... Enxa... Enxa o quê?
— Enxaqueca.
— Certeza?
— Absoluta. Sei diferenciar dor de cabeça de enxaqueca e vice-versa.
— Não é a primeira vez que esse troço me ataca.
— E o que o senhor toma nessas ocasiões?
— Ora, Doril, Anador, Tylenol, Melhoral, Dipirona, Dorflex, Paracetamol, AAS, qualquer bosta...
— Essa é a razão!
— Que razão?
— Que o seu mal não cura. O senhor ingere substâncias terapêuticas erradas. Lembre sempre: auto-medicação não traz soluções, cria problemas.
— Mas é uma dorzinha ingênua...
— Que pode transformar seu quadro em meningite, tonteira, virar hemorróidas, tirícia, hepatite ou até descambar para um aneurisma cerebral com parada cardíaca irreversível.
Fosfolônio deu uma risada sem graça.
— Meu prezado, quem atura uma esposa rabugenta igual à que tenho em casa, mais uma sogra chata, de lambuja e, ainda, duas cunhadas de contrapeso, o resto acaba virando café pequeno...
— Falo sério. Não estou brincando.
— Sendo assim, o que aconselha?
— Bebe?
— Se algum companheiro lá do trabalho me convidar e pagar uma geladinha, não rejeito. Sabe como é: não sou de ferro.
— Fuma?
— Por tabela.
— Não entendi.
— O pai da minha mulher. Meu sogro. Aliás, o infeliz come com farinha...
— Com farinha?
— É. O desgraçado acende um cigarro de 10 em 10 minutos. Empesteia com uma fumaça nojenta todos os ambientes da casa, ou seja, dos quartos ao banheiro. Até já me transformei, como dizem na linguagem popular, em tabagista passivo. Ou seja, sou obrigado a respirar nicotina, da braba, 24 horas por dia. Ai de mim se abrir o bico e reclamar. Suportar um velho asqueroso, sogra e esposa é dose para elefante. As adolescentes, então, Credo em cruz! Por isso, ao sair para a rua, a primeira coisa que me vem à mente é uma porta de farmácia. Estou nessa rotina desde que me entendo por gente.
— Uma pena!
— Alguma sugestão?
Antes de responder, o vendedor foi até uma das prateleiras e de lá regressou com uma caixinha.
— Injeção de Novalgina. É tiro e queda.
— Injeção?
— Não há coisa melhor. Inclusive, mais eficaz que os comprimidos. Age rápido. Pá, puf!
— Odeio seringas e agulhas.
— Única alternativa. Em dois segundos lhe aplico isso nas nádegas. O senhor sairá com a alma leve.
— E eu, certamente, com a bunda doendo. Desculpe, não quis ofender. Calma! Não existe essa droga por outra via?
— Que outra via?
- Sem ser na... Sem ser no traseiro?
— No braço. Cortamos estrada fazendo um intravenoso.
— Esqueça.
— Posso lhe prescrever um supositório de Transpumim, de Glicerina, ou de Magnopirol.
— E como eu usarei?
— Por um atalho não muito ortodoxo.
— Seja claro, por gentileza. Ortodoxo ou paradoxo. Desconheço os termos técnicos que vocês usam. Estou acostumado a chegar na farmácia e comprar remédio para dor de cabeça. O resto você já sabe: Sedalgina, Dorsedin, Febralgin etc. etc. etc...
— Bem, o supositório a gente costuma enfiar... Quero dizer, introduzir no orifício anal. Se o...
Nessa altura do bate-papo, Fosfolônio danou a rir desordenadamente. Uma grande parte das pessoas que circulava em outras seções, levadas pela curiosidade, resolveu fazer uma rodinha para bisbilhotar. Os dois seguranças de plantão, com o intuito de evitar tumultos e possivelmente algum tipo de roubo, se posicionaram estrategicamente, cada um por detrás de enormes prateleiras. De onde estavam, podiam acompanhar claramente o diálogo e vigiar o resto da loja, bem como a porta principal de entrada.
— Sabe, meu rapaz, conversei tanto, ou melhor, papeamos de tal forma que a enxa... Sei lá que nome você deu à coisa, foi, de vez, prás cucuias. Estou novo em folha. É como você, instantes atrás, havia previsto. Alma leve. Estou de alma leve. Neste exato momento estou me sentindo como um passarinho. E atente para um detalhe: não precisei levar a agulhada no caneco.
Virando, então, ora para os indiscretos que formavam um círculo de fisionomias engraçadas, ora para os demais funcionários acotovelados no balcão, Fosfolônio passou a falar e a gesticular um pouco mais alto que seu costume habitual. Parecia furioso e colérico, mas no fundo, estava calmo e tranqüilo, só queria sacanear e tirar um sarro com o pobre do atendente.
— Pessoal, imaginem que entrei aqui para comprar um comprimido para uma dorzinha chata, na nuca. O distinto queria me empurrar uma injeção. Recusei a proposta, claro, não sou besta. No entanto, dei linha à pipa para ver até onde ia a capacidade do espertinho. Sabem o que ele teve a coragem de fazer comigo?
O silêncio era total. Podia se ouvir uma agulha caindo.
— Me indicou um remédio... Pasmem... Me indicou um remédio para... para... Me indicou um remédio para enfiar no... no... no... fiofó... Acho que ele imaginou que eu fosse de Campinas, interior de São Paulo ou de Pelotas, no Rio Grande do Sul.
Girando nos calcanhares e motejando a mais não poder, Fosfolônio saiu apressado, deixando a multidão em meio a um mar de gracejos e zombarias. O infeliz do atendente, com cara de trouxa, sem saber onde enfiar o acanhamento, escondeu o rosto entre as mãos, tentando, inutilmente, ocultar a vergonha.
(*) Aparecido Raimundo de Souza, 57 anos é jornalista.
(**) Carina Bratt secretária e assessora de imprensa
segunda-feira, 12 de julho de 2010
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